11.3.11

Dêem-me 2 horas e eu transformo este post num anúncio de margarina

E vai ser essencialmente por causa do meu cabelo. Em 20 minutos encho a despensa de toda a tralha espalhada pelo chão, lavo os vidros, passo o aspirador. Excepcionalmente, passo a nossa roupa a ferro, queimo-a, e peço ao pai dos meus filhos para passar uma outra alternativa vestimentária. Mais experiência. Dou um jeito no cabelo do minúsculo, outro no do pai dele, escovo o cabelo da minúscula e lavo e deixo secar o meu ao ar livre (daí as tais duas horas). Em cima da mesa coloco a toalha para as visitas, a melhor loiça, corro à boulangerie, nem imaginam os croissants e o pain au chocolat que aquele padeiro sabe fazer, e as baguettes tradition e os macarrons, e depois é só filmar, assim, à bruta, sem textos, sem ensaios, sem luzes especiais. Juro que sai perfeito. Talvez humorístico, talvez um bocadinho caótico, mas vão ver como a margarina vai-se vender que nem pãezinhos quentes.
Queixo-me. Pois queixo. Imensidões de queixumes. Cardumes de posts com isto e com aquilo.
Mas no fundo sou uma fraude.
Tudo o que tenho e sou, tenho-o e sou-o porque assim bem entendi. Foi tudo escolha minha. O acaso e o azar não foram para aqui chamados.
Se vivo longe da familia, foi porque me apeteceu largar um emprego bem desenrascado, para seguir um instinto louco e digno de um Indiana Jones urbano, fi-lo porque estava apaixonada e quis viver um amor em Paris. Pareceu-me bem e fi-lo. Agora queixo-me que não estou ao pé de muitos dos meus, pois queixo. Um jeitaço ter aqui 5 babysitters gratuitas e outras companhias para o cineminha de sexta à noite. Mas quando quero mesmo, quando é mesmo muito forte, recorro a uma companhia de baixo custo e, sem medos da fraca manuntenção, em 2 horas estou na Portela.
Depois, quase do nada, decidi ser mãe. No primeiro mês que disse que era desta, foi. E da segunda, esperei 4 meses, ai o catano, que não estava assim no argumento.
E a seguir, como se não bastasse, que sim, que era boa ideia parar de trabalhar novamente para me dedicar às crias e a esta loucura que pode ser a aventura maternal. Certo, li na diagonal a parte das noites sem dormir e das birras, mas bolas, dizer que sou uma mãe capotada é das maiores mentiras que eu já disse em toda a minha vida. Ai, e disse já tantas !
O meu acidente foi orquestrado.
Tal como seria o anúncio da margarina.
Tal como é este blogue.
Sou uma mãe, que adora ser mãe e que gosta de estar em casa, por muito dolorosamente cor-de-rosinha que isso possa parecer. Que detesta não dormir. Sou uma mãe assim-assim, que quer ser melhor. Que quer ser muito mais. Que às vezes gostava de não ser apenas mãe e de estar a escrever outro tipo de linha no seu curriculum vitae. Um mãe quase igual ao que era antes de o ser, eternamente à procura de algo mais, às vezes a fugir, às vezes a encontrar. Mas bolas, acima de tudo uma mãe com uma sorte do caraças.
E agora vou a correr comprar o Euromilhões, que vocês depois de lerem isto vão também aplicar o filtro rosa n°75 e vão perceber que sorte têm vocês, que nem sequer nunca pensaram ser capotadas, e vai tudo desatar a jogar, mas quem vai ganhar sou eu ! Que tive a ideia primeiro.

22 comentários:

  1. Ouve: estás a gozar comigo, ou viste mesmo a luz?
    Gostei muito de ler este post.
    Tem lá tudo: a liberdade da escolha (a loucura também) e a alegria.

    Agora fico a torcer para que o mais novo te leve uma mantinha para não teres frio, e que a mais velha um dia destes diga peça o teu cachecol para lhe dar melhores sonhos.

    (vais ter de mudar o nome ao blogue) (talvez para: descarrilamento controlado) (hihihi)

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  2. Agora arrisco-me a ser escorraçada e atirada às feras por fazer um bocadinho de humor negro mas, sou assim, para tentar gozar com a vida quando ela teima em gozar connosco:

    "Bolas, isso é que foi um tsunami interior/interno!"

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  3. está mais com cara de big bang...
    ;-)

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  4. Olha, hoje não resisto a comentar-te, que adorei este post tão bem escrito e (percebi) tão verdadeiro. E que não sei se desde que privei o meu mundo lá continuas a ir ou não, por isso acusa-te. bisous

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  5. Admiro-te bastante, olha que muito pouca gente largava tudo para ir atrás de quem estava apaixonada e deixava o emprego para tomar conta dos filhos. Li uma vez que se estivermos indecisos entre duas opções num determinado assunto, seja qual for a opção que escolhamos vamos-nos arrepender. Eu acho que se seguirmos o nosso instinto sem medos conseguimos sempre tomar a decisão melhor. Parece-me que foi o que aconteceu contigo, parabéns! ;)

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  6. Anouska, curiosamente outro dia disseram-me exactamente o contrário: se estiver na dúvida (e estava: entre comprar um sotão para fazer um apartamento no centro ou um terreno para construir uma casa, menos central), depois de tomar uma decisão ela vai-se revelar a melhor.
    Pois é isso que estamos a sentir agora. Comprámos o terreno, nunca mais nos lembrámos do sotão.

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  7. Revejo-me em muitas das tuas palavras. Gostei de ler e gostei de me rever :o)
    Beijinhos

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  8. Mas que caralho (desculpa, nem sempre controlo este lado tripeiro, estás à vontade para censurar), agora lês pensamentos? Eu é que devia ter escrito isto!!Sempre a pensar nas coisas primeiro que os outros :), que mania!

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  9. Helena - Estou a gozar um bocadinho, mas não mais do que nos outros posts e não mais do que vocês. Todas podemos fazer este tipo de posts, assim como, os tais das queixas e das lamurias, todas de vez em quando, saimos da nossa vidinha e olhamos do lado de fora da janela e podemos dizer (ao menos em algumas fases da vida) - bolas, tenho mesmo uma grande vida, uma grande sorte. Acho que a tal consciência da sorte que temos, a tal mais sensata e permanente, deve vir mais la para a frente. No filme da coluna Epoca, era o personagem mais velho que dizia as coisas mais sensatas, não era? Por enquanto, vou vivendo, felizinha uma vezes, a queixar-me outras, mas na maior parte das vezes divirto-me muito com esta barafunda toda, ja é qualquer coisa, não ?

    Duchess - Eu compreendo o que dizes. A ti, mais o tua vontade de ires ao Japão... Vais ver que tudo se vai realizar, a tua vida descapota-se e terão, sempre, Tokyo.

    Sophis - Sim, é verdadeiro,ou ao menos é uma das facetas da verdade.

    Anouska - Eu vou sabendo que não ha muita gente a fazer este tipo de reviravoltas de cada vez que ouço "Enlouqueceste ??!!". Ja essa coisa de ter sido a decisão exacta ... como é que vou saber, na volta agora era Primeira Ministra de Portugal e no Eurovisão estaria uma canção chata, com violinos e harpas, que se chamaria "Como conseguimos passar à frente da Alemanha", ou qualquer coisa do género.

    Mara e Catarina - :)

    Calita - Ai o catano, mais a gente do Norte que, por causa deles, em Paris, a palavra portuguesa mais conhecida não é amor...
    Escreve na mesma, depois dizemos que é um movimento que nasceu - "Mães em casa flower power", ou coisa do género.

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  10. Não é amor? Então é o quê?
    Será "binho"?

    Se fossem da minha aldeia, a palavra mais conhecida era "comlicença". Pedem licença antes de dizerem palavras feias. Mas por acaso palavrões não são palavras feias.

    Eu explico (só para os maiores de 18 anos):
    - Fui ali abaixo buscar um carro de com licença estrume que tinha dos com licença porcos, mas o caralho do eixo partiu-se e o com licença estrume espalhou-se todo e eu fiquei fodido.

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  11. E a Felicidade é tudo isso!
    É sermos nós proprios, AUTENTICOS, VERDADEIROS.
    Por falar em felicidade,hoje criei Blogue. Estou contente porque significará um espaço de partilha de experiencias, pensamentos reflexões.
    Estão convidadas.
    Eduarda

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  12. ... isto é tudo tão diferente como se tivesses três orelhas, dois narizes e um penacho no cocuruto...; isto é tão bonito...
    Invejo-te...
    ...
    No outro dia, subia Stª Catarina e chovia e voltava para a casa com as cadelas à espera e a progenitora doente e as fotos do que foi e uns rabiscos sobre o que poderia ter sido pelas gavetas e pensei de repente: "na próxima vida quero ser mãe."
    Assim, de repente.
    (nunca disse isto a ninguém)

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  13. Helena - Não estarás a comlicença exagerar ? Onde é que fica o raio dessa aldeia (nortenha) ?

    Dadinha - Isto é parte da vida, com pequeninos momentos de felicidade aqui e ali, não é ?

    Margarida - Assim de repente, numa outra vida, gostava de não ter filhos, de agarrar numa pequena mochila e passar a vida de terra em terra a conhecer o mundo. No fundo, no fundo sou uma nómada reprimida... com certas dificuladades em acreditar em reencarnações.
    Dois narizes ? Tenho meio nariz, não tenho quase olfato...

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  14. Ouvi com estes que a terra coisital.
    Nem queria acreditar no que ouvia, para falar verdade. é mesmo assim: palavras como "porco", "estrume" e "cocó" exigem licença especial.
    As outras (não precisas de um desenho, pois não?) são usadas como pontuação.

    A aldeia fica entre Barcelos e Viana, e mais não digo.
    A minha avó tinha uma empregada que dizia um palavrão a cada três palavras. Era muito engraçado. Uma vez, para mostrar como o filho de ano e meio era "guicho", gritou-lhe "ai meu filho da puta se te apanho fodo-te os cornos" - e o miúdo desatou a correr naquelas perninhas gordas, e ria, e ela ria também "vê como o caralho do rapaz é fino? foda-se, que ele é fino como um alho!"

    (já não está aqui mais ninguém, pois não?)

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  15. LOL! estou, pois!
    ;)
    mas sou do Porto, 'conheço' este português de gingeira!
    LOL!
    ;)

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  16. Entre Barcelos e Viana... a ver se dou uma voltinha ao Norte este Verão. E antes que a coisa descambe (ainda mais) vou utilizar a técnica ancestral de desviar a atenção - Epa, o Hessel !!!!
    Grande Stéphane Hessel !! Aqui ele anda a marcar mentalidades, fico feliz por lhe teres dado tempo de antena - é tão refrescante ! Acho que é bem capaz de ter o discurso mais sexy dos ultimos tempos ! Ando a lê-lo aqui e ali, mas é definitivamente alguém que merece mais atenção.

    (E depois admiras-te que te bloque a entrada...)

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  17. hihihi

    Ó pra nós, a achar graça a um homem de quase 100 anos. Provavelmente estamos a ficar sábias.

    Agora, a sério: sábio é ele. Parece-me mesmo a voz da consciência do séc.XX - do ocidental, pelo menos. Houvesse mais meia dúzia como ele!
    (viste os vídeos do link no meu post?)

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  18. Sabes quem mais critica de forma negativa as mulheres que fazem este tipo de escolha? As outras Mulheres. Como se cada uma não tivesse o direito de viver a vida conforme quiser, com quem quiser, onde quiser e da maneira que quiser.
    Sempre disse que tenho perfil ideal para "Dondoca" (bem sei que não é isso que és, mas... tu percebes). Quem me dera poder mandar à fava todos os condicionalismos sociais que me "obrigam" a enviar os tais CVs e que me dizem que só sou Mulher, a sério e como deve ser, se for o mais parecida possível com um Homem... Quem me dera poder dizer: Vou largar tudo, vou ter filhos e vou criá-los até onde puder e o resto que se lixe porque nesta coisa da vida, o que interessa mesmo, mas mesmo-mesmo-mesmo, é o que nos vai no coração e na alma e não o que colocamos no tal CV para que todos vejam o quanto batalhamos para negar tais vontades.
    Admiro-te muito. Tanto nas opções, como na forma como as vives.
    Muito mesmo.

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  19. Helena - Encomendei o "Indignez-vous !" (2,5€? Sera que me enganei ?) Vou entrar na cabeça daquele homem, tu vais ver ! Vi alguns videos, não todos, vi o da faixa de Gaza, bem falado, mas de quem vem não podia ser doutra forma. Sera que é desta que encontro o meu guro ? Não percas as cenas dos proximos capitulos.

    Me - Bom, bom, não e caso para tanto. O meu percurso foi muito facil, sempre tive opção de escolha, ou, sim, podes dar um bocadinho de valor a este pontozinho aqui : Procurei a escolha. Bah, nem isso, às vezes procuro, outras vezes contento-me. Bah !

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