19.11.12

Pensar, nem sempre é uma má ideia


No século passado, precisamente em Abril de 1992, vim pela primeira vez a Paris. Uma excursão, cheia de hormonas e esperanças, saíu de uma escola secundária dos subúrbios da margem sul e atravessou Portugal, Espanha e uma boa parte de França, num autocarro, ao som de Doors e Nirvana. E com um cheiro que não interessa nada para esta história, em particular.
Pensava eu, do alto, ou do baixo, dos meus dezassete anos, que nunca mais aqui metia os pés, pelo que tinha que viver tudo o que havia a viver durante os 9 dias que tinha à minha disposição. Tudo. Este pensamento acompanhou-me, aliás, durante vários anos. Cada dia que começava seria, muito provavelmente, o único que teria naquelas precisas condições, pelo que me devia, a mim, usá-lo da melhor e mais intensa forma que me ocorresse. Dito doutra forma, parece algo que se ouve nos anúncios de refrigerantes com bastante aspartame, e chega a fazer-nos adivinhar uma boa ideia, assim, filmado a contraluz, num final de dia de Verão. Nem sempre é o caso, mas é-o suficientes vezes.
Tínhamos tido aulas de cultura francesa, e uma vez largados na cidade luz, estávamos por nossa conta. Nada de professores a vigiar ou a organizar os nossos dias.
Encontrávamo-nos, portanto, no paraíso.
Fui apenas a dois museus - que me lembre - o de Orsay, unicamente para ver os impressionistas e os expressionistas, e o Rodin, porque tinha-nos sido apresentado por um professor com os olhos a brilhar, por quem estávamos todas, e todos, apaixonados. O museu do Louvre, por exemplo, não me interessava para nada, com todas aquelas obras roubadas aos gregos e aos egípcios. Era uma adolescente de princípios ! Felizmente, esta mania passou-me com o tempo.
Voltei várias vezes ao mármore e ao bronze de Rodin, mas com a segunda gravidez, deixei-me destas aventuras cardíacas do não toques ai! Não desças a escada a correr! Quando a professora do meu filho mais novo - o que pensa que os museus são estádios olímpicos - perguntou se alguém queria acompanhar a classe, ao museu Rodin, precipitei-me sem pensar duas vezes. E assim, larguei todas as tarefas fascinantes e vitais para a humanidade a que me tenho dedicado neste último ano : lavar o chão da casa de banho, arrumar os brinquedos que estão espalhados no caminho entre o meu quarto e a cozinha e decidir o que escrever no blogue. Apesar de tudo foi uma decisão tomada de ânimo leve.
Não encontrei os mesmos sentimentos que me habitavam quando visitava antes este museu. Infelizmente, mas tudo bem. Ah, os filhos mudam tudo. Mas não deixou de ser tocante vê-los a correr no jardim, excitados, quando reconheceram o Pensador ou a Porta do Inferno. Ou quando vi os esforços da professora a contar, pela quinta vez, a história dos burgueses de Calais, perante o interesse súbito do meu filho pelas folhas das árvores ou as pedrinhas no chão.
...
Um pensamento ficou, no entanto, retido, para profunda análise posterior, um pensamento recorrente, que, no entanto, é esquecido e abandonado quizenalmente : quando é que os meus dias perderam a sua importância por si só. Todos. Quando é que passei a ter a certeza que não estava a viver o último dia. Quando é que comecei a pensar que era imortal.
Ah, porque hoje também conta.


19 comentários:

  1. Respostas
    1. Uma boa parte da humanidade anda a ansiar a imortalidade, e no entanto, é muito provavelmente, a par com as drogas duras, uma das piores coisas que nos pode acontecer.
      E nem sequer tenho a certeza quanto ao lugar no ranking, no que se refere às drogas duras.

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  2. Duas coisas perturbadoras: 1) Estivemos em Paris pela primeira vez na MESMA altura: Abril de 92. Também eu numa excursão da escola. 2) Aí em Paris levam miúdos de 4 anos a museus?

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  3. Se ficaste a dormir na cité universitaire, temos que fazer um blind post sobre este assunto. Ou se calhar, apenas o facto de termos estado em Paris pela primeira vez na mesm altura, já justifica medidas igualmente drásticas. Não acredito em coincidências, não acredito.
    Pela escola, costumam começar aos 3 anos, quando começam a pré-primária, fazem pelo menos uma ou duas excursões a museus por ano lectivo, é muito interessante, a professora fala de umas 5 obras durante uma semana e depois eles ficam felizes da vida por as reconhecerem no museu. Acredita, a reacção quando viram o "Pensador", não foi muito diferente de quando veem o castelo da bela adormecida na Eurodisney.

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    1. **ADENDA** : Uma amiga minha que foi a Paris comigo, lembra que também fomos ao Pompidou. Fica assim reposta a verdade.

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  4. "Apesar de tudo foi uma decisão tomada de ânimo leve." - nada como começar o dia a rir!
    Sobre os dias únicos e vividos intensamente, só tenho uma coisa a dizer: ainda bem que um dia não se esgota em si, porque às vezes o tempo não chega para ir à H&M e então vai-se no dia seguinte... ;-)

    O que contaste sobre o trabalho dos educadores de infância lembra-me um bocadinho o que nos aconteceu em Washington d.c.: passámos lá uma semana, e a primeira coisa que fizemos foi ver o filme Night at the Museum filmado lá. Depois, era ver os miúdos a correr à minha frente para entrar nos museus, a ver se encontravam as peças que tinham visto no filme.

    Em Abril de 1992 estava eu a casar. Portanto: não me encontrei convosco em Paris. Mais uma achega para o tema "ainda bem que depois dos dias vêm mais dias". Mas antes disso estive numa das exposições que mais me tocaram: Rodin e Claudel. Por acaso ainda lá estava, e vocês viram?


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    1. Não, Helena, nada disso. A minha viagem foi pouco cultural, mas deu para me apaixonar por Paris. E tens toda a razão, "ainda bem que depois dos dias vêm mais dias".

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    2. Tens razão, tens toda a razão, Helena, esta convenção das horas e dos dias, que coisa... Mas, e permite-me que a minha parte angustiado-ansiosa se manifeste, todos os segundos deviam ser vividos intensamente. Ando um bocado zangada comigo, com o tempo que ando a deixar passar ao desbarato. Apenas eu sei o que me transtorna o que eu mesma ando a não fazer aos meus segundos. Tenho que mudar, tenho mesmo que mudar, ou então dar valor ao que ainda não sei dar.

      Quanto aos professores e aos miúdos, tenho a certeza que tudo pode ser interessante para as crianças, mesmo as de tenra idade, dependendo de como lhes contamos as histórias, do suspense, da liberdade que lhes concedermos e, claro, do tempo que passamos dentro de um museu. Neste dia do Rodin, por exemplo, foi meia hora nos jardins e meia hora dentro do museu. A seguir a professora largou as feras e foi vê-los correr e rir. E a cair e chorar.

      Não digas nada ao Auguste, mas prefiro a Camille Claudel, muitos mais detalhes, mais doçura, mais mestria. Ah, as mulheres ! ;)

      E juro, juro que da próxima vez vamos à H&M, dê por onde der, doa a quem doer (a mim).

      Abril de 1992 foi muito, muito especial estou a ver. Será algo cósmico ? Agora, apenas por questões de estatistica, onde estavam vocês em Agosto/Setembro do ano de 2002 ? A ver se estabeleço um padrão...

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  5. Eu também estive pela primeira vez em Paris em 1992! Pronto, estou a mentir, foi em Agosto de 1994. Mas em 1992 já devia gostar de croissants e de pontes velhinhas, seguramente.

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    1. Uma coisa de cada vez, não queiras tudo. Tu és, alias, uma das razões que me faz questionar o posicionamento planetario do Verão de 2002.

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  6. Em Agosto de 2002 fui ao festival do Sudoeste com um grupo de amigos. A Beatriz tinha pouco mais de um ano e ficou com o avós paternos. E eu não me lembro dos sentimentos dessa primeira separação, acreditas? Só me lembro de ter adorado aquela sensação de liberdade total e de ao mesmo tempo a achar estranha.
    Em Setembro comecei a trabalhar num Museu, o primeiro emprego depois dela nascer e uma coisa inteiramente nova para mim.

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    1. Ah, a primeira sensação de liberdade !!! Assim de repente não sei qual foi a primeira, primeira, que coisa... lembro-me de muitas sensações de liberadade, mas não da primeira, e de nunca ter ficado preocupada com os meus filhos (foi sempre a minha mãe que ficou com eles, e se estão com ela, estão bem de certeza).
      Qual museu ? qual museu ?

      Em Agosto, Setembro de 2002 estava numa espécie de interrail compacto com uma amiga minha e em Praga, no meio de inundações e de estarmos a ser evacuados, conheci O francês e tudo começou.
      A gralha, que se ainda vier aqui não me deixa mentir, estava na mesma altura, exactamente no mesmo sitio que eu. Não é simplesmente maravilhoso ?

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    2. É mesmo :)

      O museu é este: http://www.amtc.pt/portal/alias__amtc/lang__pt-PT/tabID__544/FirstChild__-1/DesktopDefault.aspx

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  7. Visitei Paris pela primeira vez em 1999. E traz-me as melhores recordações, foi em lua-de-mel e foi uma viagem inesquecível.
    Apenas uma correcção: Eurodisney continua a ser, de facto, a designação da empresa detentora do parque, mas o parque propriamente dito chama-se Disneyland Paris. Como fã Disney custa-me esta troca (tão recorrente) :)

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    1. Por acaso hoje vi um video muito bonito sobre um casal americano que se casou em Paris, se a tua lua de mel foi aqui, pode ser engraçado ver :
      http://vimeo.com/42103449

      Tens razão, e estou a ser particularmente ingrata, tendo em conta que acabei de receber dois passes anuais para os dois parques, por causa desta historia de fazerem 20 anos, são uns queridos, eu é que ja não sou muito fã, mas pelos filhos, faz-se tudo. A ver se não me esqueço de levar aqueles protectores nos ouvidos, como é que se chamam em português ? Não aguento aquela musiquinha todo o santo dia. Nhã, nhã, nhã ...

      PS : Oh, anonimo, por favor baptiza-te ou vai ao civil, gosto tanto de pôr nomes às pessoas, é uma mania que eu tenho, não é por mal, e fica o contacto mais humano. Mesmo que te venhas a chamar de R2.

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  8. Foi sem querer! Desculpe... a anónima sou eu :)

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  9. Passes anuais...buaaaaaaá... também quero!

    (fica ligeiramente fora de mão para mim, no entanto).

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    1. Oh... sempre quero ver quantas vezes vou aproveitar.

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