“Meu tropicalismo é dark”.
O meu tropicalismo são as cheias em Alcácer do Sal, o vídeo de um homem a apelar ajuda à população no meio da sua sala com água até à cintura a poucos metros da Comporta, terra de praias privadas, bilionários com empatia apenas com os seus sapatos com sola vermelha.
O meu tropicalismo é dark. Homens de setenta anos em Leiria, a subir sozinhos ao telhado que ninguém ajuda a reparar e a morrer a tentar. Na televisão, membros do governo a arregaçar perfomativamente as mangas, a reter ajudas financeiras obviamente urgentes porque “as pessoas vão receber o salário no final do mês”, uma frota fúnebre de carros com um serviço de jornalistas agregado a registar palavras ocas que nem o vento a 140 km/h leva.
Voluntários a ajudar a população, a mostrar que a anarquia é uma boa solução, a única talvez neste momento de governos incompetentes e sem vontade.
O meu tropicalismo é dark. Com emigrantes a ajudar o país que os acolhe, empresários a dizer que sem a mão de obra emigrante a sua empresa tinha que fechar a um líder de um partido anti democrata que apela a um saudosismo com três Salazares e que semeia ódio a ignorantes que olham para o dedo quando se lhes aponta o horizonte.
O meu tropicalismo é dark.
Estamos entregues ao bichos e os bichos querem-nos comer. Vivemos numa selva tropical.
Este texto responde ao desafio do grupo de escrita Largo
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