11.7.15

Em Malacca com Elisabeth de York

Quis vir a Malacca atrás das historias que aprendi na diagonal na escola. Hoje em dia, diga-se de passagem, parece-me que tudo o que aprendi na escola foi na diagonal. Não é necessariamente mau, aprender-se na diagonal, eu nunca direi o contrario. Logo eu que, para grande desespero de quem partilha as noites comigo, adopto a diagonal como a minha posição preferida para dormir. Não o faço por mal. Evidentemente. Nem quem quer incutir algo nas cabeças das gerações vindadoras. O problema é de quem pensa na escola como um fim, quando não é que um principio. Lembro-me dos professores que começavam as aulas a escrever o sumario no quadro preto e depois começavam a dar a lição. Isto pode induzir a erro. Toda a escola é um sumario. Uma proposição. Os outros não percebem isto. E depois, no final, perguntam que notas tivemos, em vez de quererem saber onde vamos com o que começamos a aprender. Olha, eu, por exemplo, calhou-me ir a Malacca.
Chegamos cedo à fonte da rainha Victoria, rodeada de prédios vermelhos, erigidos pelos holandeses quando aqui mandavam. Isso e por rickshaws decorados com a Hello Kitty e as bonecas do Frozen. Não percebo nada de marketing, não sei para que tirei um curso. Se alguém me dissesse que ia decorar a sua bicicleta com peluches, luzes led e apetrecha-la com um sound system para chamar quem por aqui passa, diz-lhe-ia para se dedicar antes aos pasteis. De nata ou de bacalhau, à escolha. Mas, pelos vistos, aqui ninguém quer saber de pasteis, já os richshaws de natal com o espírito das feiras de Corroios encarnados, fazem um daqueles sucessos.
Mas, como ia dizendo, chegamos cedo a Malacca, o autocarro de Kuala Lumpur demorou pouco mais de uma hora para nos trazer aqui. Tenho que vos falar do que nos aconteceu em Kuala Lumpur. E no Japão. E na China. Mas sou agora cheguei a uma praia, só agora me estou novamente a aborrecer. Já vos falarei da praia : é paradisíaca. Temo que os meus filhos nunca mais me deixem sair daqui.
Fui a primeira a chegar a Malacca. Depois do Afonso de Albuquerque e todos os outros, claro. Uma senhora com uma idade difícil de adivinhar vem me propor um quarto simples. Fala um inglês perfeito, daqueles ingleses que podem estar a falar do peixe que compraram no mercado, mas vão sempre parecer mais inteligentes. O inglês em questão, vem de York, soube-o mais tarde. A senhora vem de muitos sítios. Esta é a historia da nossa vinda a Malacca e do meu fascínio apenas com um precedente por Elisabeth de York. Depois tenho que vos contar acerca do precedente.

Elisabeth leva-nos pelas ruas da little India, explicando os edifícios, os restaurantes, as historias e os gatos. Eu opto por não olhar para o Francês, no caminho. Tínhamos decidido não irmos atrás do primeiro que nos aborda na rua, era para sermos racionais, recolher informações, analisar, estabelecer hipóteses. Mas eu, entretanto, decidir não decidir e seguir Elisabeth. Não vou entrar em exageros, mas se ela me pedisse, ia até ao fim do mundo. Na Argentina. Não é um mau sitio para se ir. Sei-o agora.
Elisabeth leva-nos para uma casa visivelmente a precisar de obras. Parece que o dono a telefonou, estava ela na sua vida em Singapura, para lhe pedir ajuda. Trata-se de um velho amigo, que por causa do álcool e das noitadas, viu-se acamado, sem forças nem saúde para gerir a guesthouse. Entretanto, recusa-se a ir ao hospital, onde não poderia beber álcool, nem fumar cigarros. Quando explico isto às crianças, respondem-me chocadas que isso não faz sentido. Ainda não têm a idade suficiente para perceber que nem sempre a saúde é o mais importante, que existem outros princípios e prazeres, mas não sou eu que lhes vou explicar. Continuem a comer cereais sem açúcar, meus queridos e o vinho tem um cheiro horrível sim senhores.
A casa já deve ter sido os seus tempos áureos, vejo fotos com pouca cor de festas hippies pregadas nas paredes, descalço-me e subo as escadas atrás de Elisabeth. O Francês senta-se no hall, fazemos como quiseres. Digo que sim, com um sorriso a um quarto com a pintura a cair, uma mostiqueira cheia de buracos, uma só cama que range e uma promessa de colchões para os miúdos. O Francês vai-me matar. Estou disposta a pagar com a vida as historias que vou ouvir, em inglês de York.
Quando Elisabeth vai dar de comer aos gatos do bairro, vamos à procura dos vestígios portugueses no centro da cidade. Faço ares de conhecedora e debito tudo o que me lembro acerca do estreito de Malacca. Muito pouco, pouco mais do que o sumario, temo.
Subimos ao Monte de São Paulo para ver a vista, o sol a pôr-se, o estreito, a nau portuguesa, a fortaleza, ou o que resta dela e todas as esperanças que aqui nasceram e morreram. Interesso-me, por ora, pelos nascimentos de outrora. Os arranha céus e os centros comerciais não me interessam, não são o meu futuro.
No dia a seguir, corremos para dentro da nau-museu « Flor de la mar ». Teria tendência para dizer Flor do Mar, mas o português é uma língua que muda tanto que aceito tudo. O que é que eu posso saber ? No final, os meus filhos sabem mais do que eu aprendi na escola. E isto não sou eu a fazer-me de mãe alternativa que tira os filhos da escola, para lhes ensinar melhor ou diferente. Isto é a realidade. Pronto, e também sou eu a fazer um bocado de mãe alternativa. Pronto.
No barco havia muita informação, mas desconfio de alguma desinformação também. A bandeira que mostram dos portugueses, é a actual e não a que representava Portugal em 1511 e mostram armas anacrónicas. Falo aos meus filhos, da relatividade da Historia, da teria da conspiração e da importância do orgulho da nação para alguns governantes. Que é sempre bom ouvir-se varias versões, a versão malaia que conta que os portugueses eram uns brutos sem educação nem senso de diplimacia, a versão portuguesa de fama e gloria do período dos descobrimentos. Ficamos também a saber que os portugueses tinham canhões muito potentes e destruiram o palacio do Sultão. Do lado português dizem-nos que o sultão era nomada e vivia em tendas, nenhum palacio foi destruido, a apropriação de Malacca foi feita pacificamente. A versão malaia, a versão portuguesa, escolhemos não escolher e em vez acumulamos, não temos nada a dizer ou a argumentar, vivemos bem com a pluralidade e o mistério. Que outro remédio se pode ter quando se viaja para aprender ?
Mais tarde, fomos ao que resta da comunidade portuguesa, a Elisabeth disse-nos para irmos ainda nem sequer sabia que eu era portuguesa. Não sendo ainda o fim do mundo, até onde eu iria por ela, tive a sensação de estar a visitar o fim de um certo mundo português. Isto contaram-nos à frente do museu da herança portuguesa. Mas isso foi depois. Antes comemos.
Em Malacca quase não encontramos vestígios dos portugueses : a porta de Santiago, restos da fortaleza « A Famosa », um rancho folclórico que não vimos e pouco mais. Existe uma little India e uma little China, que trouxeram os ingleses, mas não existe um little Portugal, como em nenhuma cidade onde vivem portugueses, tenho a impressão, mas ainda tnho muito para ver.
Tivemos que apanhar um taxi para o the portuguese settlement, please. Estava calor, as casas não pareciam particularmente históricas, não havia uma igreja, que o sultão não deixa construir, não havia vivalma. Fomos comer ao restaurante Lisbon, ao menos não sairíamos dali de barriga vazia.
No restaurante escolhemos um peixe e uns camarões num menu inglês. Perguntei se não tinha em português, não recebi em troca o nome do peixe em inglês, mas fui apresentada a um grupo ao lado. Disse que vinha de Lisboa para simplificar. Disseram que vinham do Porto, de seguida fizeram uma ou duas alusões sobre a superioridade do Norte, como muitas vezes fazem, com mais ou nenhuma piada, as pessoas do Norte de um pequeno pais do Sul. Não me interessam conversas regionais que ja ouvi vezes demais : eu quero que me falem do mundo, por favor.
E falaram. E cantaram. Não em português do acordo ortográfico em voga, mas em português do século XVI. No museu do povo em Malacca, chamam-lhe « cristão ». 
Félix, um senhor de aspecto malaio com uma t-shirt d um encontro em Timor já esteve em Portugal, conheceu a Mariza e partiu em tournée. Cantou tianica do Loulé e o malhão, malhão, continuei a comer. O molho estava excelente, o peixe fresco. Nunca soube como se chamava. Mas depois parei de comer, nem só do estômago vive o homem. Félix cantou uma musica sobre os marinheiros, num português arcaico. Se era a Malacca de 1511 que me tinha chamado até aqui, tinha-a encontrado.
Na mistura de sangue, no que fica quando tudo acaba. 
Os portugueses de Kuala Lumpur, uns de Moçambique, outros do Porto, esta portuguesa que ainda não sabe de que terra é e uns três franceses, entraram no museu, um acumulado de um doador vendedor de antiguidades. O responsável veio com a chave e abriu de propósito para a estranha comitiva e mostrou-nos as fotografias do inicio da aldeia, quando os ingleses os expulsaram do centro, no lugar da actual chinatown. Pediram uma terra ao bordo do mar e umas redes para pescar, contruiram casas de madeira e ficaram a misturar-se cada vez mais com a natureza malaia, o mar e as mulheres. Disseram que um português podia chegar a ter três mulheres malaias, muito peixe fácil de pescar e nenhuma razão para voltar para o Terreiro do Paço.
A aldeia esta condenada, mas ninguém parece agitar-se por causa disso, o dinheiro de Singapura tem grandes planos para aquele terreno, uma marina, um edifício de luxo, cada família vai receber uma bela soma e vai partir. Faltam apenas 10 anos para que a data definida pelos ingleses para cedência do terreno. Falta pouco mais de um mês para que tenhamos que voltar para casa. Também nos não vamos lutar.
Em aparência.

Quando chegamos de noite à Guest house, ou ao que resta dela, encontramos Elisabeth a jogar à Pacience. A sanguessuga que existe em mim acorda. Em troca de respostas sobre o nosso dia, puxo pelo fio do passado. Sete anos viveu na Índia, ensinou inglês na Indonésia e viajou, viajou, viajou. Elisabeth de York tem 81 anos e viu mundos que agora ja não existem. Começou a correr mundo com vinte numa viagem à terra santa, quando ensinava inglês a crianças da aristocracia espanhola. Depois a vida foi acontecendo e hoje tem historias para contar durante muitos Invernos ingleses. Volta a York no final do mês - ja avisou o amigo - para ver amigos e familiares, mas não vai ficar. Não tem razões para ficar. Uma vez na Índia uma senhora que sabia mais do que os comuns mortais, disse-lhe que tinha rodas em vez de pernas e que ia morrer a dormir, que não se preocupasse. A partir dai, Elisabeth continuou a viver como sempre quis, mas com um bom pijama. Perguntam-lhe muitas vezes se viaja sozinha, com aquela idade. Responde que não, viaja com a sua bagagem. Temos que ter cuidado com os outros, podem envelhecer-nos mesmo sem ser por mal and we don't want this, do we ? Espero que continue por muitos e bons anos a fazer o que muito bem lhe apetece, Elisabeth.
Que os nossos caminhos se voltem a cruzar, longe do que muitos insistem em chamar de casa.

No final do ultimo dia em Malacca, passeamos no centro da cidade. Numa mesma rua, a rua da harmonia, encontramos, um templo budista chinês - Sanduo, um templo hindu dedicado a Vinayagar, uma mesquita e alguns altares para os deuses de lojas ou casas. Estamos no meio do Ramadão e o sol parece que se apaga, neste fim de tarde. Contemplo Shiva e Ganesha enquanto ouço o apelo à oração em arabe, duas chinesas passam por mim a discutir com caixas de incenso nas mãos. Malacca pode não ser o centro mundo como o conhecemos, mas ainda se encontra no meio de um equilibrio fundamental. 

4 comentários:

  1. Essa ideia dos outros nos envelhecerem é mesmo muito interessante...
    O lado que gosta de raízes que há mim não consegue deixar de pensar que é maravilhoso viver como nos apetece, sobretudo quando podemos regressar para rever amigos e familiares.
    (Só não percebi aquilo das piadas da supremacia do Norte :p)

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    1. Fiquei a pensar nas pessoas de 80 anos que conheço e como são tratadas, mesmo quando existe amor, de todas as ajudas que começam a ser impostas, dos comentarios que ouvem, dos conselhos que os filhos (e os netos) e os vizinhos e a senhora da farmacia e ... Enfim, o efeito pigmaleão.
      Também gosto de raizes, especialmente quando são suficientemente grandes para viajarem connosco, seja de que maneira for.
      (Depois explico-te tudo com origamis).

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  2. "temos que viajar", escrevi à minha mãe, depois de ler este relato.
    Tenho saudades disto, do que conhecemos do desconhecido. Das pessoas inesperadas, novas na nossa vida. De vidas que nos fazem sentir vivos.

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