17.9.17

Poesia de ficção científica

Desde pequena que a Júlia diz que vai estudar no Beaux Arts de Paris.
Nunca falou do que ía fazer em seguida, nem como faria para lá chegar, o que sempre me pareceu lúcido e arriscado ao mesmo tempo.
Pudemos visitar o edifício este fim-de-semana e o meu filho perguntou se estávamos a visitar o futuro da irmã.
Senti-me numa série infinitamente melhor do que no Espaço 1999.

Tenho estado fascinada com as possibilidades que os jovens humanos dispõem.
Este desiquilíbrio entre o pouco que viveram com o muito que ainda têm à frente, seduz-me.
Confissão : como muitos outros desiquilíbrios.

Pergunto-lhes que planos têm, o que querem fazer daqui a 5 anos, o que acham das suas vidas agora. Assusto-os com os meus olhos a brilhar e com rugas ao lado.
Quero recitos das suas futuras odisseias.
Numa conversa com uma amiga dei por mim, embaraçada, a fazer-lhe mais perguntas sobre a filha do que sobre ela mesma. Mesmo para uma pessoa como eu, isto é estranho.
Mas existe esperança. Serei salva por quadra e cinquagenários indiferentes à minha obsessão.
Tudo parece estar a mover-se.
Independentes da minha visão limitada da vida e do que que dela podemos esperar, vários estão a mudar em plena crise de meia idade.
Divórcios, libertações, reconversões profissionais, mudanças de cidade e espirituais.
Muitos ainda acreditam que têm sonhos a merecerem ser tomados seriamente.
Não preciso de vídeos inspiracionais.
A vida basta-me.

Desta vez, ouvi na rádio que o ser-humano é a única espécie que vive muito além da sua idade reprodutora. Depois dos filhos há uma outra vida, é a ciência que nos diz.
Não se pergunta o que fazer com ela. Vive-se uma segunda vez. Do início.

(E a Júlia ainda é pequena).


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