29.7.15

De um lugar onde não nascem as coisas

A praia é, e deve para sempre ficar, um lugar estéril. Que a sociedade moderna se dirija ao litoral para passar férias, é um sinal evidente que é a busca da não-produtividade que o ser humano visa, quando lhe dão liberdade. Vivemos numa sociedade anti-natura. E a perpetuamos.
Posto isto, que não se espere grande coisa das linhas que seguem. Fica o aviso. 

Estava ainda às voltas em planos e vontades, na minha sala com vista diagonal para o bosque de Saint-Cloud, nos subúrbios de Paris - perto de onde nasceram os meus filhos e onde, com alguma histeria e falta de controlo, me senti morrer – quando as ilhas Perhentians na Malásia se começaram a impor como uma evidência. Descrições de ovos de tartaruga a estalar e pouca precisão sobre datas e factos, páginas de literatura sem forma, mas com conteúdo suficiente para me levarem até aqui, hoje : um quarto sem sofá, mas com ar condicionado, à frente de um mar transparente. Ar condicionado à hora da sesta. É mais fácil falar de falta de conforto do que a viver, como todos podemos calcular, mesmo à frente de um écran de computador.

Na ilha grande das Perhentians acordamos mais cedo do que queremos. Por volta das 6 horas, macacos com cara quase humana sobem às árvores que dão para o telhado do nosso bungallow e deixam cair os caroços dos frutos que calham comer. Um estardalhaço. Ao princípio, pensámos irritados que seria alguém sem sentido de oportunidade que começara a fazer obras. Não queremos saber de renovação e modernidade assim que acordamos. Ninguém quer. Primeiro o café.
Depois percebemos que não era a culpa de alguém da nossa espécie e passámos a ser acordados bem dispostos. Menos do que às cinco, quando a mesquita da ilha pequena lembra a quem faz o jejum do ramadão que o sol está quase a aparecer. Como se houvesse uma ordem para a tolerância do despertar matinal : o instinto do macaco, a religião dos outros, a ordem e o progresso. Pouco tem a ganhar o hino do Brasil, antes do suco de mamão do pequeno almoço.

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Nadamos até à plataforma de onde se podem ver as tartarugas e esperamos ver uma a vir à tona de   água para respirar. Invariavelmente é a minha filha que as vê primeiro. A minha filha que se distrai tantas vezes quando lhe falo de gramática. Mergulhamos e ficamos à superficie a ver as tartarugas pastar no fundo do mar. Parecem momentos eternos, até que um barco cheio de mergulhadores nos vê e se aproxima. Câmaras impermáveis, excitação, lembranças, indicações de zoom, posterioridade. Todos com tanta pressa.
Fugimos, com maior sucesso que a tartaruga.

Não sou a pessoa mais insensível à face da terra, pelo que não é com surpresa que me sinto emocionar para além do razoável, quando estou debaixo daquela água, a olhar para uma tartaruga e vejo um dos meus filhos passar a nadar a fazer-me sinais para me indicar que viu outra tartaruga mais à frente. Todas as mães deviam ter uma parte do mar exclusiva, para elas, para os seus filhos e para as tartarugas.
Maldigo os grupos de mergulhadores, mais do que os grupos de estagiários que podem irromper numa sala de partos. Existem momentos sagrados, mais inesperados do que outros.

Pelas ondas da internet um amigo que anda a viajar mais à frente, diz-nos que devemos partir. Pulau Kapas é melhor. Seguro. O paraíso fica sempre mais além, já sabemos. Mas a curiosidade não nos deixa descansar. Não somos cool.
Speedboat. Autocarro. Apelo à oração de uma mesquita. Speedboat. Pulau Kapas. Selva. Mar. Coral. Peixes. Aqui. Agora.
Os meus filhos fazem amigos rapidamente no primeiro dia de praia e eu tenho que admitir que também. Todos precisamos de outros. Conhecemos uma família que acaba esta semana a sua viagem de um ano, a mãe está particularmente abatida. Sinto uma empatia maior do que é confessável.
Não se pode parar o tempo, não se pode parar o tempo.
Quero saber como é, mais do que quis quando encontrámos, semanas antes em Kuala Lumpur, uma outra família que estava a começar o seu ano sabático. Não sei se continuarei a seguir a sua aventura, quando a minha acabar.
Não sei porque me lê, quem ficou em casa. Não quero ler. Nem sequer sei se quero escrever. A vida não está aqui nos textos. Não está, não esta.

Outra família que encontramos no mar, prepara-se para mudar de vida, depois de viajar decidiram ir viver para a Nova Zelândia. Não são motivos financeiros que os chamam é o desconhecido é outra cultura. Sem exageros é outra vida. E outras vidas, eu quero conhecer. Este assunto sinto-o como um futuro. Deste assunto, quero aproximar-me. Falamos até tarde na noite em portuñol. São espanhois e italianos. O assunto que ainda não se viveu, não se esgota nunca.

...

Debaixo de árvores, julgando-nos longe dos lagartos gigantes, falamos do que vamos fazer depois, todos queremos mais, todos sentimos as vidas a correr, todos sabemos o que temos a fazer. Alguma coisa. Nova Zelândia para uns. Novos anos sabáticos para outros. Tudo para mim.
Alguém grita na água, um cardume de peixes-napoleão passa do outro lado da barreira de corais. Começamos a correr em direcção ao mar e nadamos o mais depressa que conseguimos.
O espectáculo é magnífico. Na verdade, às vezes, o tempo pára.
Não acreditem sempre nos relógios, são apenas máquinas.
Olho para os peixes e olho para estes homens e mulheres e sinto uma energia vital. Claro que não sei explicar e claro que pareço ridícula a tentar fazê-lo. A energia vital de quem tem esta urgência calma. De quem sofre. De quem vive. De quem sabe que não pode parar o tempo como e quando gostávamos de escolher. De quem vai tentar mesmo assim.

Entretanto, viemos embora, alguém nos disse que Kapas não era nada, comparado com as ilhas Gilli na Indonésia. Entramos ontem no último país do nosso ano. Aterramos em Lombock, negociamos um preço para nos levarem directamente ao porto. Entramos num barco de transporte público demasiado cheio, tentamos não partir os ovos, não acordar quem aproveita para descansar, não nos preocuparmos com a água que entra no barco. Os meus filhos refazem sistematicamente o cálculo para saber em que direcção devem nadar, no caso de naufrágio. Lombock ou Gilli. Chegamos de tarde. A maré está vazia, não se pode nadar nos corais, temos que esperar pelo dia a seguir. Promessas de fundos marinhos tiram-nos a vontade de comer peixe. Os meus filhos ficam a olhar as estrelas do mar e uma menina fala-lhes de um templo debaixo de água que existe em Bali. Não sabemos se depois, devemos ir para oeste em direcção, a Bali de que todos nos falam bem ou mal, em direcção aos vulcões em Java ou se devemos ir para Flores e depois continuar mais a Este, para que a Calita nos leve a beber cerveja em Dili.
Amanhã vai haver alguma ondulação por causa da lua cheia. Gostava de saber que astro se vai ocupar de mim no ano que vem. Hoje, por exemplo, sinto-me cansada, mas isso não é importante porque não vai mudar nada. O Stéphane também acredita que alguma coisa ainda é possivel e, por ora, basta-me. Continuamos, havemos de parar o tempo mais à frente.

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