18.9.17

Betão armado

No Palácio do IENA, Auguste Perret celebrou o betão armado. Não o escondeu com pedra, estuque ou madeira. Betão.
As paredes são altas e nuas. As escadarias triunfais.  
O terreno longe de ser ideal é triangular e inclinado.
Deixei as crianças a construir num atelier Kapla e o Stéphane a falar sobre meteoritos na colossal sala hypostyle e percorri sozinha o imenso edifício. Dei atenção à luz, ao som, às formas, ao mobiliário, aos lustres e às tapeçarias.
Intrigou-me muito que num sítio que podia parecer hostil, muitas peças se encaixavam e chegava a ser confortável. Havia ali um certo tipo de belo.
Depois lembrei-me da minha família em Portugal.

No auditório infelizmente lotado, Hugues Reeves falava sobre a Origem do Mundo. Espero vir a encontrar esta conferência no youtube.

17.9.17

Poesia de ficção científica

Desde pequena que a Júlia diz que vai estudar no Beaux Arts de Paris.
Nunca falou do que ía fazer em seguida, nem como faria para lá chegar, o que sempre me pareceu lúcido e arriscado ao mesmo tempo.
Pudemos visitar o edifício este fim-de-semana e o meu filho perguntou se estávamos a visitar o futuro da irmã.
Senti-me numa série infinitamente melhor do que no Espaço 1999.

Tenho estado fascinada com as possibilidades que os jovens humanos dispõem.
Este desiquilíbrio entre o pouco que viveram com o muito que ainda têm à frente, seduz-me.
Confissão : como muitos outros desiquilíbrios.

Pergunto-lhes que planos têm, o que querem fazer daqui a 5 anos, o que acham das suas vidas agora. Assusto-os com os meus olhos a brilhar e com rugas ao lado.
Quero recitos das suas futuras odisseias.
Numa conversa com uma amiga dei por mim, embaraçada, a fazer-lhe mais perguntas sobre a filha do que sobre ela mesma. Mesmo para uma pessoa como eu, isto é estranho.
Mas existe esperança. Serei salva por quadra e cinquagenários indiferentes à minha obsessão.
Tudo parece estar a mover-se.
Independentes da minha visão limitada da vida e do que que dela podemos esperar, vários estão a mudar em plena crise de meia idade.
Divórcios, libertações, reconversões profissionais, mudanças de cidade e espirituais.
Muitos ainda acreditam que têm sonhos a merecerem ser tomados seriamente.
Não preciso de vídeos inspiracionais.
A vida basta-me.

Desta vez, ouvi na rádio que o ser-humano é a única espécie que vive muito além da sua idade reprodutora. Depois dos filhos há uma outra vida, é a ciência que nos diz.
Não se pergunta o que fazer com ela. Vive-se uma segunda vez. Do início.

(E a Júlia ainda é pequena).


15.9.17

copo meio cheio

Para olhar para o nosso quarto e ver as árvores lá fora, as janelas altas e o macramé na parede,
em vez do radiador por comprar, dos rodapés por colocar e do tecto por pintar
tive que mudar de vida. Aceitar o que não se resolve.
Não houve outro remédio. Não quis outro remédio.
Mas custou.
Agora a transmissão pode continuar.

Houve quem chamasse a isto coragem.
Como se houvesse outra escolha.
Haveriam múltiplas não-escolhas, na verdade.
Que tipo de pessoas somos quando vamos vivendo uma quase vida?

Um mergulho nas certezas que ainda vamos tendo.
Outro no copo meio cheio.

Hoje suicidou-se a sonda Cassini.
Esteve desde 2004 a estudar Saturno, os seus satélites e anéis.
E, surpresa, vejo que "não estou queixosa" com o que fiz nestes 13 anos.
(tinha escrito "feliz", mas não entremos em histerias vãs).

Ouvi hoje na rádio : "Como se fazem amigos ?
Aproximamo-nos das pessoas e começamos a dizer banalidades."


12.9.17

nove anos

Cortei os caracóis ao meu filho porque estava com piolhos, perdi um bebé, parece agora um homem.
Devia ter deixado os bichos tranquilos, a natureza ganha sempre.
Vejam como continua a crescer, apesar de eu querer muito que não mude mais. Fui sua criadora!
9 anos em permanente transformação.
Pelos anos recebeu um skate novo. Quer ir com ele todos os dias para a escola agora. e todos os dias cai.
Nunca desiste.
O pai também não, e olhem que mulher lhe calhou. Pobre filho.
Quer convidar os amigos todos para a festa. Mas a nossa casa é de madeira, dos anos trinta, temo que não aguente. Logo agora que começava a me afeiçoar. Acho que me vou deixar de festas feitas à mão e vou levá-los àqueles pavilhões em zonas industriais de que sempre fugi. Uma mãe cede sempre. Acabamos sempre a perder.
Por amor...
Não gosto de crianças, gritam, são mal-educadas, ainda há muito a fazer e eu detesto trabalho. Mas por esta em particular, calhou-me apaixonar. Só lhe vejo qualidades, mesmo quando me irrita.
Se ainda vivêssemos numa era de seleção natural, seria o único da família a sobreviver.
Como fui ter um filho tão forte ?
Uma prima deu-lhe a prenda que queria, um canivete suíço. A vendedora da loja obrigou-a a telefonar à mãe para pedir autorização. Disse-lhe que sim. Pediu um termo de desresponsabilização quando o presente foi desembrulhado. Agora passamos os finais dos dias na floresta a talhar paus em forma de lanças. Não estou preocupada, nem conseguiu ver o clip dos Alt-J para a música Hunger of the pine até ao fim.
Isto sossega-me.


11.9.17

rentrée dois mil e dezasete num post bala

Do avião fotografo os jardins de Versailles. Há nuvens em cima de Paris.
Chego ao aeroporto sem saber se este vai ser o meu último ano aqui.
Tiro fotos das ruas que quero levar comigo e
lembro-me de coisas que o meu pai me disse que não queria ter ouvido.
Iludida, digo-me que depois logo decidirei.
Ouço falar de um livro que quero folhear numa livraria : "L'art de perdre".
Temporizo.

Fomos ao Pompidou ver arte moderna, mas fiquei o tempo todo a olhar para o meu namorado e para os meus filhos, agora sou muito mais contemporânea.
Foi uma opção de vida. Tomara que seja feliz assim.
No primeiro domingo do mês, as pessoas fazem bicha em forma de serpente.
Não gosto da palavra fila, nem de bichas ordeiras.

Enchi a casa de plantas verdes e velas brancas.
(Começo a gostar destas paredes)
Uma selva com cheiro a monoï, com roupas espalhadas pelo sofá.
Um dia, vou nadar no mar profundo de uma ilha perto de Tahiti.
Quero andar descalça já, mas o frio parisiense veste-me pantufas.
Sou apenas mais uma confort victim, afinal.

Vi o Patterson este Verão no cinema Ideal com a minha prima
depois fomos beber gin
Como sempre.


21.9.16

Aquele horizonte que entretanto se perdeu


Chegámos a Shangri-la, nem sem a que horas, mas não foi a bom tempo. Os meus primeiros momentos foram de arrependimento, fica a confissão, para dar o mote. A gare rodoviária de Zhongdian foi a mais inóspita gare de todo o nosso mundo, que vai sendo cada vez maior. Cheirava muito pior do que a cigarro velho. Não havia sala para não-fumadores e ninguém parecia importar-se com o que se escreve nos pacotes de cigarros na nova Europa. Recordei-me da gare de Setúbal como se fosse a minha madeleine de Proust. Do outro lado do globo, na minha memória certamente danificada, chegar ao terminal rodoviário de Setúbal fazia-me lembrar entrar numa sala de uma tia-avó particularmente prendada em bolachas de manteiga, que insistia para que tomasse mais uma taça de chá.

Não tinhamos qualquer indicação de distância entre a gare e o centro, ninguém sabia falar inglês e os motoristas de táxi, todos vestidos de preto e com um cigarro no canto do lábio, queriam levar-nos as malas para dentro de 4 bagageiras diferentes. Estavam tão excitados com a nossa chegada que tivémos a certeza que íamos ser enganados. Recusámos a ajuda forçada de todos, com mais ou menos sorrisos, consoante a maior ou menor insistência.

Sentámo-nos nos bancos azuis de plástico duro da sala de espera, ainda atrodoados do trajecto, a comer bolachas salgadas, que tinhamos comprado a pensar que eram doces. De vez em quando, um de nós levantava-se numa tentativa de estabelecer contacto verbal com alguém, e no regresso era recompensado com mais uma bolacha. Na verdade, o que estava em jogo eram apenas alguns euros a mais, que seríamos certamente cobrados pelo motorista de táxi. Mas não nos apetecia ser levados por tansos. Temos o nosso orgulho. E tínhamos muito tempo - é sempre mais fácil manter a dignidade, quando se tem tempo para isso.
Luxos.

Acabámos por decorar os caractéres que significam centro da cidade e apanhámos, mais ou menos às cegas, um autocarro. Saímos onde nos indicou o motorista, mas parecia que estávamos numa zona industrial com pavilhões de madeira. A estrada um caminho de lama.
Tinhamos lido que Shangri la era apenas um truque de marketing do hábil turismo chinês, que se tinha aproveitado dos poucos elementos do livro de James Hilton - Lost Horizon - para afirmar que ali é que era o verdadeiro Shangri la. O Stéphane tinha falado com um viajante que lhe tinha dito que a cidadela velha tinha ardido recentemente e que quase não havia nada a ver. Posto isto, eu disse que queria ir na mesma. Se a liberdade não foi feita para se seguir impulsos e se cometer erros, então não sei para que serverá.

No caminho, vimos os arrozais omnipresentes a transformar-se em pastos verdes escuros, as pequenas casas brancas com telhado de telhas, em casas enormes ocres de arquitectura tibetana e os nossos primeiros Yaks a pastar, não sei a substituir o quê nem quem.
Pensei alto, para que todos me ouvissem no minibus, que nem que fosse pelo que viamos da janela já tinha valido a pena. Mas ninguém acordou.

Saídos do autocarro, encaminhei a minha família para a estrada da esquerda, que me pareceu bem. Nesta viagem, às vezes, calhava-me a responsabilidade de estudar o próximo trajecto, saber se valia a pena ou não ir e levar a coisa em avante. O meu método científico de estudo e concretização é conhecido como improvisius.
Fui andando e perguntado onde era o centro, ignorando sempre as respostas, porque não me convinham, até que começámos a ter fome. Entrámos num café que tinha fotos do sítio onde eu queria estar, muito diferentes da estrada de lama onde me situava com a minha família e entrei disposta a aceitar o prato do dia. Tenho amor à aventura.
A um canto, o filho da dona do restaurante, brincava com legos falsificados e prontamente aceitou partilhá-los com os meus filhos. O mito do egoísmo da criança única é mesmo um mito.
Tive que ouvir um comentário sarcástico em francês de como era admirável a minha forma de educar os meus filhos para o inesperado e dei de comer às bocas que me rodeavam, com dumplings bastante aceitáveis. Em português parece que se diz bolinhos de massa de pão, não podia pensar em tradução mais deslavada.
Quando saímos começava a ficar frio e escuro, e aceitámos o primeiro quarto sem janela que encontrámos disponível.

Acordámos com dores nas costas e depois de tomármos um pequeno-almoço igual ao jantar e da minha filha ter deixado um desenho num post-it colado à parede, fomos ao enorme moinho de preces dourado que víamos da rua.
O meu filho continuou a sua estranha incursão mística-motriocinal num universo muito dele, baseado nos rituais religiosos. Se na India tinha sido hindu-praticante-não-crente, na China seria budista-praticante-não-crente.
Acreditaria que tal fosse sacrilégio, fosse eu dada a acreditar.
Aquele enorme moinho de preces dourado precisava da força de sete pessoas para se mexer, com os meus filhos, nove. Mas eles não tiveram noção da sua nulidade ritual. Acreditaram que contaram para enviarem mantras  para os ares, e tendo em conta que estamos a falar de religião, acho que isso é o essencial.

A aldeia, para além daquela colina com o templo budista e um moinho, tinha um interesse relativo, restaurantes de pão de vapor, alguns albergues. Saíndo do centro, as casas deixavam de ser tradicionais em madeira, para passarem a ser francamente feias, mas as pessoas mais acolhedoras e interessadas em nós. E um pouco de atenção, por vezes, calha bem.



20.9.16

Nunca em Valdés



Como não nos conhecemos nunca, por mais que vivamos nesta pele, escolhemos os nossos caminhos e os dias a seguir com base em estimativas. Trabalhamos com o que temos.
Não é preciso ser-se muito lúcido, para se suspeitar que andamos a vida inteira aos apalpanços. Não sabemos de nada e quanto a isso pouco nos resta a fazer. Avançamos.
Existem, é certo, alguns eleitos que nem disto têm noção. Paz a eles, apesar de não a merecerem mais que os outros.

Dirigi-me à península Valdés com aquele misto de orgulho, devoção e sacrifício que utilizava de cada vez que levava os meus filhos ao parque, a um concerto para crianças ou outro local para eles e não para mim. Numa viagem a quatro, o compromisso é o conceito central, se não se quer arranjar problemas, e se pretende passar os dias em harmonia.
A península Valdés foi uma escolha deles, desta próxima geração que basicamente tinha partido para o mundo para ver animais. E jogar à bola. Objectivos tão dignos como os meus, que implicavam cansar-me a Viver ou os do pai, fazer o que lhe apetece, com quem lhe apetece, todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Mas vindos de Buenos Aires, até se chegar a Valdés, a Argentina não acaba nunca. Até podemos escolher um daqueles autocarros, com todas as comodidades, para se ir de um ponto ao outro em quase linha recta - as estradas, simplesmente, não acabam nunca.
A mim, então, o infinito.
Alguém tinha-me passado o novo disco dos Alt J clandestinamente, porque existem limites para o Carlos Gardel, e eu ía sentada sozinha no segundo andar no banco da frente. Uma linha de alcatrão em forma de caminho, o eterno risco intermitente hipnotico no meio. Os miúdos liam a Mafalda do Quino, que tinhamos comprado no bairro de San Telmo em Buenos Aires. O Stéphane olhava de lado pela janela com a banda sonora original da vida, porque é um purista. E apenas por isso.
Preciso quase sempre de música nas minhas movimentações, como se todo o barulho do mundo não me bastasse. Quando corro, quando conduzo, quando atravesso países de Norte a Sul. A Argentina, por exemplo, passou de selva às pampas desérticas entre Iguaçu, Buenos Aires e Puerto Madrín ao som sussurrado do This is all yours em modo repetitivo. De novo, de novo, de novo. Como fazia com as cassetes dos Depeche Mode nos anos 80.
Quando cheguei a casa, em Paris, e ouvi o Every other Frekle na Rádio Nova não foi evidente perceber o que me tinha acontecido. Afinal, tudo tinha acabado sem o meu consentimento.

Chegámos a Puerto Madrín de manhã. Os corpos torcidos, a cabeça à roda, numa pequena gare com estatuetas de pinguins e baleias e ninguém no posto do turismo. Segundo o mapa e as indicações do senhor das limpezas, o centro era a dois passos, pelo que nos fizémos à estrada com a brisa da manhã. Não necessariamente pelo caminho mais curto - os tais ossos do ofício.
E sempre esta sensação de caminhar ao lado dos meus filhos e do meu namorado por lugares que não conhecemos, sem saber o que esperar. Sempre esta palavra, aventura, que trazemos nas mochilas e que as torna mais leves.
Sempre esta impressão enorme que somos capazes de tudo. Juntos. No mundo inteiro.

Tomámos quase um bom pequeno-almoço e encontrámos rapidamente onde dormir.
No dia a seguir, alugámos o carro e eu finalmente conduzi. O Stéphane, que pensa sempre em tudo, tinha-se esquecido da carta de condução em casa, num espaço meticulosamente bem organizado. E eu que não preparo nada, não tinha mexido na minha, pelo que a encontrei na carteira, como nos dias em que vou ao Leclercq comprar leite para a semana.
A vida é muito injusta, pelo que me tenho safado.

Depois de controlados pelos agentes da reserva saímos da civilização urbana e entrámos na verdadeira civilização, onde nos devemos tornar invisíveis. Não tocar, não gritar, não estragar.
Guanacos atravessam a estrada, sem pressa e Nandus competem em velocidade connosco. Ando devagar, porque a estrada é em gravilho e porque não quero que acabe nunca. Nunca.
Seguimos em direcção ao Norte, a uma praia onde leões e elefantes marinhos vão acasalar. Queriamos mostrá-los aos nossos filhos. Esses eram os planos. Mas naquela praia entendi que existem outras maneiras de se viver na Terra e estar em contacto com o essencial. Outros prazeres, outros espantos. E o espectáculo que tinha reservado para os meus filhos, tomei-o inteiro para mim. Olhos abertos, coração escancarado.

Vimos muito e vimos pouco. Não veremos nunca o suficiente. Falhámos as orcas.
Tivémos sorte com as baleias. Estávamos a uns meses do nascimento das novas baleias e vimos de muito perto várias mães com os filhos. Fomos molhados por baleias. Num espelho distorcido, de um lado nós, microscópicos num barco minúsculo, do outro aquele enorme animal naquele imenso mar. Eu, como uma baleia-franca-austral-mãe. O meu filho a olhar a cria e as mães atrás, a vigiar.

Em jantares mundanos perguntam-me do que mais gostei nesta viagem. Num ano inteiro tão intenso, não há espaço para classificações, respondo ao calhas. Mas perto da verdade deve andar este inesperado, este prazer encontrado em lugares que não escolhi e a prespectiva de ter vivido em mundos com pouca presença do homem.
Nunca teria ído à península Valdés ou a Punta Tombo se não fosse pelos meus filhos. Estes seres fantasticos que começam por nos parasitar o corpo, que por ele são rejeitados e sem os quais não imaginamos a vida.
Nunca teria sabido o que tinha perdido. Aparentemente, ainda existem vantagens nesta estranha maneira de se viver, procriando.


**


No meio do sublime, falhamos a compustura, com a palavra ballena dita pelos argentinos. O trocado pelo V. Os LL trocados pelo G. Caramba.
Nunca estaremos à altura. Mas nunca nos privaremos de nada.

19.9.16

Presos pela lua em Atacama




A dada altura da nossa viagem pelo mundo, e por nós mesmos, ficámos presos. O lugar de onde não conseguíamos sair foi o deserto de Atacama, numa semana de lua cheia que nunca mais acabava - ali para Outubro ou Novembro de 2014. O tempo passa e nunca fui boa a contá-lo. As aproximações sempre fizeram parte de mim. Temos que aceitar isto.
Tínhamos chegado ao deserto depois de uma ida e volta ao inferno e ao paraíso. Palavras aparentemente exageradas. Tentaria evitá-las se não fossem tão necessárias para explicar o que vivi. Uma ateia que se refere ao mundo com palavras bíblicas. Que me sugerem outras para o inferno que vivi na semana da morte da minha avó, comigo longe. Em Sucre. A branca e fúnebre Sucre. Ou outra para descrever melhor a paz a imensidão, a beleza e a todas as lágrímas que deixei entre o salar de Uyuni e a fronteira com o Chile. Se calhar, um dia falarei deste estranho período da nossa viagem e da minha vida. Um dia em que esteja cheia de coragem.
Tão longe que me parece hoje, esse dia.

Ficámos, assim, presos no meio de tanta liberdade.
Tínhamos chegado cheio de pó, com os olhos vermelhos do sol e de tudo o que vimos, movidos por promessas do melhor céu do mundo para se ver estrelas. Uma vontade bonita e aparentemente fácil.
Mas tudo o víamos era uma imensa lua cheia, quando nos passeávamos na vila de San Pedro nesses longos dias de espera. 
As estradas de terra batida, casas brancas ou ocres, cães errantes, areia levantada pelo vento, nós e a promessa. Como num cenário de um western, não fossem os turistas à procura de gorros de alpaca e uma manifestação de professores "trabajar... ¿sin opinar ?" para nos fazer sentir em casa.

Estávamos a 3 ou 4 meses do início do nosso périplo. Não tinhamos parado muito até então, não sou de parar. Faz-me um mal terrível às costas e o Stéphane, o homem mais calmo e sensato que já conheci, estava a desenvolver uma estranha e forte urgência em viver. As crianças, essas, íam andando atrás de nós, ao lado e muitas vezes à frente. Tão maravilhadas como com um jogo de vídeo novo, mas sem comandos. As crianças são fantásticas em movimento. Autênticos bichos de adaptação e resiliência. Maldigo as regras, paredes, salas de aula e outras prisões. Não posso fazer de outra maneira. Aprendi demasiado nesta viagem para ser compreensiva. Vivo desta estranha forma.

Mas a prisão que encontrámos em Atacama era diferente. Queixávamo-nos da má sorte que se tinha abatido sobre nós : a lua cheia mais cheia e mais longa das nossas curtas e medianas existências. Todos os dias, no pico do calor quando estávamos a cozinhar o almoço, discutíamos se devíamos esperar ou abandonar o céu estrelado que teima em esconder-se. Iamos ficando, estava calor lá fora. Amanhã logo se via. Hoje comemos ovos mexidos com tomate.

Estávamos numa espécie de villa de uma senhora, que aceitava roupa para lavar, dos turistas e passantes empoeirados, em troca de pesos chilenos. No deserto, apenas a água para beber é gratuita. Quando temos sorte. Os quartos ocres estavam distribuídos à volta de um pátio. E na sombra desse pátio passávamos os dias à espera da frescura suficiente para sair.

Uma grande parte das perguntas que me fazem é acerca da escolaridade dos miúdos. Não estamos habituados a ensinar aos nossos filhos. Parece-nos estranho. Temos receios. Delegamos, delegamos, delegamos. Tínhamos que dar a primeira classe ao nosso filho e a terceira à nossa filha. Queriamos tanto fazer esta viagem que demos ouvidos apenas às facilidades.
Eles têm personalidades opostas, o nosso filho quer ser o melhor a tudo e a minha filha quer viver melhor, um dia de cada vez, todos os dias. Nada pode ser mais antagónico.
Ainda a viagem não tinha começado e o nosso filho já sabia ler e escrever. A nossa filha, essa, já a viagem tinha acabado e ela ainda não estava convencida que era pela escola que tinha que ir.
Um dia contou-me que nunca mais queria acabar de viajar, que queria andar por ali, a conhecer pessoas e mundos, que ninguém lhe dissesse o que era importante aprender, que fosse ela a decidir e a ir indo. Eu estava com o período nesse dia e chorei. Entrou-me um cisco no olho. No dia a seguir, não me apanhou desprevenida e forcei-a a fazer uma ficha inteira sobre o Passé Composé. Não tenho a certeza de nada, mas acho que ensinei o programa da terceira classe à minha filha por medo e não por convicção. Quero muito ser uma boa mãe. Não faço ideia como é que isso se faz, apenas sei que não vem nos livros.

O melhor amigo do meu filho nessa semana foi um japonês de 50 anos. O meu filho foi obcecado pelo Japão quando estávamos no norte do Chile. Queria ver documentários sobre Kyoto e a fauna japonesa das montanhas, desenhar grous e gruas e aprender a falar japonês. Todos os dias aprendia palavras com esse companheiro inesperado de infortúnio e sonhava poder voltar a casa, para trazer o seu kimono branco do judo, num instante. No fundo, no fundo sempre foi japonês na alma, estava convencido disso. Durante toda a semana.

Por volta das 4 ou 5 da tarde entrávamos no deserto em jipes ou carrinhas com ar condicionado. Percorríamos paisagens lunares. Nadávamos nos grandes e inesperados buracos com água no meio daquela areia toda, flutuávamos nas lagoas salgadas que nunca nos deixariam morrer afogados. E olhávamos a lua a subir, a grande e cheia lua do outro lado das lagoas.

Quando estava no vale de Marte, ou da Morte, segundo os guias mais sensacionalistas, não pude deixar de pensar em como nada daquela paisagem extraterreste me remetia à ideia que faço da morte. Tudo à minha volta me parecia belo e imenso e vivo, as cores da terra e da areia, as formas das dunas que pareciam mudar de feitio todos os dias, as sombras tão diferentes a cada hora do dia, as temperaturas extremas do meio-dia e da meia-noite, as cores do nascer e do pôr do sol. A vida. E divaguei nas paisagens que associo à morte. Os centros comerciais dos anos 90, agora abandonados, os prédios enormes sem varandas com cores deslavadas, as marquises, os estores em PVC branco fechados, os parques de estacionamento, os parques infantis enferrujados,muitas vezes partidos, as garrafas de cerveja estilhaçadas, os bancos partidos, os passeios desnivelados, os tags sem sentido nem talento, as passagens com cheiro a urina. A minha ideia de morte é o mau urbanismo dos subúrbios de Lisboa. Do declínio que respiro nas paisagens dos meus mais belos anos. Regresso a elas quase todos os anos e finjo não sentir um peso maior do que a saciedade da saudade.
Queria ver vida nos lugares onde eu já vivi tanto.

Tinha lido Luis Sepúlveda, em tempos de amor literário adolescente, daqueles amor obsessivos que nos levam a querer ler tudo de um autor, Lembrava-me da capa do livro "Rosas de Atacama", mas aos 39 anos não me lembrava de uma única linha. Pensei nisso enquanto olhava para o dramático Licancabour ao pôr do sol. Perguntei-me sobre se algo nesse livro poder-me-ia ter preparado para tão extraordinário espectáculo.  
Não tenho ideia de quantos anos vão passar até esquecer por completo estes dias de areia e de espera.
Licancabur. Que palavra tão fenomenal e apropriada.

No dia em que a lua cheia desapareceu corremos para um astrónomo francês, que todos diziam ser o melhor da terra, para percebermos o que íamos ver. Todas as estrelas do mundo. Toda a nossa ignorância.
Mas apenas um inexperiente, nesta coisa de se depender da natureza, espera exactidão e agendas. O céu estava coberto de nuvens. Evidentemente. Quando se sai do outlook, das reuniões, dos relógios, das rotinas e dos horários, tudo pode corre mal. Ou diferente. Na verdade, é assim a vida. Mas não podemos saber quando estamos ocupados no dia-a-dia. A vida real nunca acontece como esperado.
E ainda bem.
Ninguém estudou nesse dia de frustação. Um dente de leite caíu. E as nossas certezas e preocupações pareceram-nos ridículas. As nossas expectativas, infantis. As nossas certezas, vergonhosas. Pensávamos que estavamos a viver um sonho, que românticos e inadaptados podemos às vezes ser. A realidade, essa, mesmo quando todos os projectos mais loucos, tem sempre a última palavra.
Na noite a seguir, fomos ver estrelas com um enorme telescópio e um raio laser.
Nada foi tão bom como a espera.
Só alguém que se esqueceu do que leu podia não saber disto.

29.9.15

Um mês chinês sem facebook III



Lijiang, o mesmo mês de Maio



Acordámos às 6h da manhã, para fugir da realidade. Ou de um certo tipo de realidade, que muitos nos querem impor como inevitável. Que muitos vivem, como se fosse a única. Como se não vivêssemos em múltiplos universos paralelos, ou como se a vida se encerrasse numa só forma, e acabasse numa só saída. Não é assim, basta, por exemplo, acordar às 6h. Ou levantar a cabeça.
Lijiang tem as mesmas casas e ruas que aparecem na internet ou no site da Unesco. São bonitas, têm história, parecem perfeitas. As cores, os materiais, as formas, as sombras. Podem emocionar, podem levar-nos ao século XII, ao tempo da antiga rota do chá e do cavalo. Mas, tem que se saber contornar a tal realidade. A realidade das lojas que nos querem vender tambores, bonecos de madeira feitos numa fábrica chinesa - que por uma vez, quase que é local - doces, fritos, roupas, "coisas". A realidade dos bares de karaoke quando acaba o dia. A realidade dos autocarros de turistas que seguem guias, a partir das 9h. Deve ser isto a industria do turismo e do progresso, que faz sonhar tanta gente. Os que vendem, os que compram. As wishlists. A realidade de um dia normal. Aspas aspas. Faz-se uma viagem, até ao outro lado do mundo e querem-nos vender "coisas". Não somos os únicos, solidariedade seja dita. Milhares de chineses, que trabalharam todo o ano, para estas férias, viajaram também de longe, passeiam-se como na hora de ponta no metro e, a eles também, querem vender-lhes "coisas". Uns compram, outros não. Todos tiveram que viver no meio da realidade.
Desta.

Não vou há algum tipo a Lisboa, a cidade que me faz sonhar quando me sinto longe de casa. Chegam-me relatos, neste correio que é a internet, das casas que se alugam apenas aos turistas, da venda das coisas tipicas, e não consigo evitar de estremer ao ver em Lijiang o futuro da cidade mãe. Vendida. Feita para vender. Muito bonita.
Ainda quero voltar a Lisboa. Espero que esta vontade nunca mude.

Em Lijiang, acordámos, portanto, às 6h. As lojas estavam fechadas e as ruas vazias. A luz era rasante, o ar fresco e, finalmente, percebemos o que viemos aqui fazer. Existem muitas palavras  para explicarem ao que viemos, mas simplificando, viemos aqui para nos emocionar. Para nos sentirmos tocados.
Os mais distraídos, dirão que viemos aqui para viver.
Quando todos estão a dormir, vemos o homem que vai levar mercadorias às lojas fechadas, vai de bicicleta, não parece ter pressa, não sorri. Vemos a mulher vestida tradicionalmente, como as mulheres Naxi, não se espanta por nos ver, como fazem os turistas. Ela está ali a viver a vidinha, nas horas em que pode - que a deixem em paz. Ainda não se perdeu na multidão, que vai acordar dentro de uma hora. Vemos os cães errantes, percebemos as ruas empedradas que acompanham a geografia do lugar. Vemos as casas fechadas, que ainda não nos mostram tudo o que não precisamos e que podemos comprar.
Tiramos fotografias lindíssimas, fora deste tempo, mas sentimo-nos sempre intrusos. Estamos num décor de um filme, e o realizador ainda não gritou acção. Movimentamo-nos numa fotografia.

Fomos muitas vezes distraídos. Em viagem, mas sobretudo no dia a dia. Distraídos por uma realidade, que acreditem, nem sequer é a nossa. Lembro-me que tudo começou há mais de dez anos, no monte Saint Michel, na Normandia. Tinha sonhado com aquele lugar, acreditando nas lendas e imagens que me chegavam pelos guias de viagem. Quando finalmente me encontrei lá, nada se passava dentro de mim. Porque se passava tanta coisa, fora. Lojas, bichebeques, bolachinhas. Muitos turistas, muito dinheiro a ganhar. Culpava-os, mas não os culpo mais. Existe dinheiro a circular, é essa esta realidade. Agora, quando me lembro, levanto a cabeça e olho para além do presente, vejo ao que vim. Espero lembrar-me muitas vezes.

Se pensar bem, a felicidade, a escolha da nossa realidade, é uma questão de inteligência.
Não posso mudar o mundo em que vivo, mas posso olhá-lo de outra forma.
Escolher a realidade onde quero viver. Pode parecer esquizofrénico.
Prefiro chamar-lhe sobrevivência.

Lijiang é muito bonito, com muitas historias que não me conta, mas que posso tentar adivinhar.
Mas hoje, é difícil acreditar que quererei aqui voltar, um dia.

18.9.15

Um mês chinês sem facebook II



Xizhou, o mesmo mês de Maio de 2015 



Acordámos tarde e com nuvens. Dissemos, a todos os que nos perguntaram, que não queríamos apanhar um táxi para uma aldeia que fica mesmo já ali. O preço parecia-nos exorbitante, visto da China que trabalha.
Ninguém sabia falar inglês, mas também ninguém o esperava. Passamos uns quinze minutos a andar de um lado para o outro a dizer Xizhou como podíamos. Não há autocarros, mentiam os taxistas sem bigode. Hoje não é possível, mentiam os condutores clandestinos, têm que vir comigo. Um policia indicou-nos uma rua que subia, e em cima, apanhamos um autocarro que nos deixou ainda mais em cima. Tínhamos que sair e trocar de autocarro, tentando novamente a nossa sorte com a palavra Xizhou. Quando foi o meu filho a dizer, perceberam à primeira. Ha-de haverum nome para este tipo de preferência descriminatoria. Novo autocarro e seguimos em direcção ao que os nossos amigos de ocasião tinham chamado de uma aldeia "interessante" chinesa. 
Chegamos e andamos. Garagens, lojas de ferramentas, drogarias, mercearias. Perguntamos onde era o centro e andamos e perguntamos e andamos. Demos a volta inteira à aldeia e não demos com ele. Uma aldeia chinesa tem forçosamente aspas para um ocidental. Uma aldeia chinesa tem, por exemplo, 40 000 habitantes. Mas mesmo que a nossa ideia de aldeia não seja a realidade que encontramos, vamos encontrar, ao menos, ruas calmas e desertas à hora do cultivo do arroz. E vejam como ficamos reconfortado ao encontrar algo que conhecemos. Sim, estamos numa aldeia, pensamos, satisfeitos.
Sentimo-nos perdidos a cada esquina, mas apetece-nos tanto entrar nas porta entreabertas, que continuamos a avançar no labirinto. Numa das portas de madeira alguém escreveu em inglês, com tinta branca improvisada, que se pode entrar nesta casa bai, por 3 yunnans. Vê-se bem que a industria do turismo chinês ainda não passou por aqui. Suspiramos de alivio. O efeito surpresa das belas casas perfeitamente remodeladas de Dali, está a desaparecer, não queremos ver mais pessoas a comer cupcakes ao pé de uma porta da dinastia Duan, com aspecto novinho em  folha. O passado deve parecer passado. Aqui também temos as nossas certezas e ficamos confusos quando não é assim.
Uma senhora vem espreitar, de vez em quando, à porta para ver se algum visitante perdido, como nos, poderá estar interessado em ver a sua roupa a secar ao vento, ou o seu pai sentado numa cadeia de verga. Os visitantes são pessoas estranhas, já se sabe.
Entramos, um patio Bai, um corredor, um outro pátio Bai. Entramos numa casa e perdemo-nos novamente, como se estivéssemos agora numa outra aldeia, dentro de uma aldeia. A desarrumação é omnipresente. Ninguém se ocupa de nos. Ninguém fala inglês. Ninguém se esforça. Podemos andar por ali, como queremos. Não deixo os meus filhos entrar num quarto de criança. A criança não está lá, largou os brinquedos no chão antes de sair para a escola. Valores de propriedade privada devem estar mais presentes em mim do que julgava. Continuamos a deambular nas partes que consideramos publicas, mas não temos a certeza do que estamos a fazer. Avançamos, ninguém nos diz o que podemos fazer, nenhuma corda como nos museus. Sentimo-nos à vontade. Sinto-me sempre em casa, quando estou numa casa desarrumada. Aqui vive-se é já é muito. Já é tudo.
Vimos a roupa estendida, as colchas, as cuecas. As galinhas à solta, os coelhos nas gaiolas. A cozinha com tachos a aquecer. As camas por fazer. Fomos abandonados e abandonamo-nos.
Como uma mosca com permissão.

Lembro-me da minha vida normal. Nem sempre é preciso colocar as aspas na palavra normal. Lembro-me de como vivia, de como sou, na pessoa estranha em que me tornei. De andar sem me aperceber que estava a andar. A cabeça noutro lugar. A curiosidade à frente do écran. A andar de um lado para o outro, sem ter consciência disso. Sem procurar saber mais sobre a pessoa que se senta ao meu lado ou a quem abro a porta. Com receio que a vizinha do segundo andar queira falar comigo de alguma coisa, de ter que fingir pressa, de ter que esconder um tédio dominante. Omnipresente. Não faço ideia de porque é que a China parece-me agora muito mais interessante do que a minha rua, ou o bairro ao lado do meu. Vejo às vezes blogues com fotos de portas comuns, de ruas por onde passamos todos os dias. Não sei o que acorda as pessoas da sua rotina, para conseguirem interessar-se pelo que sempre esta ali ao lado. Eu tive que vir para o outro lado do mundo, uma aldeia onde tudo me é estranho, onde a língua é um mistério, para acordar. Sinto uma súbita pena os viajantes, dos que têm que ir para longe para se admirarem, para abrir os olhos. Quando é que fechei os meus ?

...

Ouve-se uma explosão perto de nos. Uma estudante de belas artes, e os imitadores dos meus filhos, estavam a desenhar uma porta de um templo e deixam cair os cadernos. Não é uma improvável manifestação contra algo, nem uma eminente explosão de produtos altamente explosivos que se armazena aqui como se de arroz se tratasse. A explosão é divina, duas senhoras saíram do templo e colocaram bombinhas num forno para comunicar com os deuses. A comunicação é unilateral, mas bastante ruidosa. A rapariga revira os olhos e quando os tem novamente no lugar, quer ver os desenhos que os meus filhos fizeram, comparam resultados. Apesar da imparcialidade que devemos ter enquanto progenitores, devo aqui admitir que o dela está ligeiramente mais bem conseguido que os dos meus filhos.
Começamos a falar. Não me lembro da ultima vez que tive uma conversa com alguém que não conhecia, quando estava em casa. Muito menos de acabarmos por almoçar juntos. Aos meus filhos costumo sempre dizer que não se deve falar com estranhos. Estou a educa-los como me educaram a mim, vão tornar-se seres perfeitamente integrados na sociedade europeia. E estranhos.
A rapariga leva-nos para um restaurante com ar bastante basico, é estudante em Chengdu e esta chocada com os preços que se praticam nos lugares turisticos. Tem comido sopas de massas instantaneas com as amigas, desde que chegou à provincia de Yunnan. Sentamo-nos e ela vai discutir com a cozinheira o que vai ser o nosso almoço. A conversa dura 5 minutos, ha bastante negociação. Enquanto esperamos, falamos de Paris, a cidade que sempre quis visitar e temos uma lição gratuita de chinês. Ri-se muito quando tento falar, como se dissesse porta de aluminio, quando o que devia dizer era cadeira de madeira exotica. Pensa que faço de proposito. Mergulho no meu cha verde, não entendo o que faço de tão errado assim. Os meus filhos recebem aplausos, um senhor que esta sentado na mesa ao lado, levanta-se e faz parte da lição, pergunta se têm aulas de mandarim em casa. Nado no meu cha entre orgulho de mãe e vergonha de aluna. O Francês safa-se porque é discreto, mas esta convencido que o seu sotaque é melhor que o meu. Francamente não faço ideia.
Nesta altura acredito piamente que quando chegarmos a casa vamos ter aulas de mandarim no XIII arrondissement, o Francês mais pessimista sabe que vamos ser engolidos pela rotina. O momento é agora, consegue dizer apesar da enorme dose de picante que acaba de comer por engano.
Despedimo-nos com grandes abraços, os miudos estão particularmente emocionados com este encontro e falam com grandes exageros sobre a gentileza dos chineses em geral e desta estudante em particular. Dizem-me que deviamos convida-la para vir para nossa casa, para que ela possa visitar Paris.
Não faço ideia de como vai ser a minha vida, quando voltar. Se vou procurar toda a informação queme tem faltado e que me tenho prometido. Se vou continuar a falar com as pessoas desconhecidas que encontro na rua. Se as vou convidar para almoçar, para virem para nossa casa. Ou se vou ficar cinzenta e deixar-me levar pela maré das conversas ocasionais com vizinhos que conheço ha dez anos. Tenho muita curiosidade em saber como me vai mudar este viagem.
Serei suficientemente inteligente para continuar a viagem, depois que esta acabe ?

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