14.5.26

Menina e Moça

 Há uns quinze anos era ainda menina e moça, nessa altura decidi fazer da minha vida uma nova experiência. Um acto re-iniciático maior. 

Pode parecer fácil mudar de vida quando é no sentido do prazer, mas desenganem-se. Fácil é um dia assistir ao pôr do sol, ouvindo uma música escolhida, tirar uma foto, postá-la no Instagram para os que necessitam de mais aprovação, mas mudar de vida é todo outro processo. Ignorar todas as constantes solicitações do mundo das responsabilidades, impostos, imobiliário, salariado, dívidas, burocracias e em vez disso, adoptar uma atitude baseada no “que muito bem me apetece”. Coragem aos que tentam, o mundo inteiro está contra vós. 

Os anos passaram, os prazeres também. Para onde vocês vão, estou eu a voltar. Gabo-me agora assim, como um cesto.  Foi uma vida interessante, muitas fotos para o provar, uma conta bancária  em montanha russa, uma existência vivida. Uma vida à procura de picos de dopamina, inevitavelmente acompanhados de momentos baixos que tinham que ser rapidamente transformados. Foi chão que deu uvas. chego a esta fase pós menina e moça, farta de tanta boa vida. Já não quero bons restaurantes, roupas novas, viagens só para ver. Basta desta exaltação da procura de momentos de sublime temporário.


Sou uma mulher madura, aceito estes prazeres se vierem até mim, mas estão agora delegados a um segundo plano. Como fazemos com os nossos amantes.


Procuro agora uma outra felicidade, a que Aristote chamou de Eudemonista, só a palavra já tem tudo para agradar Eu e Demónio. O seu significado funcionou como um portal nesta minha eterna crise de meia idade. Aquela felicidade quando saímos de nós e olhamos de fora para a nossa vida e nos perguntamos se estamos satisfeitos. 


Satisfeita com a minha tribo, no meu caso, com as minhas diferentes tribos que gravitam nas minhas diferentes paixões, a dança, as artes visuais, a família. 


Satisfeita com a minha autenticidade, faço realmente o que escolhi fazer, sou livre e ouço-me e faço-me. 


Satifeita com o processo em que me movo, com os progressos que faço na arte, no encontro com os outros, na vida que construo. Com a viagem, muito mais do que com os resultados. 


Já não sou menina, já não sou moça. Sou eu. 


Encontram mais textos do grupo Largo no Substack

2.5.26

Inconfidências

Ao contrário do que muitos pensam, sou uma  pessoa muito rígida, de ideias extremamente fixas, apesar de gostar de passar uma falsa ideia de ser alguém ligeiro e de espírito aberto. Uma das ideias mais fechadas que cultivo há várias décadas, é que, devido ao meu espírito aventureiro, só me interessam viagens longínquas a países com péssimas infra-estrutras turísticas e outras. O caminho tortuoso será sempre recompensado.

Acontece que quando engravidei pela primeira vez, calhou que a minha barriga já estivesse enorme na altura do Verão. Com a generosidade que os caracteriza, os meus pais convidaram-me a partilhar com eles uma semana no Algarve. Pensei em todas as mordomias e fingi não ver, com algum desdém, todas as criticas que sempre fiz às pessoas que passam sempre ferias no mesmo sítio, como os meus pais. Pessoas sem curiosidade, sem espírito de aventura. Pessoas para quem o conforto e o doce faire niente é o sinal equívoco de proximidade com o paraíso.

Disse que sim, e passei a primeira semana de uma tradição anual na mesma zona do Algarve, quase sempre na mesma casa. A família cresceu, a minha barriga, a da minha irmã e da minha cunhada. Somos muitos. Nem sempre somos os mesmos, nem sempre somos todos. Mas vamos sendo, sempre juntos, sempre no mesmo sítio, na mesma semana, para grande entusiasmo dos mais novos, felicidade dos mais velhos e sentido de estrutura e memória para os do meio. 

Já não sei quem sou.


O Largo emigrou em força para o Substack, estamos todas no mesmo sítio, mais os menos no mesmo dia. Passem por lá.

17.4.26

Num abrir e fechar de olhos

Num abrir e fechar de olhos tornei-me obsoleta.

Não sei escrever no substack, nem sequer sei como é que isto se escreve, não sei fazer perguntas ao ChatGPT, não sei pagar impostos pelo portal, quando entro numa sala cheia de computadores o sistema vai sempre abaixo como se eu do uma espécie de anticristo da intranet, não sei tratar de nenhum documento importante para a vida adulta, não sei viver a vida adulta.

Há uns dias, disse a uma amiga que nunca tinha viajado sozinha, nunca tinha ido a uma festa sozinha, enumerei uma lista de coisas que nunca tinha feito. A sua resposta foi dada com entusiasmo e optimismo: “podes sempre começar, és livre”. E aqui entra um dos grande desentendimentos da minha vida. Quando eu digo que nunca fiz algo que toda ou muita gente faz, não está implícito, mesmo que admito que pareça e compreendo a confusão, que o quero fazer. Não quero na maior parte das vezes. Pelo menos, não essas coisas. Ou pelo menos, não agora. Talvez não nunca.

Há processos e caminhos, que por muito úteis que possam ser, não me são atrativos. O útil não me interessa por ali além. Não me apetece aprender tudo o que me aparece à frente. Quero mesmo ser muito burra em muito domínios, a minha curiosidade não é ilimitada e a minha vontade de progresso não é gigantesca. Talvez isto faça de mim uma pessoa com mente fechada. Pelo menos, em certas paragens, faz de certeza. Mas há sítios que não quero ir. Há vidas que não quero viver. Portas fecham-se com toda a certeza, mas eu sempre me interessei mais por janelas e rachas nas paredes.

Gostava muito de saber mais sobre cogumelos, por exemplo, mas não quero que seja um computador a explicar-me, prefiro estar em contacto com o sujeito directamente. Prefiro experimentar. Eu gosto mesmo é de poder errar. E de estar muito enganada. E de me contradizer. E não ter certeza de nada.

27.3.26

Robots como nós

Entrei num certo tipo de vida seduzida pelo processo, ignorando o resultado, conquistada pelo absurdo. A minha presença neste mundo não serve para nada. Passo horas, dias, meses em actividades que não interessam a ninguém, compreendida por muito poucos. Sou uma aleijada na sociedade. Não contem comigo para nada. Não estou aqui para isso. Nem sei porque estou aqui, sei apenas que estou, que sou e nesse estar sou imensamente feliz e livre e infeliz e presa. Não queria que fosse diferente, tenho objetivos não definidos e razões para me levantar da cama que não são racionais. Tenho problemas em cumprir horários, tenho dificuldades em cumprir. Se eu fosse importante para a sociedade, se os manicómios não estivessem cheios, provavelmente já me tinham tentado convencer da pertinência de uma camisa de forças. 


Hoje em dia sou muito raramente robotizada, a IA não me pode substituir, raramente penso com lógica e poucas vezes ajo como esperado. 


Mas nem sempre fui assim, já tive uma existência útil e produtiva, onde ganhei dinheiro e dei muito a ganhar a quem não respeitava, muito menos admirava. É isso ser robot e adulto, ser produtivo, trabalhar para o final do mês, perceber as regras do jogo, usá-las a nosso favor, ser o orgulho dos nossos pais, motivo de conversa amena nos jantares sociais. Uma vida desperdiçada entre as horas no trânsito e as que se contam até ser uma hora aceitável para se sair. Nunca me dei bem nesse jogo doentio do salariado, excepto nos dia trinta de cada mês.


Hoje está sol.



O Largo existe. E eu escrevo e espero ler.

20.3.26

Cartas postais

Numa outra vida vinha passar as férias grandes a Portugal. Matava a saudade de muitas pessoas, de muitos lugares, do muito mar, de muitas comidas, mas acima de tudo, vinha matar saudades da minha vida de filha. Ser mãe não é algo que me saía naturalmente. O sacrifício, a falta de espontaneidade, a vida com regras e com outros impostos, nada disso sou eu, nem nunca vai ser. Que bom é a maioridade dos filhos.

O francês vinha ter connosco uns dias e era nessa altura que iamos visitar Portugal profundo. Para mim, a única portuguesa, era finalmente uma aventura. Sempre tinha sido mais atraída pelo longínquo e nesses quinze Agostos em que fui uma parisiense, o Gerês parecia-me exótico. Levar os meus filhos e um homem francês ao « meu » país que não conhecia, parecia-me uma tremenda odisseia. E queria documentar e queria partilhar. Mas não queria partilhar com almas que passassem distraídamente pelo blogue. Foi assim que surgiu a ideia do postal ilustrado. Uma correspondência no blogue que emitia directamente à Helena Araújo, em troca de todas as dicas preciosas que ela me enviava da terra que muito bem conhecia. Essa sim a “sua terra”. 

É engraçado, gostei de ter vivido essa vida, talvez a minha décima primeira, como gostei de viver quase todas as vidas que tive, mas de nenhuma tenho saudades, a nenhuma queria voltar. Que fiquem as cartas postais para que não as esqueça.



O tema “cartas postais” é o tema do Largo desta semana, e a Rita Maria Dantas enviou já alguns.

5.3.26

Geografia

Sempre gostei de mapas, globos e atlas. Lembro-me de um livro, que havia em  casa dos meus pais, com as montanhas e os rios, sem as fronteiras artificiais que os homens tanto gostam e tantos problemas nos causam. Os mapas sempre foram um convite à viagem platónica. Fui muito teórica na adolescência, com os amores e com as viagens.  De fora, nunca ninguém imaginaria como fui feliz e completa.

Só em adulta comecei a namorar e a viajar realmente, com as zangas e os atrasos que isso implica.
Tenho pensado muito em geografia por estes dias, mas de uma forma diferente do habitual. Não tanto com o sonho de conhecer novos territórios, mas com o pesadelo de ter de fugir. Tenho um filho que vai ser maior  no final do ano, idade do serviço obrigatório que o presidente do país dele quer instaurar novamente. E eu olho para o mapa.  Para onde vou fugir para que o meu filho, que nunca andou em lutas no recreio da escola,  não tenha que matar ou ser morto?
Gostaria de acabar de outra forma, mas estamos em Março de 2026.

Este tema faz parte do colectivo  Largo. Fui a primeira a acordar, já virei acrescentar os links devidos.

20.2.26

Raia

Estávamos num barco onde dormíamos ao relento, não me lembro se tínhamos sequer sacos cama, não tínhamos frio, não tínhamos duche, não tínhamos net, nem telefone, não tínhamos o que noutras vidas se chamaria de conforto. 

Naquele dia, quando acordámos, vimos mantas-raias a saltar da água, saltos altos para depois mergulharem espalmadas no mar. Não estava um dia particularmente bonito, diriamos, se estivéssemos numa outra vida, numa vida do dia a dia. Estava cinzento, A visão era um espanto e espantados estávamos. Não me lembro de nada ao largo. Não sei se haveria terra ao horizonte. Nada disso importava. Colocámos as máscaras e os tubos. Os nossos filhos eram pequenos e não iam nadar, tinham acabado de acordar, não queriam. O francês estava lento. Mas eu estava naqueles dias em que não sabemos hesitar e mergulhei. Lembro-me que o mar estava com pouca luz, no início fiquei a nadar na superfície. Nada mais importava. Nada mais importava. Em baixo de mim, um cardume da raias enormes nadava. Deslizava. Voava de baixo do mar. Eu seguia. Hipnose. Uma paz divina. Meço as minhas palavras. A cura. E nada mais importava. 

Já passou uma década. E quando penso nesse momento, nada mais importa novamente.  



Este texto responde a um desafio do grupo Largo

Mariana Leite Braga

Rita Maria Dantas

Maria João Caetano

16.2.26

Cultivar o meu jardim

Há uns dez anos atrás, os meus três avós ainda eram vivos, eu vivia em França e tinha mais tempo livre do que tenho agora, mas muito menos liberdade. Decidi escrever a história de cada um deles, para a transmitir aos meus filhos, para tentar desvendar uns segredos familiares e para fortalecer os laços com os meus avós. Um ano depois, o francês, mais dotado que eu nestas coisas manuais, cozeu à mão dois dos livros.

O da minha avó materna ficou por escrever. Eu era demasiado inexperiente na altura e a falta de tacto que eu tinha então, era a mesma que tenho agora. 

Não soube respeitar a sua versão, quis questionar, não sustentei os tempos que eram necessários entre cada confissão. Quis saber tudo e quis saber logo. Matei a galinha de ovos de ouro. A minha avó anunciou-me sem piedade que não queria que eu escrevesse o livro.  A partir dali apenas me passaria receitas de cozinha.

Quis tanto cultivar o meu jardim que dei-lhe demasiado sol. Demasiada chuva. Matei-o de tanto o querer ver viver. 



Texto escrito para o Largo. A Marisa Maurício e a Mariana Leite Braga também responderam esta semana a este desafio.

6.2.26

Tropical

Rajadas levam tetos de casas. Milhares de árvores são derrubadas. Rios desbordam, o mar destrói a costa, falésias desmoronam. Pessoas desalojadas. Idosos abandonados. Mulheres choram por ajuda. Não vem ajuda. Não vem electricidade, não vem água, electricidade, comida. Socorro, não vem.  
Políticos, só vêm quando percebem que podem ganhar votos. 
Que podem ganhar. 
Mais.

Meu tropicalismo é dark. 
O meu tropicalismo são as cheias em Alcácer do Sal, o vídeo de um homem a apelar ajuda à população, no Instagram, no meio da sua sala com água até à cintura a poucos metros da Comporta. 
Comporta. Terra de praias privadas. 
Bilionários com empatia apenas com os seus sapatos com sola vermelha. 

O meu tropicalismo é dark. 
Homens de setenta anos em Leiria, a subir sozinhos ao telhado que ninguém ajuda a reparar. A morrer a tentar. Na televisão, membros do governo a arregaçar perfomativamente as mangas, a reter ajudas financeiras obviamente urgentes porque “as pessoas vão receber o salário no final do mês”. Uma frota fúnebre de carros com um serviço de jornalistas agregado a registar palavras ocas. 
Que vento a 140 km/h as leve. 
Voluntários a ajudar a população, a mostrar que a anarquia é a solução, a única neste momento de governos incompetentes e sem vontade.

O meu tropicalismo é dark. 
Com emigrantes a ajudar o país que os acolhe, empresários a dizer que sem a mão de obra emigrante a sua empresa tinha que fechar a um líder de um partido anti democrata que apela a um saudosismo com três Salazares e que semeia ódio a ignorantes que olham para o dedo quando se lhes aponta o horizonte.

O meu tropicalismo é dark.
Estamos entregues ao bichos e os bichos querem-nos comer. Vivemos numa selva tropical. E não estamos no cimo da pirâmide.



Este texto responde ao desafio do grupo de escrita Largo. A Mariana Leite Braga respondeu ao desafio.


O tema : Tropical e eu inspirei-me muito nos Noporn e no Madd Rod quando escreveram a música “Tropicalismo Dark”. 
Aproximamo-nos muito da América Latina nestes últimos tempos.




30.1.26

Desejo

 Ainda não há muito tempo, para escrever sobre desejo, escreveria sobre viagens, sexo e outras escapadelas menos lícitas. Mas, com o nó que anda a ser dado ao Mundo, vejo-me altruísta mesmo na intimidade dos sonhos, com as entranhas mais próximas da sorte dos outros. 
Como se de repente, sentisse o que apenas só tinha sabido até aqui. Estamos todos ligados. 
Não se pode ser feliz no meio da tristeza, não se construi felicidade em cima da dor.
Gaza, orgasmo, Kiev, exctasy, Minneapolis, pastel de natal, bairro do Talude, Radiohead… vivemos vidas sem sentido, nada pode ser pleno e florescer na sua totalidade. Como ainda nos aguentamos em equilíbrio em cima da corda, se nenhum de nós é funâmbulo?




Escrevi este texto para responder ao desafio do grupo Largo desta semana. 


23.1.26

Sair da bolha

Só uma história bem contada pode salvar o mundo. 
Podemos ser muito bons a fazer contas, podemos ver todos os noticiários e conhecer todos os factos, podemos até andar numa escola com colegas de carteira com realidades radicalmente diferentes da nossa. Não perceberemos nada se ninguém nos contar bem uma história. 
Tudo o resto é acessório, tudo o resto é inútil, tudo o resto é vão.
Dizer que a só a arte nos pode salvar, pode parecer demasiado bonito, mas é a mais pura realidade. 
Temos de sair da nossa bolha para compreendermos o mundo em que vivemos. A vida que temos. A realidade que nos rodeia.
Arriscamo-nos a morrer e a sair desta mais rica experiência sem ter percebido nada. Ou muito pouco.

Sair da nossa bolha e entrar na bolha dos outros. 

Lembro-me de uma banda desenhada sobre a vida de um sírio que se viu obrigado a fugir do seu país. Até lá tinha visto notícias mal dadas, apressadas, como o fazem todos os noticiários. Notícias que nos entram no cérebro, factos, números, imagens. Mas foi com a “Odisseia de Akim” que me vi na pele de um ser-humano como eu, que perdeu tudo, como também eu posso perder, que teve de fugir, que se viu ser  desumanizado, a ser tratado como se fosse uma coisa indesejável. Um ser humano como eu que um dia viu a sua vida virar do avesso. 
A humanidade precisa de um reset.
O jornalismo tem de ser repensado. As redes sociais nem se fala. O algoritmo tratado como a ferramenta perigosa que pode ser. 
O homem tem de ser humano. O humano tem de habitar o Homem. Tudo o resto é acessório. Tudo o resto não é válido. Tudo o resto é decoração.
O que estamos a fazer se só sentimos as nossas dores?
Que aventura incompleta é esta,  se só virmos o mundo com os nossos olhos? Caminharmos apenas com os nossos próprios sapatos?

Esta semana, o desafio do Largo foi aceite por:


16.1.26

Sangria

 A vida no início de 2026. Um jogo de cintura entre uma vida doce que construímos e uma vida de caos e destruição que ao redor de nós ganha terreno. 
Uma sangria real alcoólica e frutada que nos leva para outros mundos melhores e que nos alegra a vida e a outra, essa sangria absurda em que muitos vivem e morrem por causa da desumanidade de uns quantos com grandes e pequenos poderes. 
Nesta dança, tentamos um equilíbrio bizarro entre o nosso quotidiano e a visão dos outros.
Eu bebo sangria doce e sei que a outra sangria, a muito temida se aproxima. 
Continuo a beber. 
Continuo a viver. 
Não sei mais o que fazer. Sobreviver aterrada com as escolhas dos outros e com a fatalidade de muitos. Continuar sabendo que um mundo melhor era possível, mas a maioria não quer ou não sabe ou não sonha.


Sangria é o tema do grupo Largo. Espero colocar links este fim-de-semana quando finalmente recuperar o meu computador.

8.1.26

Naperon

Detesto naperons. 

Mesmo os que as minhas avós fizeram e tentaram fazer-me amar. Sobretudo esses, odeio-os. Cheiram-me a submissão feminina, ao ócio que lhes era permitido e imposto e que aprenderam a gostar. Vejo-os como um caso de síndroma de Estocolmo.  Gostar de uma ocupação de tempos livres obrigatória. 

O que mais se podia fazer com o tempo livre se se fosse mulher nos anos cinquenta? Bolos. Nunca tinha pensado nisso, a partir de agora também odeio bolos. Se forem daqueles mesmo bons, feitos com amor e bons ingredientes, pior.  Casas arrumadas e cheirosas. Roupa passada a ferro. Penteados alinhados.  A lista não é muito mais longa, felizmente, o que mais podiam fazer? Arranjos florais? Não os suporto.  

Há num álbum de família uma foto da minha avó materna com uma  daquela espingardas de caça, não sei o nome, mas não faz mal, também não sou uma IA. Matar animais inocentes. Prefiro.


Este tema foi escolhido no grupo Largo, em breve virei aqui colocar links do que vai sendo publicado. 

3.1.26

2026

Nunca fiz resoluções na passagem do ano. Talvez há muitos anos em festas de garagem, onde os meus pais eram os reis da pista, com a música « meu amigo Charlie Brown » e as doze detestáveis passas em pé em cima de um banco em desequilíbrio. Tenho boas lembrancas desses tempos de criança, e não sei porque é que agora detesto esse tipo de música e esse tipo de passas. E também não sou fã de garagens. Talvez o que é do passado, deva ficar no passado. Temos que saber de onde vimos, mas gosto muito desta sensação de surpresa que há nesta maravilhosa experiência que é estar viva.  Talvez por isso, acho chatas quase todas as tradições, todas as experiências que se repetem e supostamente nos confortam. O conforto é algo que considero muito sobre-estimado. Já vi sofás a custarem dez mil euros euros. Haja falta de amor ao dinheiro. Haja desprezo à aventura. 

No ano mais feliz e cheio da minha vida tentei ter um blogue, chamava-se “anti sofá” e morreu ao segundo texto. Naquela altura a vida era boa demais para ser contada. Não se pode viver e contar ao mesmo tempo, talvez por isso os melhores livros são os que falam de tristeza e desespero. Alguém verdadeiramente feliz não quer saber do futuro, da posteridade, da literatura. Soam sempre a falso aqueles influenciadores felizes e perfeitos. Eu já fui feliz e perfeita e posso dizer que não podia estar a borrifar-me mais para o resto do mundo. A felicidade quando é plena, tende a ser egoista e privada. 

Hoje a minha vida até é boa, mas não é perfeita, há surpresas, com poucas aventuras quotidianas realmente inéditas, sei sempre onde vou dormir e em que sofá me vou sentar. Talvez por isso, o grupo Largo é tão importante para mim.  Para descobrir o extraordinário nas pequenas coisas. 

Esquecer por uma vez, que o destino é sempre melhor do que o que desejei para mim. E que a melhor resolução é aceitar o que vem. 

Resolução possível, ensaiada aqui;  tentar este neste ano sem precedentes, ter a disciplina para escrever uma vez por semana, nada justifica passar ao lado deste projeto. Obrigada a quem escreve, obrigada a quem lê.

21.11.25

Bode expiatório

De cada vez que arranjamos uma desculpa para não conseguir fazer algo estamos a autosabotar-nos. Não posso ser uma artista relevante porque comecei muito tarde. Não posso dar novamente a volta ao mundo porque já não tenho forças. Não posso e a culpa não é minha. E a vida fica mais pequena. Há quem chame a isso conforto, sabedoria, amadurecimento. Mas na realidade é covardia, falta de imaginação, ânimo. É uma morte lenta.


E é a uma morte lenta da sociedade que conheciamos, com as suas imperfeições, mas com alguma esperança, que estamos a assistir. A culpa agora é dos emigrantes. Num países de emigrantes, alguém conseguiu convencer demasiada gente, que a culpa é de pessoas como nós. Há algo de reconfortante em dizer que a responsabilidade não nos cabe, que não fomos nós que deixámos as coisas chegarem onde chegaram, que votamos nas pessoas que não souberam aproveitar as muitas ajudas que vieram da Europa, que deixamos que não se consiga comprar casa, nem ter bons hospitais, nem boas escolas. A culpa é dos outros. Onde é que se lava as mãos? 







Esta semana, o tema do colectivo de escrita Largo é Bode Expiatório. Já podem ler o da Rita Maria Dantas.

14.11.25

Ainda estou aqui

Ainda estou aqui mesmo que não saiba para onde irei a seguir. Vim de uma história fantasiosa de um país mítico que nunca existiu e para onde nunca se poderá voltar. O Moçambique que me foi contado é mais inacessível que Narnia. Cresci a ouvir contar histórias de crianças pela boca de adultos que nunca cresceram, porque o caminho lhes foi interrompido por uma guerra que chegou de um lugar longínquo, de um lugar real. Cresci e continuei a fugir da realidade dos outros. Não me interessam visões curtas, práticas e eficazes, onde um unicórnio é uma start up que vale um bilião de euros. Muitos quilómetros de distância.

Em 92 tive um sonho, Paris das lumières e um lugar mítico que nos transmitiu um professor que tinha sido Pica minas na guerra colonial. A minha vida parece que dá muitas voltas, mas anda sempre tudo à volta do mesmo. Nas férias da páscoa fomos todos dentro de dois autocarros à pinha de entusiasmo e  hormonas. O sonho tinha pernas para andar e em 2004 comecei a vivê-lo por conta de um francês que conheci em Praga. Em Paris soube o que era o sonho da maternidade, do amor e da cultura que nos entra em cada esquina. E depois quis mais e maior, a felicidade também pode dar-nos ganância. Mesmo quando não é uma ambição de poder ou materialista. Querer viver mais, sempre e mais profundo. Quis então dar a volta ao mundo. Quis ir para a estrada, sem pensar para onde, sem ter onde chegar. E fui sentir e viver. Seguiram-se os atentados em Paris quando pensámos ter voltado para a rotina parisiense, terá sido um mau sonho? Fugi e voltei para Lisboa. Voltei para o pé da minha vida anterior, e ultimamente para Maputo, mas desta vez para a terra real, histórias de adultos contados por crianças. 

Voltar ao café Zambi, na baía de Maputo, onde me cortei na mão quando tinha um ano, saber de onde vinha aquela cicatriz. o que fica em nós dos sítios onde vivemos?
Ainda estou aqui. Mas nunca no meu lugar. Always go a long Way / Give the Day some meaning. 
Saber para onde ir para finalmente chegar. 


Este texto foi escrito em resposta ao desafio do colectivo Largo. Esta semana, a Mariana, a Rita Maria Dantas e a Maria João Caetano  também está aqui.

7.11.25

Fúrias

Fui furiosa durante um período de tempo, no início da minha vida adulta. O meu alvo preferido eram machistas, homens e mulheres, racistas essencialmente brancos e pessoas privilegiadas, quase sempre de direita que não entendiam as dificuldades de quem não tinha nascido com o traseiro virado para a lua. Pessoas que confundiam meritocracia com heranças de família. Fast and Furious.

Com o tempo, comecei a ficar sem paciência. Afastei-me de quem não pensava como eu nesses campos, não me é interessante discutir o que para mim é óbvio. Pode parecer snob, mas é só preguiça e falta de esperança, sei que quem ainda pensa dessa forma, não fez um esforço intelectual mínimo para entender o mundo que o rodeia, ou então está com a dose de má fé necessária para continuar a ter a vidinha que tem às custas de outros. 

Alguém sem a moral ou a honestidade intelectual que agora exijo a quem quer privar comigo. "Exigir" é uma palavra forte, talvez a substitua mais tarde com "só consigo ficar respirar ao pé de... se..." 
Não quero com isto dizer que só falo com quem pensa como eu. Nada disso, adoro mudar de ideias, assim como gosto particularmente quando faço alguém reconsiderar um argumento. Só não o faço em questões fraturantes. E não são tantas assim, estão apenas muito presentes. Existem certas opiniões sexistas, raciais ou de classe que me mostram que ali não vou ganhar o meu tempo, no melhor dos casos ou, no pior, vou acabar a explicar a minha reacção a um senhor policia de segurança pública que, entretanto, alguém chamou anonimamente. 
Então, lá deixei de dar boleia a uma pessoa que era contra o aborto (de outras mulheres), já deixei de ir a almoços onde se come muitíssimo bem, mas onde se diz mal de emigrantes.
A minha fúria retira-me pessoas da minha vida e motiva-me na hora de colocar a cruz no boletim de voto.

Mas, e aqui entra a dolorosa realidade, eu sei que estamos em tempos de cólera, e que nem sempre se vai a bom porto só com amor, ou, no meu caso, distância. Em tempos como os de agora, a cólera tem de mudar de campo. Não é só a vergonha. A cólera é necessária para mudar o status quo. O tal vulcão. Precisamos de uma nova revolução. Precismos de nos zangar alto. Precisamos colocar um fim a este descalabro. O povo dos brandos costumes tem que acordar. Que volte a ser sexy a contestação e o poder na rua! 

PS: Fiquei tão feliz com a vitória de Mamdani como se fosse nova yorquina. Ontem foi um dia sem fúria, um dia raro em 2025.


No colectivo Largo, a Rita Maria, a Mariana Leite Braga também se enfureceram.E a Maria João Caetano estava furiosa mas depois algo aconteceu. 

24.10.25

Máscara

Adoro máscaras. A hipocrisia tem má e injusta reputação. O cimento da vida civilizada entre humanos são as mentiras brancas. Tenho saudades de quando não se dizia à boca cheia o que agora se grita e se vota. Ainda não há muito tempo estava convicta que estávamos a avançar enquanto humanidade. Acreditava piamente que a partir dali era sempre a subir. Tive filhos por pensei que o seu futuro seria cheio de portas abertas, felizes acontecimentos e muita luz. Pari porque achava que a vida deles ainda seria melhor que a minha, pela qual sou já bastante grata, de resto.

Lembro-me com carinho das tardes passadas a rir no escritório entre colegas que só com mentiras suportava e era tolerada. 

Sonho com aquele dia de Verão em que ficámos na praia até tarde para ver o pôr do sol e ele me respondeu que não tinha celulite. Amo que me mintam para serem agradáveis comigo. A realidade não me interessa nada. A vossa verdade absoluta, muito menos. 

Usem máscaras por motivos sociais, psicológicos, higiénicos. Usem máscaras pela beleza do gesto. Usem máscaras para que isto corra bem.

Finjam, por favor. Enganem-me por caridade. 

Lie to me, lay with me.


Outras plumas do colectivo Largo já escreveram sobre o tema da semana :

17.10.25

Pulso

O meu primeiro impulso para a palavra "pulso" é a música. Claro. Evidente. Aquele beat. Aquele ritmo. Aquele som sintonizado como na barriga da mãe.

Boom boom Boom boom. 

A Vida. A vida dos nossos filhos quando ainda fazem parte de nós. A primeira mini ecografia, antes da verdadeira. Aquela onde sabemos que eles existem. Que estão mesmo lá.  Mesmo aqui, em nós. Que temos dois corações a bater dentro de nós. Quando sabemos. Quando sentimos. Sabemos antes. Mas é ali que sentimos. E saber e sentir, que diferença tão grande que é. Sabemos ali que saber não é nada, é só ilusão. Ilusão concreta. Mas ilusão. Irei sempre denegrir a razão, afinal, é o que nos separa dos animais e eu sempre me senti e quis e fui e soube-me tão próxima deles. 

Boom boom Boom boom. 

Mas pode ser outra coisa. Podia ser tanta coisa. Podia ser quase tudo. 
Pode ser longe de mim, pode ser algo tão afastado da natureza humana, que só mesmo humanos poderiam imaginar e, como eles dizem, "implementar". 

O PULSE, pasmo. Espanto. O Pulse parece que é também o nome de um software ou de um sistema que "ajuda" a  sistematizar e medir acções concretas para se atingir objectivos comerciais. Um amaranhado para se ser produtivo, para organizar o doce caos onde devíamos banhar. Para domesticar o que é a "vida" e alcançar as metas de outros, quase tornam nossas no assalariado. Para se ganhar dinheiro. Para se ganhar a "vidinha" como se diz nas escolas de arte. Aspas em todo o lado na frase "ganhar a vidinha" para que não se perceba o engodo que é passar tanto tempo para depois, mais tarde, cada vez mais tarde, e já sem muito jeito, ânimo ou porquê, um dia se vir a poder viver a Vida.
Como caímos todos nesta esparrela?
Quando tudo começa na essência

Boom boom Boom boom


Mede-se o pulso esta semana no colectivo Largo, já há textos aqui:

10.10.25

Como cão e gato

Mil oposições. Contradições. Lutas e conflitos. No mundo. Na minha rua. Nas escadas do prédio. Mas a primeira, a mãe de todas. A que me assombra desde a mais tenra idade vive dentro de mim. Um fantasma bem presente de que nunca quis fugir e só afugentei quando fui obrigada pelo assalariado. Esse mal maior.

Como cão e gato eles vivem rent free na minha cabeça. Esta vontade de viver e esta fatalidade de sonhar. Este estar presente e este escape infinito. Este viver no momento e o doce mundo que não foi criado para existir. O presente e um futuro nunca alcançado, mas  muitas vezes desejado.

Disassociacão como doença mental?  Internem-me sem camisa de forcas. Vim assim ao mundo. Do you want some nudes? 

Se o futuro é feito de um presente que já passou. o meu amanhã é muito pouco concreto. O meu futuro pode muito bem nem sequer chegar a existir, porque no presente, eu nem sempre estou. Nem sempre sou. 

Uma outra estranha forma de viver, esta, que é essencialmente sonhada.


No largo, o tema "Como cão e gato" foi e seria livremente escrito: