Há uns quinze anos era ainda menina e moça, nessa altura decidi fazer da minha vida uma nova experiência. Um acto re-iniciático maior.
Pode parecer fácil mudar de vida quando é no sentido do prazer, mas desenganem-se. Fácil é um dia assistir ao pôr do sol, ouvindo uma música escolhida, tirar uma foto, postá-la no Instagram para os que necessitam de mais aprovação, mas mudar de vida é todo outro processo. Ignorar todas as constantes solicitações do mundo das responsabilidades, impostos, imobiliário, salariado, dívidas, burocracias e em vez disso, adoptar uma atitude baseada no “que muito bem me apetece”. Coragem aos que tentam, o mundo inteiro está contra vós.
Os anos passaram, os prazeres também. Para onde vocês vão, estou eu a voltar. Gabo-me agora assim, como um cesto. Foi uma vida interessante, muitas fotos para o provar, uma conta bancária em montanha russa, uma existência vivida. Uma vida à procura de picos de dopamina, inevitavelmente acompanhados de momentos baixos que tinham que ser rapidamente transformados. Foi chão que deu uvas. chego a esta fase pós menina e moça, farta de tanta boa vida. Já não quero bons restaurantes, roupas novas, viagens só para ver. Basta desta exaltação da procura de momentos de sublime temporário.
Sou uma mulher madura, aceito estes prazeres se vierem até mim, mas estão agora delegados a um segundo plano. Como fazemos com os nossos amantes.
Procuro agora uma outra felicidade, a que Aristote chamou de Eudemonista, só a palavra já tem tudo para agradar Eu e Demónio. O seu significado funcionou como um portal nesta minha eterna crise de meia idade. Aquela felicidade quando saímos de nós e olhamos de fora para a nossa vida e nos perguntamos se estamos satisfeitos.
Satisfeita com a minha tribo, no meu caso, com as minhas diferentes tribos que gravitam nas minhas diferentes paixões, a dança, as artes visuais, a família.
Satisfeita com a minha autenticidade, faço realmente o que escolhi fazer, sou livre e ouço-me e faço-me.
Satifeita com o processo em que me movo, com os progressos que faço na arte, no encontro com os outros, na vida que construo. Com a viagem, muito mais do que com os resultados.
Já não sou menina, já não sou moça. Sou eu.
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