A curva
16.1.26
Sangria
8.1.26
Naperon
Detesto naperons.
Mesmo os que as minhas avós fizeram e tentaram fazer-me amar. Sobretudo esses, odeio-os. Cheiram-me a submissão feminina, ao ócio que lhes era permitido e imposto e que aprenderam a gostar. Vejo-os como um caso de síndroma de Estocolmo. Gostar de uma ocupação de tempos livres obrigatória.
O que mais se podia fazer com o tempo livre se se fosse mulher nos anos cinquenta? Bolos. Nunca tinha pensado nisso, a partir de agora também odeio bolos. Se forem daqueles mesmo bons, feitos com amor e bons ingredientes, pior. Casas arrumadas e cheirosas. Roupa passada a ferro. Penteados alinhados. A lista não é muito mais longa, felizmente, o que mais podiam fazer? Arranjos florais? Não os suporto.
Há num álbum de família uma foto da minha avó materna com uma daquela espingardas de caça, não sei o nome, mas não faz mal, também não sou uma IA. Matar animais inocentes. Prefiro.
Este tema foi escolhido no grupo Largo, em breve virei aqui colocar links do que vai sendo publicado.
3.1.26
2026
Nunca fiz resoluções na passagem do ano. Talvez há muitos anos em festas de garagem, onde os meus pais eram os reis da pista, com a música « meu amigo Charlie Brown » e as doze detestáveis passas em pé em cima de um banco em desequilíbrio. Tenho boas lembrancas desses tempos de criança, e não sei porque é que agora detesto esse tipo de música e esse tipo de passas. E também não sou fã de garagens. Talvez o que é do passado, deva ficar no passado. Temos que saber de onde vimos, mas gosto muito desta sensação de surpresa que há nesta maravilhosa experiência que é estar viva. Talvez por isso, acho chatas quase todas as tradições, todas as experiências que se repetem e supostamente nos confortam. O conforto é algo que considero muito sobre-estimado. Já vi sofás a custarem dez mil euros euros. Haja falta de amor ao dinheiro. Haja desprezo à aventura.
No ano mais feliz e cheio da minha vida tentei ter um blogue, chamava-se “anti sofá” e morreu ao segundo texto. Naquela altura a vida era boa demais para ser contada. Não se pode viver e contar ao mesmo tempo, talvez por isso os melhores livros são os que falam de tristeza e desespero. Alguém verdadeiramente feliz não quer saber do futuro, da posteridade, da literatura. Soam sempre a falso aqueles influenciadores felizes e perfeitos. Eu já fui feliz e perfeita e posso dizer que não podia estar a borrifar-me mais para o resto do mundo. A felicidade quando é plena, tende a ser egoista e privada.
Hoje a minha vida até é boa, mas não é perfeita, há surpresas, com poucas aventuras quotidianas realmente inéditas, sei sempre onde vou dormir e em que sofá me vou sentar. Talvez por isso, o grupo Largo é tão importante para mim. Para descobrir o extraordinário nas pequenas coisas.
Esquecer por uma vez, que o destino é sempre melhor do que o que desejei para mim. E que a melhor resolução é aceitar o que vem.
Resolução possível, ensaiada aqui; tentar este neste ano sem precedentes, ter a disciplina para escrever uma vez por semana, nada justifica passar ao lado deste projeto. Obrigada a quem escreve, obrigada a quem lê.
21.11.25
Bode expiatório
De cada vez que arranjamos uma desculpa para não conseguir fazer algo estamos a autosabotar-nos. Não posso ser uma artista relevante porque comecei muito tarde. Não posso dar novamente a volta ao mundo porque já não tenho forças. Não posso e a culpa não é minha. E a vida fica mais pequena. Há quem chame a isso conforto, sabedoria, amadurecimento. Mas na realidade é covardia, falta de imaginação, ânimo. É uma morte lenta.
14.11.25
Ainda estou aqui
Ainda estou aqui mesmo que não saiba para onde irei a seguir. Vim de uma história fantasiosa de um país mítico que nunca existiu e para onde nunca se poderá voltar. O Moçambique que me foi contado é mais inacessível que Narnia. Cresci a ouvir contar histórias de crianças pela boca de adultos que nunca cresceram, porque o caminho lhes foi interrompido por uma guerra que chegou de um lugar longínquo, de um lugar real. Cresci e continuei a fugir da realidade dos outros. Não me interessam visões curtas, práticas e eficazes, onde um unicórnio é uma start up que vale um bilião de euros. Muitos quilómetros de distância.
7.11.25
Fúrias
Fui furiosa durante um período de tempo, no início da minha vida adulta. O meu alvo preferido eram machistas, homens e mulheres, racistas essencialmente brancos e pessoas privilegiadas, quase sempre de direita que não entendiam as dificuldades de quem não tinha nascido com o traseiro virado para a lua. Pessoas que confundiam meritocracia com heranças de família. Fast and Furious.
24.10.25
Máscara
Adoro máscaras. A hipocrisia tem má e injusta reputação. O cimento da vida civilizada entre humanos são as mentiras brancas. Tenho saudades de quando não se dizia à boca cheia o que agora se grita e se vota. Ainda não há muito tempo estava convicta que estávamos a avançar enquanto humanidade. Acreditava piamente que a partir dali era sempre a subir. Tive filhos por pensei que o seu futuro seria cheio de portas abertas, felizes acontecimentos e muita luz. Pari porque achava que a vida deles ainda seria melhor que a minha, pela qual sou já bastante grata, de resto.
Lembro-me com carinho das tardes passadas a rir no escritório entre colegas que só com mentiras suportava e era tolerada.
Sonho com aquele dia de Verão em que ficámos na praia até tarde para ver o pôr do sol e ele me respondeu que não tinha celulite. Amo que me mintam para serem agradáveis comigo. A realidade não me interessa nada. A vossa verdade absoluta, muito menos.
Usem máscaras por motivos sociais, psicológicos, higiénicos. Usem máscaras pela beleza do gesto. Usem máscaras para que isto corra bem.
Finjam, por favor. Enganem-me por caridade.
Lie to me, lay with me.
17.10.25
Pulso
O meu primeiro impulso para a palavra "pulso" é a música. Claro. Evidente. Aquele beat. Aquele ritmo. Aquele som sintonizado como na barriga da mãe.
10.10.25
Como cão e gato
Mil oposições. Contradições. Lutas e conflitos. No mundo. Na minha rua. Nas escadas do prédio. Mas a primeira, a mãe de todas. A que me assombra desde a mais tenra idade vive dentro de mim. Um fantasma bem presente de que nunca quis fugir e só afugentei quando fui obrigada pelo assalariado. Esse mal maior.
3.10.25
Quanto até ao apocalipse?
Londres, anos noventa. Lembro-me de rir discretamente, mas com vontade, no speakers corner do Hyde Park, quando vi pela primeira vez aquele gentleman de barba longa e branca, em cima de um caixote de madeira com o cartaz bem alto "Things gonna get worst". Anunciador do apocalipse num dia de chuva antes da hora do chá, achei super chique. Devo ter tirado uma foto analógica, ou talvez não, nessa altura pesava-se bem cada imagem que valeria ser guardada para sempre. Não devo ter tirado, a luz estava péssima, era uma vivência para ser guardada só na memória humana, imperfeita e orgânica.