2.5.14

Meu estranho mês de Abril. Uma introdução

Não sei o que procuram os emigrantes quando regressam à terra, uma e outra e outra e outra vez.
Não sei o que procuro eu.
Se quer.

Mais de uma década desta condição, e procuro alguma coisa - isso é certo. Agora, só não sei, é o quê.
No primeiro ano, procurava estranhamente o mar. O mar, o mar. O mar ? E procurava, em vão - claro, em vão, sempre em vão - que o Sena me valesse. Subia ao Sacré Coeur para tentar uma ilusão marítima com os telhados cinzentos todos desalinhados. Chegava a sentir calores próprios de uma menopausa precoce, definitivamente mal diagnosticada.
Entre o segundo e o terceiro ano, encontrava feliz os meus amigos de sempre - uns mais efémeros que outros, verdade seja dita - e o cada vez mais eterno cais do Ginjal, com aquela vista sobre Lisboa, o rio podre, as paredes a cair. Não mexam em nada. Ao quinto, encontrava a minha mãe, o meu irmão, o meu pai, a minha irmã, e uns poucos amigos que, afinal, me ainda vão valendo. Teimosias. Isto e um ou dois gatos. Ia encontrando também, com alguma felicidade não escondida, os camarões importados tão directamente quanto possível, de Moçambique, grelhados ou assados. Mas sempre com molho de cerveja. Depois o ex-namorado, reciclado no melhor amigo, porque chegamos, às vezes e apenas quando calha, àquela fase da vida em que, abrindo os olhos, tudo pode ser possível. Ou pelo menos, muita coisa. Ou alguma. Ou um bocadinhozinho assim.
Isto prova que até sou pela mudança, que sou gente com boa vontade para estas coisas. Mas depois exageram. Vão longe demais. Adapta-te outra vez, e a mais isto também, olha e agora, ainda te consegues adaptar ? 
Uma pessoa oferece o braço, querem logo o corpo todo para estudo nas faculdades de medicina. Ora, eu sei o que é que aqueles gandulos, mal saidos da puberdade, fazem com as partes decompostas destinadas para "estudo". Uma galhofa. Não estou para isto. Toda a gente tem os seus limites. Quem não sente não é filho de boa gente. E os mortos estão aqui metidos, quer queiram, quer não.

E depois, ao longo dos anos, restaram-me os sítios onde fui feliz. Assim, em geral. Vale quase tudo. Uma romaria pós-nostálgica, que também ninguém é de ferro. Os pasteis de Belém daquela fabrica, os de bacalhau da vizinha, os de massa tenra da avenida. O meu estômago é grande e não é esquisito.

E depois, claro, tinha que ser, fui feliz no King. Azar. Fui feliz no Mamma Rosa no Bairro Alto. Temos pena. No Fragil. Fui la bater e nem sequer me abriram a porta. Até fui feliz na rua dos meus pais. Coitada de mim, agora transformada num parque de estacionamento. Adeus sirumbas, adeus aprender a andar de bicicleta na bicla dos amigos.
Fui feliz em muitos sítios que agora teimam em fechar ou a modificar. A estragar.
Os modernos e a crise.
E depois vêm-nos dizer para emigrar.
Pelas costas, vão-nos tirando o que nos resta. Ao chegar encontramos cada vez menos o que procuramos. Mesmo não sabendo o que queremos encontrar. Mas nada invalida nada. Posso protestar, tenho muita razão para isso.

Felizmente vamos encontrando o que não sabíamos existir.
Novos amigos, novos bares para começar a noite, novos cinemas antigos ainda por explorar. Com sorte novas avozinhas, la chegaremos.

Por exemplo. Quase nunca tinha ido ao Nimas. Não tem sessões de meia noite, não tem muita escolha, não tem muitos recantos, o barzinho é o que é. Mas as sessões possíveis, são as sessões possíveis. E a escolha é o melhor que se pode arranjar. Os tempos estão dificeis e os jovens agora gostam de outras coisas. Não me queixo até porque ali atrás ainda não fechou o Galetto . Livrem-se. Coloquei um link que sei que pessoas do Porto passam por aqui e temos que ser uns para os outros. Claro que não se come bem no Galetto, mas agora todos os sítios têm que ser gourmet ? E o outro tipo no tripadvisor a dizer que a decoração é a rever. Depois não querem que me irrite. Os modernos : outra crise.
Bom, foi no Galetto, à espera da hora do único oscarizavel que me interessava, que tudo podia ter começado. Já vos conto.
A culpa é toda minha, mas as explicações ficam para depois. Iniciei-me hoje nos teasers : é terem paciência.

Continua assim que possível, ou que recomece a chover.

29 comentários:

  1. o Nimas é fixe, não dizer mal do Nimas, p.f. :D
    (olá, tenho 35 anos, vivo em Lisboa, e assino a primeira linha do "Manifesto par que não fechem também o Nimas")

    Essse que disse mal da decoração do Galetto, é um idiota claro :)
    a decoração é a única coisa de jeito do Galetto!! minto, a canja de galinha também é boa, pelo menos é boa à uma da manhã - sim, porque o Galetto continua a ser dos poucos sítios nessa zona, senão o único, onde se pode comer comida a sério (i.e. quente e confeccionada) a meio da noite. E é isso que também lhe dá o ambiente diferente: a fauna humana que por lá se encontra de noite, mesmo que não vamos comer, é giro de ficar a observar.

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    1. O Nimas, neste momento, é o unico cinema (aberto) em Lisboa em que me apetece entrar. Se tiveres mais pistas, passa-as para aqui. Plize.

      Um idiota, malcriado.
      O Galetto é isso tudo, as horas, a decoração, o estrem-se nas tintas para a Time Out. Gosto muito. Por isso, é que ainda não percebi porque é que ainda não se lembraram de o fechar.

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    2. dizem que vai abrir um "novo" velho cinema de bairro : no Bairro. na calçada do combro, o antigo Cine paraíso vai ser cinema familiar. Mas tinham anunciado que ia abrir nesta Primavera e até agora nada.

      Essa das tintas para a Time Out é muito bem observada. É que é mesmo isso, e olha que eu leio a Time Out amiúde e realmente não me lembro de alguma vez terem falado no galetto. Acho que já falaram uma vez da versailles, e se calhar foi por isso que esta esteve em obras - ainda não entrei lá dentro desde as obras, se calhar o meu subconsciente está a avisar-me.

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    3. Existe a crise a fechar as portas. E a Time Out, com os modernos todos a escancara-las (e estraga-las). Não sei do que é que tenho mais receio.

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    4. sinceramente ainda não percebi certos fenómenos de estabelecimentos que abrem nesta altura de crise. Ainda no outro dia dei de caras com um, em Santa Cruz, ou melhor perto da praia de Santa Cruz ao pé do (já vintage!) hotel golf mar, que era 200 euros por noite em época baixa (desconfio que nem o VilaJoia no algarve faz esses preços), com uma decoração atroz género "capa do ikea inspiração do às nove no meu blog", que poderia ser gira se não fosse excessiva, e com uma porta directa para uma praia mais ou menos privativa. Tenho família naquela zona que conhecem os donos e o historial daquilo que me disseram que a construção (era uma antiga quinta) foi milionária.

      Olha, é este:
      http://www.areiasdoseixo.com/hotel-overview.html

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    5. pois... não sei, só lá vi um casal jovem de holandeses, e um casal de meia idade de portugueses com ar de novos-ricos. (tudo conclusões inventadas de mera observação das únicas pessoas que lá vi).
      olha, pode ser que tenham os melhores clientes nos emigrantes que cá vêm passar as férias ;P

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    6. Os emigrantes deviam ser tratados nas palminhas, essa é que era essa !
      Isso, ou pelos menos, eu.

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    7. concordo em absoluto! porque tal e qual os intelectuais do Eça, são eles que trazem a esta país as novidades fresquinhas do que de melhor há lá fora :)

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  2. Deixa lá, aqui roubam-nos as coisas mesmo nas nossas barbas. E não nos podemos queixar porque dizem que é a retoma a querer acontecer, ou lá o que é.
    O Galeto não vale grande coisa mas nas traseiras, na Defensores de Chaves, tens uma padaria que faz os melhores biscoitos de manteiga que o Homem Jamais Cozeu no Forno, para molhar no café.

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    1. olha, então afinal portugal também já é um pais civilizado como aí, porque também nos andam a roubar nas nossas barbas: o londres vai ser loja de chineses (nada contra os chineses, mas prefiro um cinema, obrigada); o king como também disseste, também. O quarteto já fechou há décadas e agora é uma cena da IURD salvo erro.

      Isso dos biscoitos na defensores de chaves é caso sério: tenho de ir investigar !

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    2. Também fechou o quê ? Os tais biscoitos ? Eu a preparar uma novidade velha para o meu mês de Julho e fazem-me isto ?

      Gralha, livra-te de dizeres mal do Galetto no meu blogue. Claro que aquilo não vale grande coisa. Mas eu gosto. E gosto e gosto. Fica sabendo que é o unico sitio no mundo inteiro em que suporto a televisão. Tem que ter qualquer coisa. Um je ne sais pas quoi.

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    3. o que fechou foi o King , desculpa, confundi o comentário da Gralha com o texto da autora do blogue, as minhas sinceras desculpas

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    4. Ai que agora ja sou uma "autora" !! :D

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    5. uma senhora autora, fáxavor :)
      Contam-se pelos dedos os blogs que mantenho no meu feed do blogger e este é daqueles que se me alegram os olhos quando é actualizado :D

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    6. dica do melhor arroz doce (para além do meu, feito com receita da minha prima de foz-côa): no Paúl, também nessa zona oeste, e fazem uma festa do arroz doce e tudo.

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  3. Pronto, vou para o meu fim de semana mais recompostazinha. E eu a pensar que isto so la ia com arroz doce.

    (e passar às escondidas essa receita da prima do Foz Côa ?)

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    1. não tem ciência nenhuma:
      uma chávena almoçadeira de arroz carolino (não sei se em frança há);
      fazer o arroz do mesmo modo que se faz arroz branco carolino: com o dobro da água e com uma pitada de sal. Coze durante dez minutos e desliga-se o fogão e tapa-se para abrir o arroz. Entretanto abrem-se dois pacotes de leito gordo (tem de ser gordo), e liga-se de novo o fogão no mínimo e vai-se deitando o leite aos poucos e mexendo sempre, como no caldeirão da bruxa. Vai sobrar meio pacote de leite, porque é só 1,5 litros por cada chávena almoçadeira de arroz.
      Depois deesgotar todo o leite, deverá ficar cremoso e só no fim é que se deita o açúcar, porque se não pára a cozedura do arroz. A quantidade de açúcar é conforme o gosto e a saúde de cada um: não menos de 1/3 chávena almoçadeira, mas pode ser até 1 chávena. Mexer para misturar o açúcar. Depois se se quiser arroz doce amarelo, juntar uma gema e mexer rápido. Se não gostam de arroz com ovo, é deixar assim.
      Depois deitar numa travessa e fazer desenhos com a canela: em janelas (fazer riscas em diagonal na superfície e depois pintinhas em cada um dos losangos que fica).
      ou então, pôr em tacinhas individuais e desenhar a letra do nome das pessoa que o vão comer :D

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    2. ah, espera, esqueci-me que tem de se deitar manteiga também no fim da cozedura - depois do açúcar. Quantidade também conforme se gostar, mas no mínimo diria uma colher de sopa de manteiga.

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    3. no fundo, o truque é ir deitando o leite aos poucos e ficar sempre a mexer. Eu demoro pelo menos uma hora ao fogão e no fim ele fica mesmo macio e cremoso. Eu não gosto muito de arroz doce, mas namorado é completamente fanático e passo sempre no teste dele de paladar. :D

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    4. Vou comparar com a da minha avo. Obrigada. Adoro arroz doce.

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    5. ah afinal também havia desse lado uma receita de família... está bem...depois da comparação, se quiseres, avisa se achares que a minha tem pontos a melhorar, hein? ;)

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  4. Gostei muito deste e fico à espera da continuação. bj

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  5. Fico meio desconsolada quando volto a Lisboa e os meus amigos me querem levar aos sitios novos e trendy. A unica coisa que quero ir ao cafe de bairro, ao restaurante de todas as horas e ao cinema que gostava de ir (sou uma adepta do cinema de Carcavelos.) Sera que ficamos congelados no tempo? Seremos sempre Portugueses do ano e da decada em que o deixamos? :) Agora estou com saudades do Galleto, da Versailles e dos Croissants da Milu na Elias Garcia.

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    1. Eu quando chego a Lisboa quero tudo. A novidade, o velho, o assim assim. E agora, fiquei também a querer os croissants da Elias Garcia. O cinema de Carcavelos é o tal das cortinas ? Tenho que verificar isso de perto no Verão.

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  6. e as ferraduras da Namur? É ir apanhar uma exposiçãozita à culturgest (eu sei, a culturgest talvez não seja suficientemente antiga para fazer parte dos sítios saudosos, mas....) e lanchar na Namur e tem-se uma tarde bem passada.

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    1. Entra a ferradura da Namur directamente para a lista de desejos do Verão de 14.

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