Numa semana, rajadas levam tetos de casas, milhares de árvores são derrubadas. Na semana a seguir, os rios desbordam, o mar destrói a costa, falésias desmoronam. Pessoas desalojadas. Idosos abandonados. Mulheres a chorar a pedir a ajuda que não vem. Não há electricidade, água, electricidade, comida. Não há socorro. O país conhece a realidade dias depois. Os jornalistas não vão ao Portugal profundo. Os políticos, só quando percebem que podem ganhar votos. Que podem ganhar. Mais.
“Meu tropicalismo é dark”.
O meu tropicalismo é dark. Homens de setenta anos em Leiria, a subir sozinhos ao telhado que ninguém ajuda a reparar e a morrer a tentar. Na televisão, membros do governo a arregaçar perfomativamente as mangas, a reter ajudas financeiras obviamente urgentes porque “as pessoas vão receber o salário no final do mês”, uma frota fúnebre de carros com um serviço de jornalistas agregado a registar palavras ocas que nem o vento a 140 km/h leva.
Voluntários a ajudar a população, a mostrar que a anarquia é uma boa solução, a única talvez neste momento de governos incompetentes e sem vontade.
O meu tropicalismo é dark. Com emigrantes a ajudar o país que os acolhe, empresários a dizer que sem a mão de obra emigrante a sua empresa tinha que fechar a um líder de um partido anti democrata que apela a um saudosismo com três Salazares e que semeia ódio a ignorantes que olham para o dedo quando se lhes aponta o horizonte.
O meu tropicalismo é dark.
Estamos entregues ao bichos e os bichos querem-nos comer. Vivemos numa selva tropical.