27.3.26

Robots como nós

Entrei num certo tipo de vida seduzida pelo processo, ignorando o resultado, conquistada pelo absurdo. A minha presença neste mundo não serve para nada. Passo horas, dias, meses em actividades que não interessam a ninguém, compreendida por muito poucos. Sou uma aleijada na sociedade. Não contem comigo para nada. Não estou aqui para isso. Nem sei porque estou aqui, sei apenas que estou, que sou e nesse estar sou imensamente feliz e livre e infeliz e presa. Não queria que fosse diferente, tenho objetivos não definidos e razões para me levantar da cama que não são racionais. Tenho problemas em cumprir horários, tenho dificuldades em cumprir. Se eu fosse importante para a sociedade, se os manicómios não estivessem cheios, provavelmente já me tinham tentado convencer da pertinência de uma camisa de forças. 


Hoje em dia sou muito raramente robotizada, a IA não me pode substituir, raramente penso com lógica e poucas vezes ajo como esperado. 


Mas nem sempre fui assim, já tive uma existência útil e produtiva, onde ganhei dinheiro e dei muito a ganhar a quem não respeitava, muito menos admirava. É isso ser robot e adulto, ser produtivo, trabalhar para o final do mês, perceber as regras do jogo, usá-las a nosso favor, ser o orgulho dos nossos pais, motivo de conversa amena nos jantares sociais. Uma vida desperdiçada entre as horas no trânsito e as que se contam até ser uma hora aceitável para se sair. Nunca me dei bem nesse jogo doentio do salariado, excepto nos dia trinta de cada mês.


Hoje está sol.



O Largo existe. E eu escrevo e espero ler.

20.3.26

Cartas postais

Numa outra vida vinha passar as férias grandes a Portugal. Matava a saudade de muitas pessoas, de muitos lugares, do muito mar, de muitas comidas, mas acima de tudo, vinha matar saudades da minha vida de filha. Ser mãe não é algo que me saía naturalmente. O sacrifício, a falta de espontaneidade, a vida com regras e com outros impostos, nada disso sou eu, nem nunca vai ser. Que bom é a maioridade dos filhos.

O francês vinha ter connosco uns dias e era nessa altura que iamos visitar Portugal profundo. Para mim, a única portuguesa, era finalmente uma aventura. Sempre tinha sido mais atraída pelo longínquo e nesses quinze Agostos em que fui uma parisiense, o Gerês parecia-me exótico. Levar os meus filhos e um homem francês ao « meu » país que não conhecia, parecia-me uma tremenda odisseia. E queria documentar e queria partilhar. Mas não queria partilhar com almas que passassem distraídamente pelo blogue. Foi assim que surgiu a ideia do postal ilustrado. Uma correspondência no blogue que emitia directamente à Helena Araújo, em troca de todas as dicas preciosas que ela me enviava da terra que muito bem conhecia. Essa sim a “sua terra”. 

É engraçado, gostei de ter vivido essa vida, talvez a minha décima primeira, como gostei de viver quase todas as vidas que tive, mas de nenhuma tenho saudades, a nenhuma queria voltar. Que fiquem as cartas postais para que não as esqueça.



O tema “cartas postais” é o tema do Largo desta semana, e a Rita Maria Dantas enviou já alguns.

5.3.26

Geografia

Sempre gostei de mapas, globos e atlas. Lembro-me de um livro, que havia em  casa dos meus pais, com as montanhas e os rios, sem as fronteiras artificiais que os homens tanto gostam e tantos problemas nos causam. Os mapas sempre foram um convite à viagem platónica. Fui muito teórica na adolescência, com os amores e com as viagens.  De fora, nunca ninguém imaginaria como fui feliz e completa.

Só em adulta comecei a namorar e a viajar realmente, com as zangas e os atrasos que isso implica.
Tenho pensado muito em geografia por estes dias, mas de uma forma diferente do habitual. Não tanto com o sonho de conhecer novos territórios, mas com o pesadelo de ter de fugir. Tenho um filho que vai ser maior  no final do ano, idade do serviço obrigatório que o presidente do país dele quer instaurar novamente. E eu olho para o mapa.  Para onde vou fugir para que o meu filho, que nunca andou em lutas no recreio da escola,  não tenha que matar ou ser morto?
Gostaria de acabar de outra forma, mas estamos em Março de 2026.

Este tema faz parte do colectivo  Largo. Fui a primeira a acordar, já virei acrescentar os links devidos.

20.2.26

Raia

Estávamos num barco onde dormíamos ao relento, não me lembro se tínhamos sequer sacos cama, não tínhamos frio, não tínhamos duche, não tínhamos net, nem telefone, não tínhamos o que noutras vidas se chamaria de conforto. 

Naquele dia, quando acordámos, vimos mantas-raias a saltar da água, saltos altos para depois mergulharem espalmadas no mar. Não estava um dia particularmente bonito, diriamos, se estivéssemos numa outra vida, numa vida do dia a dia. Estava cinzento, A visão era um espanto e espantados estávamos. Não me lembro de nada ao largo. Não sei se haveria terra ao horizonte. Nada disso importava. Colocámos as máscaras e os tubos. Os nossos filhos eram pequenos e não iam nadar, tinham acabado de acordar, não queriam. O francês estava lento. Mas eu estava naqueles dias em que não sabemos hesitar e mergulhei. Lembro-me que o mar estava com pouca luz, no início fiquei a nadar na superfície. Nada mais importava. Nada mais importava. Em baixo de mim, um cardume da raias enormes nadava. Deslizava. Voava de baixo do mar. Eu seguia. Hipnose. Uma paz divina. Meço as minhas palavras. A cura. E nada mais importava. 

Já passou uma década. E quando penso nesse momento, nada mais importa novamente.  



Este texto responde a um desafio do grupo Largo

Mariana Leite Braga

Rita Maria Dantas

Maria João Caetano

16.2.26

Cultivar o meu jardim

Há uns dez anos atrás, os meus três avós ainda eram vivos, eu vivia em França e tinha mais tempo livre do que tenho agora, mas muito menos liberdade. Decidi escrever a história de cada um deles, para a transmitir aos meus filhos, para tentar desvendar uns segredos familiares e para fortalecer os laços com os meus avós. Um ano depois, o francês, mais dotado que eu nestas coisas manuais, cozeu à mão dois dos livros.

O da minha avó materna ficou por escrever. Eu era demasiado inexperiente na altura e a falta de tacto que eu tinha então, era a mesma que tenho agora. 

Não soube respeitar a sua versão, quis questionar, não sustentei os tempos que eram necessários entre cada confissão. Quis saber tudo e quis saber logo. Matei a galinha de ovos de ouro. A minha avó anunciou-me sem piedade que não queria que eu escrevesse o livro.  A partir dali apenas me passaria receitas de cozinha.

Quis tanto cultivar o meu jardim que dei-lhe demasiado sol. Demasiada chuva. Matei-o de tanto o querer ver viver. 



Texto escrito para o Largo. A Marisa Maurício e a Mariana Leite Braga também responderam esta semana a este desafio.

6.2.26

Tropical

Rajadas levam tetos de casas. Milhares de árvores são derrubadas. Rios desbordam, o mar destrói a costa, falésias desmoronam. Pessoas desalojadas. Idosos abandonados. Mulheres choram por ajuda. Não vem ajuda. Não vem electricidade, não vem água, electricidade, comida. Socorro, não vem.  
Políticos, só vêm quando percebem que podem ganhar votos. 
Que podem ganhar. 
Mais.

Meu tropicalismo é dark. 
O meu tropicalismo são as cheias em Alcácer do Sal, o vídeo de um homem a apelar ajuda à população, no Instagram, no meio da sua sala com água até à cintura a poucos metros da Comporta. 
Comporta. Terra de praias privadas. 
Bilionários com empatia apenas com os seus sapatos com sola vermelha. 

O meu tropicalismo é dark. 
Homens de setenta anos em Leiria, a subir sozinhos ao telhado que ninguém ajuda a reparar. A morrer a tentar. Na televisão, membros do governo a arregaçar perfomativamente as mangas, a reter ajudas financeiras obviamente urgentes porque “as pessoas vão receber o salário no final do mês”. Uma frota fúnebre de carros com um serviço de jornalistas agregado a registar palavras ocas. 
Que vento a 140 km/h as leve. 
Voluntários a ajudar a população, a mostrar que a anarquia é a solução, a única neste momento de governos incompetentes e sem vontade.

O meu tropicalismo é dark. 
Com emigrantes a ajudar o país que os acolhe, empresários a dizer que sem a mão de obra emigrante a sua empresa tinha que fechar a um líder de um partido anti democrata que apela a um saudosismo com três Salazares e que semeia ódio a ignorantes que olham para o dedo quando se lhes aponta o horizonte.

O meu tropicalismo é dark.
Estamos entregues ao bichos e os bichos querem-nos comer. Vivemos numa selva tropical. E não estamos no cimo da pirâmide.



Este texto responde ao desafio do grupo de escrita Largo. A Mariana Leite Braga respondeu ao desafio.


O tema : Tropical e eu inspirei-me muito nos Noporn e no Madd Rod quando escreveram a música “Tropicalismo Dark”. 
Aproximamo-nos muito da América Latina nestes últimos tempos.




30.1.26

Desejo

 Ainda não há muito tempo, para escrever sobre desejo, escreveria sobre viagens, sexo e outras escapadelas menos lícitas. Mas, com o nó que anda a ser dado ao Mundo, vejo-me altruísta mesmo na intimidade dos sonhos, com as entranhas mais próximas da sorte dos outros. 
Como se de repente, sentisse o que apenas só tinha sabido até aqui. Estamos todos ligados. 
Não se pode ser feliz no meio da tristeza, não se construi felicidade em cima da dor.
Gaza, orgasmo, Kiev, exctasy, Minneapolis, pastel de natal, bairro do Talude, Radiohead… vivemos vidas sem sentido, nada pode ser pleno e florescer na sua totalidade. Como ainda nos aguentamos em equilíbrio em cima da corda, se nenhum de nós é funâmbulo?




Escrevi este texto para responder ao desafio do grupo Largo desta semana. 


23.1.26

Sair da bolha

Só uma história bem contada pode salvar o mundo. 
Podemos ser muito bons a fazer contas, podemos ver todos os noticiários e conhecer todos os factos, podemos até andar numa escola com colegas de carteira com realidades radicalmente diferentes da nossa. Não perceberemos nada se ninguém nos contar bem uma história. 
Tudo o resto é acessório, tudo o resto é inútil, tudo o resto é vão.
Dizer que a só a arte nos pode salvar, pode parecer demasiado bonito, mas é a mais pura realidade. 
Temos de sair da nossa bolha para compreendermos o mundo em que vivemos. A vida que temos. A realidade que nos rodeia.
Arriscamo-nos a morrer e a sair desta mais rica experiência sem ter percebido nada. Ou muito pouco.

Sair da nossa bolha e entrar na bolha dos outros. 

Lembro-me de uma banda desenhada sobre a vida de um sírio que se viu obrigado a fugir do seu país. Até lá tinha visto notícias mal dadas, apressadas, como o fazem todos os noticiários. Notícias que nos entram no cérebro, factos, números, imagens. Mas foi com a “Odisseia de Akim” que me vi na pele de um ser-humano como eu, que perdeu tudo, como também eu posso perder, que teve de fugir, que se viu ser  desumanizado, a ser tratado como se fosse uma coisa indesejável. Um ser humano como eu que um dia viu a sua vida virar do avesso. 
A humanidade precisa de um reset.
O jornalismo tem de ser repensado. As redes sociais nem se fala. O algoritmo tratado como a ferramenta perigosa que pode ser. 
O homem tem de ser humano. O humano tem de habitar o Homem. Tudo o resto é acessório. Tudo o resto não é válido. Tudo o resto é decoração.
O que estamos a fazer se só sentimos as nossas dores?
Que aventura incompleta é esta,  se só virmos o mundo com os nossos olhos? Caminharmos apenas com os nossos próprios sapatos?

Esta semana, o desafio do Largo foi aceite por:


16.1.26

Sangria

 A vida no início de 2026. Um jogo de cintura entre uma vida doce que construímos e uma vida de caos e destruição que ao redor de nós ganha terreno. 
Uma sangria real alcoólica e frutada que nos leva para outros mundos melhores e que nos alegra a vida e a outra, essa sangria absurda em que muitos vivem e morrem por causa da desumanidade de uns quantos com grandes e pequenos poderes. 
Nesta dança, tentamos um equilíbrio bizarro entre o nosso quotidiano e a visão dos outros.
Eu bebo sangria doce e sei que a outra sangria, a muito temida se aproxima. 
Continuo a beber. 
Continuo a viver. 
Não sei mais o que fazer. Sobreviver aterrada com as escolhas dos outros e com a fatalidade de muitos. Continuar sabendo que um mundo melhor era possível, mas a maioria não quer ou não sabe ou não sonha.


Sangria é o tema do grupo Largo. Espero colocar links este fim-de-semana quando finalmente recuperar o meu computador.

8.1.26

Naperon

Detesto naperons. 

Mesmo os que as minhas avós fizeram e tentaram fazer-me amar. Sobretudo esses, odeio-os. Cheiram-me a submissão feminina, ao ócio que lhes era permitido e imposto e que aprenderam a gostar. Vejo-os como um caso de síndroma de Estocolmo.  Gostar de uma ocupação de tempos livres obrigatória. 

O que mais se podia fazer com o tempo livre se se fosse mulher nos anos cinquenta? Bolos. Nunca tinha pensado nisso, a partir de agora também odeio bolos. Se forem daqueles mesmo bons, feitos com amor e bons ingredientes, pior.  Casas arrumadas e cheirosas. Roupa passada a ferro. Penteados alinhados.  A lista não é muito mais longa, felizmente, o que mais podiam fazer? Arranjos florais? Não os suporto.  

Há num álbum de família uma foto da minha avó materna com uma  daquela espingardas de caça, não sei o nome, mas não faz mal, também não sou uma IA. Matar animais inocentes. Prefiro.


Este tema foi escolhido no grupo Largo, em breve virei aqui colocar links do que vai sendo publicado.