3.1.26

2026

Nunca fiz resoluções na passagem do ano. Talvez há muitos anos em festas de garagem, onde os meus pais eram os reis da pista, com a música « meu amigo Charlie Brown » e as doze detestáveis passas em pé em cima de um banco em desequilíbrio. Tenho boas lembrancas desses tempos de criança, e não sei porque é que agora detesto esse tipo de música e esse tipo de passas. E também não sou fã de garagens. Talvez o que é do passado, deva ficar no passado. Temos que saber de onde vimos, mas gosto muito desta sensação de surpresa que há nesta maravilhosa experiência que é estar viva.  Talvez por isso, acho chatas quase todas as tradições, todas as experiências que se repetem e supostamente nos confortam. O conforto é algo que considero muito sobre-estimado. Já vi sofás a custarem dez mil euros euros. Haja falta de amor ao dinheiro. Haja desprezo à aventura. 

No ano mais feliz e cheio da minha vida tentei ter um blogue, chamava-se “anti sofá” e morreu ao segundo texto. Naquela altura a vida era boa demais para ser contada. Não se pode viver e contar ao mesmo tempo, talvez por isso os melhores livros são os que falam de tristeza e desespero. Alguém verdadeiramente feliz não quer saber do futuro, da posteridade, da literatura. Soam sempre a falso aqueles influenciadores felizes e perfeitos. Eu já fui feliz e perfeita e posso dizer que não podia estar a borrifar-me mais para o resto do mundo. A felicidade quando é plena, tende a ser egoista e privada. 

Hoje a minha vida até é boa, mas não é perfeita, há surpresas, com poucas aventuras quotidianas realmente inéditas, sei sempre onde vou dormir e em que sofá me vou sentar. Talvez por isso, o grupo Largo é tão importante para mim.  Para descobrir o extraordinário nas pequenas coisas. 

Esquecer por uma vez, que o destino é sempre melhor do que o que desejei para mim. E que a melhor resolução é aceitar o que vem. 

Resolução possível, ensaiada aqui;  tentar este neste ano sem precedentes, ter a disciplina para escrever uma vez por semana, nada justifica passar ao lado deste projeto. Obrigada a quem escreve, obrigada a quem lê.

21.11.25

Bode expiatório

De cada vez que arranjamos uma desculpa para não conseguir fazer algo estamos a autosabotar-nos. Não posso ser uma artista relevante porque comecei muito tarde. Não posso dar novamente a volta ao mundo porque já não tenho forças. Não posso e a culpa não é minha. E a vida fica mais pequena. Há quem chame a isso conforto, sabedoria, amadurecimento. Mas na realidade é covardia, falta de imaginação, ânimo. É uma morte lenta.


E é a uma morte lenta da sociedade que conheciamos, com as suas imperfeições, mas com alguma esperança, que estamos a assistir. A culpa agora é dos emigrantes. Num países de emigrantes, alguém conseguiu convencer demasiada gente, que a culpa é de pessoas como nós. Há algo de reconfortante em dizer que a responsabilidade não nos cabe, que não fomos nós que deixámos as coisas chegarem onde chegaram, que votamos nas pessoas que não souberam aproveitar as muitas ajudas que vieram da Europa, que deixamos que não se consiga comprar casa, nem ter bons hospitais, nem boas escolas. A culpa é dos outros. Onde é que se lava as mãos? 







Esta semana, o tema do colectivo de escrita Largo é Bode Expiatório. Já podem ler o da Rita Maria Dantas.

14.11.25

Ainda estou aqui

Ainda estou aqui mesmo que não saiba para onde irei a seguir. Vim de uma história fantasiosa de um país mítico que nunca existiu e para onde nunca se poderá voltar. O Moçambique que me foi contado é mais inacessível que Narnia. Cresci a ouvir contar histórias de crianças pela boca de adultos que nunca cresceram, porque o caminho lhes foi interrompido por uma guerra que chegou de um lugar longínquo, de um lugar real. Cresci e continuei a fugir da realidade dos outros. Não me interessam visões curtas, práticas e eficazes, onde um unicórnio é uma start up que vale um bilião de euros. Muitos quilómetros de distância.

Em 92 tive um sonho, Paris das lumières e um lugar mítico que nos transmitiu um professor que tinha sido Pica minas na guerra colonial. A minha vida parece que dá muitas voltas, mas anda sempre tudo à volta do mesmo. Nas férias da páscoa fomos todos dentro de dois autocarros à pinha de entusiasmo e  hormonas. O sonho tinha pernas para andar e em 2004 comecei a vivê-lo por conta de um francês que conheci em Praga. Em Paris soube o que era o sonho da maternidade, do amor e da cultura que nos entra em cada esquina. E depois quis mais e maior, a felicidade também pode dar-nos ganância. Mesmo quando não é uma ambição de poder ou materialista. Querer viver mais, sempre e mais profundo. Quis então dar a volta ao mundo. Quis ir para a estrada, sem pensar para onde, sem ter onde chegar. E fui sentir e viver. Seguiram-se os atentados em Paris quando pensámos ter voltado para a rotina parisiense, terá sido um mau sonho? Fugi e voltei para Lisboa. Voltei para o pé da minha vida anterior, e ultimamente para Maputo, mas desta vez para a terra real, histórias de adultos contados por crianças. 

Voltar ao café Zambi, na baía de Maputo, onde me cortei na mão quando tinha um ano, saber de onde vinha aquela cicatriz. o que fica em nós dos sítios onde vivemos?
Ainda estou aqui. Mas nunca no meu lugar. Always go a long Way / Give the Day some meaning. 
Saber para onde ir para finalmente chegar. 


Este texto foi escrito em resposta ao desafio do colectivo Largo. Esta semana, a Mariana, a Rita Maria Dantas e a Maria João Caetano  também está aqui.

7.11.25

Fúrias

Fui furiosa durante um período de tempo, no início da minha vida adulta. O meu alvo preferido eram machistas, homens e mulheres, racistas essencialmente brancos e pessoas privilegiadas, quase sempre de direita que não entendiam as dificuldades de quem não tinha nascido com o traseiro virado para a lua. Pessoas que confundiam meritocracia com heranças de família. Fast and Furious.

Com o tempo, comecei a ficar sem paciência. Afastei-me de quem não pensava como eu nesses campos, não me é interessante discutir o que para mim é óbvio. Pode parecer snob, mas é só preguiça e falta de esperança, sei que quem ainda pensa dessa forma, não fez um esforço intelectual mínimo para entender o mundo que o rodeia, ou então está com a dose de má fé necessária para continuar a ter a vidinha que tem às custas de outros. 

Alguém sem a moral ou a honestidade intelectual que agora exijo a quem quer privar comigo. "Exigir" é uma palavra forte, talvez a substitua mais tarde com "só consigo ficar respirar ao pé de... se..." 
Não quero com isto dizer que só falo com quem pensa como eu. Nada disso, adoro mudar de ideias, assim como gosto particularmente quando faço alguém reconsiderar um argumento. Só não o faço em questões fraturantes. E não são tantas assim, estão apenas muito presentes. Existem certas opiniões sexistas, raciais ou de classe que me mostram que ali não vou ganhar o meu tempo, no melhor dos casos ou, no pior, vou acabar a explicar a minha reacção a um senhor policia de segurança pública que, entretanto, alguém chamou anonimamente. 
Então, lá deixei de dar boleia a uma pessoa que era contra o aborto (de outras mulheres), já deixei de ir a almoços onde se come muitíssimo bem, mas onde se diz mal de emigrantes.
A minha fúria retira-me pessoas da minha vida e motiva-me na hora de colocar a cruz no boletim de voto.

Mas, e aqui entra a dolorosa realidade, eu sei que estamos em tempos de cólera, e que nem sempre se vai a bom porto só com amor, ou, no meu caso, distância. Em tempos como os de agora, a cólera tem de mudar de campo. Não é só a vergonha. A cólera é necessária para mudar o status quo. O tal vulcão. Precisamos de uma nova revolução. Precismos de nos zangar alto. Precisamos colocar um fim a este descalabro. O povo dos brandos costumes tem que acordar. Que volte a ser sexy a contestação e o poder na rua! 

PS: Fiquei tão feliz com a vitória de Mamdani como se fosse nova yorquina. Ontem foi um dia sem fúria, um dia raro em 2025.


No colectivo Largo, a Rita Maria, a Mariana Leite Braga também se enfureceram.E a Maria João Caetano estava furiosa mas depois algo aconteceu. 

24.10.25

Máscara

Adoro máscaras. A hipocrisia tem má e injusta reputação. O cimento da vida civilizada entre humanos são as mentiras brancas. Tenho saudades de quando não se dizia à boca cheia o que agora se grita e se vota. Ainda não há muito tempo estava convicta que estávamos a avançar enquanto humanidade. Acreditava piamente que a partir dali era sempre a subir. Tive filhos por pensei que o seu futuro seria cheio de portas abertas, felizes acontecimentos e muita luz. Pari porque achava que a vida deles ainda seria melhor que a minha, pela qual sou já bastante grata, de resto.

Lembro-me com carinho das tardes passadas a rir no escritório entre colegas que só com mentiras suportava e era tolerada. 

Sonho com aquele dia de Verão em que ficámos na praia até tarde para ver o pôr do sol e ele me respondeu que não tinha celulite. Amo que me mintam para serem agradáveis comigo. A realidade não me interessa nada. A vossa verdade absoluta, muito menos. 

Usem máscaras por motivos sociais, psicológicos, higiénicos. Usem máscaras pela beleza do gesto. Usem máscaras para que isto corra bem.

Finjam, por favor. Enganem-me por caridade. 

Lie to me, lay with me.


Outras plumas do colectivo Largo já escreveram sobre o tema da semana :

17.10.25

Pulso

O meu primeiro impulso para a palavra "pulso" é a música. Claro. Evidente. Aquele beat. Aquele ritmo. Aquele som sintonizado como na barriga da mãe.

Boom boom Boom boom. 

A Vida. A vida dos nossos filhos quando ainda fazem parte de nós. A primeira mini ecografia, antes da verdadeira. Aquela onde sabemos que eles existem. Que estão mesmo lá.  Mesmo aqui, em nós. Que temos dois corações a bater dentro de nós. Quando sabemos. Quando sentimos. Sabemos antes. Mas é ali que sentimos. E saber e sentir, que diferença tão grande que é. Sabemos ali que saber não é nada, é só ilusão. Ilusão concreta. Mas ilusão. Irei sempre denegrir a razão, afinal, é o que nos separa dos animais e eu sempre me senti e quis e fui e soube-me tão próxima deles. 

Boom boom Boom boom. 

Mas pode ser outra coisa. Podia ser tanta coisa. Podia ser quase tudo. 
Pode ser longe de mim, pode ser algo tão afastado da natureza humana, que só mesmo humanos poderiam imaginar e, como eles dizem, "implementar". 

O PULSE, pasmo. Espanto. O Pulse parece que é também o nome de um software ou de um sistema que "ajuda" a  sistematizar e medir acções concretas para se atingir objectivos comerciais. Um amaranhado para se ser produtivo, para organizar o doce caos onde devíamos banhar. Para domesticar o que é a "vida" e alcançar as metas de outros, quase tornam nossas no assalariado. Para se ganhar dinheiro. Para se ganhar a "vidinha" como se diz nas escolas de arte. Aspas em todo o lado na frase "ganhar a vidinha" para que não se perceba o engodo que é passar tanto tempo para depois, mais tarde, cada vez mais tarde, e já sem muito jeito, ânimo ou porquê, um dia se vir a poder viver a Vida.
Como caímos todos nesta esparrela?
Quando tudo começa na essência

Boom boom Boom boom


Mede-se o pulso esta semana no colectivo Largo, já há textos aqui:

10.10.25

Como cão e gato

Mil oposições. Contradições. Lutas e conflitos. No mundo. Na minha rua. Nas escadas do prédio. Mas a primeira, a mãe de todas. A que me assombra desde a mais tenra idade vive dentro de mim. Um fantasma bem presente de que nunca quis fugir e só afugentei quando fui obrigada pelo assalariado. Esse mal maior.

Como cão e gato eles vivem rent free na minha cabeça. Esta vontade de viver e esta fatalidade de sonhar. Este estar presente e este escape infinito. Este viver no momento e o doce mundo que não foi criado para existir. O presente e um futuro nunca alcançado, mas  muitas vezes desejado.

Disassociacão como doença mental?  Internem-me sem camisa de forcas. Vim assim ao mundo. Do you want some nudes? 

Se o futuro é feito de um presente que já passou. o meu amanhã é muito pouco concreto. O meu futuro pode muito bem nem sequer chegar a existir, porque no presente, eu nem sempre estou. Nem sempre sou. 

Uma outra estranha forma de viver, esta, que é essencialmente sonhada.


No largo, o tema "Como cão e gato" foi e seria livremente escrito:

3.10.25

Quanto até ao apocalipse?

Londres, anos noventa. Lembro-me de rir discretamente, mas com vontade, no speakers corner do Hyde Park, quando vi pela primeira vez aquele gentleman de barba longa e branca, em cima de um caixote de madeira com o cartaz bem alto "Things gonna get worst". Anunciador do apocalipse num dia de chuva antes da hora do chá, achei super chique. Devo ter tirado uma foto analógica, ou talvez não, nessa altura pesava-se bem cada imagem que valeria ser guardada para sempre. Não devo ter tirado, a luz estava péssima, era uma vivência para ser guardada só na memória humana, imperfeita e orgânica. 

Agora, ando à procura de um caixote suficiente forte para me equilibrar em cima com um cartaz semelhante, se não pior. O meu pessimismo está ao rubro. 

E sei que no meio desta lama há um caos bonito e solidário, não fechei os olhos às maravilhas que me rodeiam. Sempre tive muita sorte com os meus olhos. A lucidez não tem de nos cegar. Mas...

Só tinha vivido até agora o apocalipse em filmes. E no cinema não há esta morte lenta da sociedade, este fartar de descidas sucessivas de nível moral até à sua banalidade. Estas contas para pagar. Hannah Arendt avisou e escreveu, mas na altura da civilização em que mais pessoas sabem ler, ninguém mais o faz. Os sinais estão todos cá e os maus são porcos e feios, sem nenhum  hipocrisia. Zero carisma. E, no entanto, a mensagem e as ações sucedem-se e olhamos ao nosso redor estupefactos. Eu envergonhada pela minha ingenuidade. O meu otimismo nato que já comecei a enterrar.

Tarda, mas não está a falhar.


Texto escrito dentro do grupo Largo. Esta semana, já há estes textos para explorar:

26.9.25

Alma minha

 Alma

Anima

Ânimo meu.

Onde encontro o que me move é onde mais me mexo e me perco e me encontro. E mexo e remexo e salto e balanço e estico e abano e sorrio e sinto muito e encontro. Não paro, não paro. Há quem esteja, e ali seja, para escapar, todos estamos ali para ser. Lá, onde não há luz e usamos óculos de sol. Onde nem sempre temos consciência. Onde voltamos a ser animais.
Não somos bem uma tribo. Não somos sempre bem organizados. Somos quase sempre caóticos, absurdos, sem nexo. Quase sempre sorrimos. Às vezes, tentamos falar frases soltas no meio do barulho. Finjimos que entendemos. Não nos esforçamos para compreender. As palavras não nos interessam, só o sentir nos faz sentido. Lá fora muitos de nós faz apenas por sobreviver. 
Quase sempre somos felizes sem promessas.  
O que é, é. E é muito alto, mais alto. E mais e mais e mais. 


Este texto foi escrito no âmbito do grupo Largo, podem ler outras declinações de "Alma Minha" aqui:

PS e forte recomendação :

19.9.25

Mentir com quantos dentes tem na boca

Querer paz.

Verdade absoluta, sem falhas. 
Sem excepção,. 
Quem se apresentou com paz na boca, trouxe-me sempre drama minado, desnecessário. Anti-pessoal. 
Existências que a procuram - não a têm em si.  Per se  é uma boa intenção.
Mas fica-se sempre por aí. Nesse purgatórioi de quases. O inferno a abarrotar de exctatic dancers e yoggis superiores em busca de algo que só vão ter na aparência e nos stories motivacionais. 
Pessoalmente peço, por favor, não se aproximem mais. 
Guardem as palavras, já só ligo às ações. 
Vivo bem na lama. 
Mostrem-me as inseguranças, as imperfeições, as vontades de mentir, o cair. Com o humano eu sei lidar.
Com os erros que acumulei, julgo cada dia menos. Ccompreendo. Aceito tantos desvios. Assumo quase tudo menos o vosso marketing pessoal. 

A paz? Só quero a mundial. Como as misses de beleza dos anos 80.






Outras mentiras noutros blogues do grupo Largo