Rajadas levam tetos de casas. Milhares de árvores são derrubadas. Rios desbordam, o mar destrói a costa, falésias desmoronam. Pessoas desalojadas. Idosos abandonados. Mulheres choram por ajuda. Não vem ajuda. Não vem electricidade, não vem água, electricidade, comida. Socorro, não vem.
Políticos, só vêm quando percebem que podem ganhar votos.
Que podem ganhar.
Mais.
Meu tropicalismo é dark.
O meu tropicalismo são as cheias em Alcácer do Sal, o vídeo de um homem a apelar ajuda à população, no Instagram, no meio da sua sala com água até à cintura a poucos metros da Comporta.
Comporta. Terra de praias privadas.
Bilionários com empatia apenas com os seus sapatos com sola vermelha.
O meu tropicalismo é dark.
Homens de setenta anos em Leiria, a subir sozinhos ao telhado que ninguém ajuda a reparar. A morrer a tentar. Na televisão, membros do governo a arregaçar perfomativamente as mangas, a reter ajudas financeiras obviamente urgentes porque “as pessoas vão receber o salário no final do mês”. Uma frota fúnebre de carros com um serviço de jornalistas agregado a registar palavras ocas.
Que vento a 140 km/h as leve.
Voluntários a ajudar a população, a mostrar que a anarquia é a solução, a única neste momento de governos incompetentes e sem vontade.
O meu tropicalismo é dark.
Com emigrantes a ajudar o país que os acolhe, empresários a dizer que sem a mão de obra emigrante a sua empresa tinha que fechar a um líder de um partido anti democrata que apela a um saudosismo com três Salazares e que semeia ódio a ignorantes que olham para o dedo quando se lhes aponta o horizonte.
O meu tropicalismo é dark.
Estamos entregues ao bichos e os bichos querem-nos comer. Vivemos numa selva tropical. E não estamos no cimo da pirâmide.
Este texto responde ao desafio do grupo de escrita Largo. A Mariana Leite Braga respondeu ao desafio.
O tema : Tropical e eu inspirei-me muito nos Noporn e no Madd Rod quando escreveram a música “Tropicalismo Dark”.
Aproximamo-nos muito da América Latina nestes últimos tempos.