14.6.12

A pior ressaca



Não bebi uma gota de álcool e o meu corpo prepara-se hoje para a morte.
Ontem aconteceu uma festa-surpresa-que-toda-a-gente-sabia-o-que-era-e-ao-que-vinha. Eu era a única com mais de 6 anos. Sociologicamente falando foi suficientemente interessante para constituir um post, pelo menos neste tipo de blogue*, assim como uma lição para o futuro. Nunca mais, em caso algum proferir "esta festa é para vocês, podem fazer o que quiserem !". Em francês a desgraça ainda é maior "on est lá pour se faire plaisir ! Allez ! Que la fête commence!"
Braços abertos, olhos extasiados, gritos, serpentinas, dito com estes pontos de exclamação todos e o camandro.
Em cinco minutos Beirut acontecia na minha sala. A destruição pode vir de asas multicolores, máscaras de porquinha rosa de peluche e tutus amarelos da gala de ballet do ano passado. E muitos gritos. Muitos e por todo o lado.
Caneco.
Constato que os arrotos continuam irresistíveis. Um arroto, uma crise de riso, não falhou uma vez. Que ouvir esta música 76545648765 vezes não mata. Os guardanapos de papel depois de usados e cheios de chocolate ainda podem dar excelentes chapéus. Pode-se sempre mudar de roupa uma vez mais e os folhos são sempre poucos. O som nunca está suficientemente alto. As serpentinas nunca são demais e uma vez no chão servem de piscina e pode-se nadar lá dentro. As vezes há tubarões que se fazem de convidados.
E gritos. Muitos e por todo o lado.

Hoje quando vinha da escola dos meus filhos, nos propósitos do costume mas em versão upgrade, descabelada, olheiras, que estava com uma dor de cabeça tal que não consegui dormir, olhos fixos no chão, barriga não encolhida, calças pretas com nódoas de três cores de creme de cupcake versão caseira, nuvens negras no céu e todo o espalhafato da sarjeta num filme de hollywood, eis que ouço uma voz vinda do alto.
Uma voz.
Um assobio e depois um piropo.
Eram os homens das obras que andam a pintar o prédio do lado de beje bébé e decidiram meter-se comigo. Eu que aos 17 anos lhes chamava nomes e me indignava com estes modos, estive por um triz para ir lá a cima lhes dar beijinhos.
Assobios. Para mim. Hoje.
Não o fiz tão somente porque sou de reacção lenta e entretanto fui à minha vida**. Mas estou tentada a levar-lhes um pratinho com uns bolinhos que sobraram da véspera.
Estes homens das obras dos nossos dias...
Uns fofos.

Je ne sais, ne sais, ne sais pas pourquoi
on s'aime comme ça, la seine et moi


Vá, agora 6754867 vezes !

*O que raio quer isto dizer ? Que tipo de raça de blogue é o meu ?
** Momento de dúvida existencial do costume que não se leva a sério há muito tempo de tão batido que é : o que é  a minha vida ? 

11 comentários:

  1. Ah ah, outra vez! A última vez que me aconteceu isso foi quando lhes dei o Giz para a mão e disse: podem pintar a parede à vontade. Enquanto aspirava o sofá e os rodapés pela 3ª vez, jurei para nunca mais.
    Quanto à música, acho que podiam ouvi-la 344055 de vezes ;)

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  2. "Em cinco minutos Beirut acontecia na minha sala."
    AMEI!

    adoro estes teus relatos apocalípticos!
    festinha de criança é o verdadeiro teste à nossa resistência psicológica.

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  3. Por falar nisso, quando é que é a Leonor faz anos ? Chinapá, as fotos que vão sair dali !

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  4. Já passei por isso, as festas passaram a ser coisa proibida cá em casa! Sem direito a temas de excepção.

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  5. Pois eu que ando aqui a fingir que não gostei, tenho que admitir que adoro desordem e loucura.

    Estou aqui a pensar se também posso fazer isto como os amiguinhos do meu filho (entre 3 e 4 anos) ou se arrisco-me a criar traumatismos em mim, neles, nos pais deles e/ou nos vizinhos.

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  6. ai que não sei se com um recém-nascido me aventuro a ter Beirut em casa :DDD

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  7. Um recém nascido por si só, consegue trazer suficientemente caos a uma casa.

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