Ao contrário do que muitos pensam, sou uma pessoa muito rígida, de ideias extremamente fixas, apesar de gostar de passar uma falsa ideia de ser alguém ligeiro e de espírito aberto. Uma das ideias mais fechadas que cultivo há várias décadas, é que, devido ao meu espírito aventureiro, só me interessam viagens longínquas a países com péssimas infra-estrutras turísticas e outras. O caminho tortuoso será sempre recompensado.
Acontece que quando engravidei pela primeira vez, calhou que a minha barriga já estivesse enorme na altura do Verão. Com a generosidade que os caracteriza, os meus pais convidaram-me a partilhar com eles uma semana no Algarve. Pensei em todas as mordomias e fingi não ver, com algum desdém, todas as criticas que sempre fiz às pessoas que passam sempre ferias no mesmo sítio, como os meus pais. Pessoas sem curiosidade, sem espírito de aventura. Pessoas para quem o conforto e o doce faire niente é o sinal equívoco de proximidade com o paraíso.
Disse que sim, e passei a primeira semana de uma tradição anual na mesma zona do Algarve, quase sempre na mesma casa. A família cresceu, a minha barriga, a da minha irmã e da minha cunhada. Somos muitos. Nem sempre somos os mesmos, nem sempre somos todos. Mas vamos sendo, sempre juntos, sempre no mesmo sítio, na mesma semana, para grande entusiasmo dos mais novos, felicidade dos mais velhos e sentido de estrutura e memória para os do meio.
Já não sei quem sou.
O Largo emigrou em força para o Substack, estamos todas no mesmo sítio, mais os menos no mesmo dia. Passem por lá.