Há uns dez anos atrás, os meus três avós ainda eram vivos, em vivia em França e tinha mais tempo livre do que tenho agora, mas muito menos liberdade. Decidi escrever a história de cada um deles, para a transmitir aos meus filhos, para tentar desvendar uns segredos familiares e para fortalecer os laços com os meus avós. Um ano depois, o francês, mais dotado que eu nestas coisas manuais, cozeu à mão dois dos livros.
O da minha avó materna ficou por escrever. Eu era demasiado inexperiente na altura e a falta de tacto que eu tinha então, era a mesma que tenho agora.
Não soube respeitar a sua versão, quis questionar, não sustentei os tempos que eram necessários entre cada confissão. Quis saber tudo e quis saber logo. Matei a galinha de ovos de ouro. A minha avó anunciou-me sem piedade que não queria que eu escrevesse o livro. A partir dali apenas me passaria receitas de cozinha.
Quis tanto cultivar o meu jardim que dei-lhe demasiado sol. Demasiada chuva. Matei-o de tanto o querer ver viver.
Texto escrito para o Largo. A Marisa Maurício também respondeu esta semana a este desafio.
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