Entrei num certo tipo de vida seduzida pelo processo, ignorando o resultado, conquistada pelo absurdo. A minha presença neste mundo não serve para nada. Passo horas, dias, meses em actividades que não interessam a ninguém, compreendida por muito poucos. Sou uma aleijada na sociedade. Não contem comigo para nada. Não estou aqui para isso. Nem sei porque estou aqui, sei apenas que estou, que sou e nesse estar sou imensamente feliz e livre e infeliz e presa. Não queria que fosse diferente, tenho objetivos não definidos e razões para me levantar da cama que não são racionais. Tenho problemas em cumprir horários, tenho dificuldades em cumprir. Se eu fosse importante para a sociedade, se os manicómios não estivessem cheios, provavelmente já me tinham tentado convencer da pertinência de uma camisa de forças.
Hoje em dia sou muito raramente robotizada, a IA não me pode substituir, raramente penso com lógica e poucas vezes ajo como esperado.
Mas nem sempre fui assim, já tive uma existência útil e produtiva, onde ganhei dinheiro e dei muito a ganhar a quem não respeitava, muito menos admirava. É isso ser robot e adulto, ser produtivo, trabalhar para o final do mês, perceber as regras do jogo, usá-las a nosso favor, ser o orgulho dos nossos pais, motivo de conversa amena nos jantares sociais. Uma vida desperdiçada entre as horas no trânsito e as que se contam até ser uma hora aceitável para se sair. Nunca me dei bem nesse jogo doentio do salariado, excepto nos dia trinta de cada mês.
Hoje está sol.
O Largo existe. E eu escrevo e espero ler.
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