Nunca fiz resoluções na passagem do ano. Talvez há muitos anos em festas de garagem organizadas pelo meu tio, onde os meus pais eram os reis da pista, com a música « meu amigo Charlie Brown » e as doze detestáveis passas em pé em cima de um banco em desequilíbrio. Tenho boas lembrancas desses tempos de criança, e não sei porque é que agora detesto esse tipo de música e esse tipo de passas. E também não sou fã de garagens. Talvez o que é do passado, deva ficar no passado. Temos que saber de onde vimos, mas gosto muito desta sensação de surpresa que há nesta maravilhosa experiência que é estar viva. Talvez por isso, acho chatas quase todas as tradições, todas as experiências que se repetem e supostamente nos confortam. O conforto é algo que considero muito sobre-estimado. Já vi sofás a custarem dez mil euros euros. Haja falta de amor ao dinheiro. Haja desprezo à aventura.
No ano mais feliz e cheio da minha vida tentei ter um blogue, chamava-se “anti sofá” e morreu ao segundo texto. Naquela altura a vida era boa demais para ser contada. Não se pode viver e contar ao mesmo tempo, talvez por isso os melhores livros são os que falam de tristeza e desespero. Alguém verdadeiramente feliz não quer saber do futuro, da posteridade, da literatura. Soam sempre a falso aqueles influenciadores felizes e perfeitos. Eu já fui feliz e perfeita e posso dizer que não podia estar a borrifar-me mais para o resto do mundo. A felicidade quando é plena, tende a ser egoista e privada.
Hoje a minha vida é boa, mas não é perfeita, não há surpresas, não há aventuras quotidianas sei sempre onde vou dormir e em que sofá me vou sentar. Talvez por isso, o grupo Largo é tão importante para mim. Talvez por isso, vou esquecer que o destino é sempre melhor do que o que desejei para mim. E que a melhor resolução é aceitar o que vem.
Resolução possível, a tentar este neste ano sem precedentes, ter a disciplina para escrever uma vez por semana, nada justifica passar ao lado deste projeto. Obrigada a quem escreve, obrigada a quem lê.
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