21.3.25

Lugar comum

 Parece que no livro "O fio das missangas", Mia Couto escreveu que " ... as mulheres não precisam de rituais para festejar a vida. Elas são a festa da vida"

Vizinhos


Não sei das vossas vidas, mas o que eu mais receava no meu mundo inteiro - antes que isto tudo desse para o torto - na altura em que ainda vivia em casa dos meus pais, era que a minha mãe cruzasse uma vizinha quando íamos às compras. Se fosse mordida por um cão vadio, compreenderia, ele tinha sido maltratado toda a vida, era um mecanismo de sobrevivência, se gozassem com os meus cabelos na escola porque eram tão diferentes, tudo tranquilo, eu mesma não sabia o que fazer com eles. Podia até ser injustamente acusada de usar cábulas, assumiria pelas vezes que usei e não fui apanhada. Agora, a minha mãe pousar os sacos das compras ao encontrar a vizinha do terceiro direito é que não me fizessem isso. Limites muito próprios e só meus eram ultrapassados. Um vazio frio e temporariamente eterno arrancava-me a paz e a alegria, portanto tão naturais no início da minha adolescência. Não tenho absolutamente nada contra a vizinha em causa ou nenhuma outra, de resto. Quase sempre tive vizinhos que souberam ser bons, ou seja, invisíveis e não me aborreceram, toleraram os meus barulhos e eu os deles. 

Na verdade, pouco me interessa as questões de vizinhança, fui uma única vez a uma reunião de condomínio e nunca lá mais pus os pés, seja em que país fosse. Declarei que tudo o que decidissem estava bem para mim e pagaria a minha parte, contudo nunca contassem comigo para assuntos de administração que com certeza iria desaparecer dinheiro sem que eu tivesse explicação para tal. Já é o que me acontece na vida pessoal, sempre foi e sempre será. Perder dinheiro é algo que aceito, perder tempo é que não consigo, peço imensa desculpa caros co-proprietários, mas está sol e agora vou para a praia ou está chuva e quero ouvir de olhos fechados uma música que eu cá sei para ir com o estado do tempo. 

A minha mãe é todo um outro universo, adora verificar contas, resolver problemas com o elevador e chamar o senhor para trocar a fechadura do prédio. Gosta muito de saber como está a vizinha. Não que seja bisbilhoteira, isso sou eu, mas falar com as vizinhas no hall de entrada é algo que considera como um hobby em toda a sua plenitude. O pior era a minha posição neste cenário. Não queria interromper a conversa para pedir as chaves e ir embora daquele calvário. Não queria ser chata. Não queria aborrecer a minha mãe, que me parecia tão feliz em amena cavaqueira sem interesse nenhum. E, acima de tudo, eu já era uma pessoa optimista e achava que aquilo estava quase quase a acabar. Optimismo pueril, vão e estúpido. Perdi anos de vida naquele hall.

A certa altura da minha vida, achei oportuno gastar cinquenta euros semanais em conversas com uma psicóloga, uma das conclusões que tirámos dali foi que o que mais temia na vida era o tédio. A morte fascina-me, os desgostos de amor magoavam-me mas, no fundo, achava-os belos, as desilusões de amizade uma boa aprendizagem, as más venturas profissionais é porque iria encontrar algo melhor depois e tinha que fechar portas. Mas, por favor, não me obriguem a estar onde não quero estar. Isto eu não consigo, que me perdoe o António Variações, que tanta falta nos faz, abençoado.

No prédio onde vivo agora, e que era para ser um local temporário, mas que se está dia a dia a transformar numa casa de sempre, há seres humanos de vinte e trinta anos que me tratam por "senhora" nas escadas, quando eu quero apenas pôr o lixo lá abaixo. Esta realidade da idade a pesar é algo recente e completamente anacrónico, pois raramente fui tão inconsequente, irresponsável e infantil como agora. Sinto como se algo em mim estivesse a emitir sinais erróneos malgré moi para despistar, talvez as rugas e os cabelos brancos sejam a razão de tanto desnorte. Como se a passagem do tempo fosse indicador de algo em mim. O absurdo de tudo isto! 
Há uma bizarra coincidência nesta minha actual morada, é que graças a ela quase fui vizinha da Calita. Um quase que me parece extraordinário. Mas uma vez mais, o tempo não está em sintonia com a minha vida. Quando a minha vizinha preferida morou neste prédio eu morava em França e agora que moro cá, ela mora perto do Porto, num lugar onde nunca vivi. 
Estou, portanto, condenada a viver como se fosse uma senhora, numa realidade que não é a minha. Com vizinhos que me desrespeitam no quotidiano com o seu respeito.


                                                
PS: E não consigo falar, nem deixar de falar, do resto da realidade de outra vizinhança mais alargada e coletiva que não reconheço - não sei como se faz para se viver adequadamente numa época tão distópica, que não espelha nenhum valor que jurava universal, nem ao menos alguma humanidade. Ficará para sempre um mistério de como vivemos nós num mundo tão avesso ao nosso. Como é que a bolha ainda não rebentou e como vai ser quando tal acontecer. Como continuamos a dançar, falar, beijar e respirar?


Para lerem mais textos do colectivo "Largo" sobre vizinhos :

14.3.25

Até o diabo se ria

 


Se tivesse uma máquina do tempo aqui à porta de casa não hesitaria a entrar nela e digitar 1992, o primeiro ano glorioso da minha vida. Tem piada porque digo sempre que não gosto de falar de mim, que não sou assim tão interessante que justifique terapia ou uma  personalidade misteriosa ou introvertida, mas volta e meia distraio-me e crio um blogue para me confessar em público ou faço um monólogo embaraçoso à primeira pergunta íntima que me fazem. E nem era assim tão íntima, a minha resposta é que a revelou assim. Dizia eu,1992, porque foi o ano em que viajei pela primeira vez numa excursão escolar não oficial do décimo segundo ano. Ainda não havia essa moda importada de se celebrar finais de ciclo, ninguém era finalista de nada, tínhamos espontaneamente chegado onde chegámos uns mais cedo, outros ainda a caminho - todos sem alarido - e tínhamo-nos metido num autocarro rumo a Paris. Também foi o ano em que assisti ao primeiro concerto que me marcou a vida. Entretanto já foram tantos, a vida toda marcada, felizmente. Ano em que comecei a sair para dançar no Frágil e no Kremlin e no Alcântara Mar. Ano em que vinha a Lisboa todos os dias, sob pretexto que tinha entrado na universidade que me interessava menos do que este território por explorar com o passe social. Digitava 1992, dizia eu, ano que já tinha a altura que tenho agora, o mesmo penteado de cabelo e a mesma personalidade, que não evolui muito nestes anos que, entretanto, soube aproveitar. Uns anos menos que outros, para grande pena minha e culpa do trabalho salarial. Sangrenta pena minha!

Nessa altura, com dezassete anos, idade mais importante para mim que os dezoito, já era quem sou e julgaria com honestidade a vida e quem sou em 2025. Queria muito ouvir o julgamento da pessoa que comecei a ser em 1992. Que riquezas viria e que desilusões me fariam querer desistir de continuar. Até o diabo se riria ao ver que todos os meus sonhos de jovem adulta se realizaram, à parte trabalhar num arranha céus em Nova York e lá ter uma carreira de sucesso num domínio por definir, que não era dada a detalhes. Mas provavelmente, este sonho não se realizou, porque com a minha sorte de estar nas cidades erradas no momentos dos atentados, ainda estaria nas Torres Gémeos naquele fatídico dia. Tive sorte, nesse caso, de não ter visto a luz do dia esse sonho que me iria tornar famosa pelas más razões na televisão portuguesa.
 
Gostava de ver o que a acérrima feminista que era, pensaria de ter parado de  trabalhar para ter filhos, aliás, ter tido filhos, já seria motivo de espanto, por si. Sei que nunca dei muito valor ao que vem depois de mim, se não for o dilúvio, e ainda menos dava quando tinha vindo ao mundo há tão pouco tempo. Como veria ter ido para Paris não por ambição de carreira, mas por amor e outras tantas decisões avessas à pessoa que eu era para ser. 

Até o Diabo se ria se me visse agora. Mas pergunto-me se eu com dezoito anos também acharia assim tanta piada às várias voltas que a vida me deu.



Outros diabos do coletivo de escrita semanal, hoje com um novo membro (bem-vinda Marisa!):




7.3.25

Coração lavado



Fui com uma amiga ao cinema ver o filme errado. Não sei se também têm dedo como eu para escolher amigas assim, mas eu gosto muito e recomendo . Não faço ideia como é que se faz para se ver um filme errado, e pelos vistos, a ela já lhe aconteceu várias vezes comprar bilhete, sentar-se, ver as luzes a apagar, assistir ao genérico e só depois, bem mais tarde, perceber que não está a ver o filme que queria. Quando nos sentámos na sala, ela mostrou-me o cartaz do filme que queria que víssemos, no écran do telemóvel. Eu tinha ido às cegas, porque sei que tem bom gosto quando não se engana. Supostamente o filme era para ser italiano e muito bonito, mas logo no inicio o filme pareceu uma coisa muito mais pesada do que me tinha sido prometido, com nomes vindos muito mais de leste. Fomos ver, por engano, um filme sobre o início da invasão russa à Ucrânia, no dia comemorativo do terceiro ano deste descalabro. Éramos 4 na sala, não sei se os outros dois também vieram ao engano ou se havia outros que estavam noutras salas a ver outros filmes, quando afinal queriam ver este.

Não aprendemos nada de novo no filme, no fundo já sabemos que a situação é horrível, que há derivas, que há situações ou traumas que levam humanos a cometer actos que nem em pesadelos são humanamente possíveis.  Nem sequer é um filme que eu gostaria de ter visto, mas foi algo com importância que me aconteceu. 

Essa minha amiga é companheira essencialmente de coisas boas, danças, risadas e alegrias. Não só, mas essencialmente é nessa parte da minha vida que a encontro mais vezes. Como se andássemos a dedicar a nossa amizade a fugir das coisas más que se passa lá fora, quando não estamos juntas. E, ver este filme precisamente com ela foi a metáfora perfeita do que andamos a esconder nas nossas vidas. Vivemos numa bolha frágil de felicidade. Pode rebentar a qualquer momento. Somos egoístas, e sabemo-lo. Mas não sabemos como podemos ser melhores. Gostamos de pensar que somos boas pessoas, tratamos dos nossos, respeitamos desconhecidos, ela até faz voluntariado e eu preocupo-me muito com o caminho que isto está a levar. Mas, na verdade, vivemos felizes e procuramos ambientes onde há alegria. Drogamo-nos também, claro, como qualquer ser lúcido que ainda quer ser feliz neste mundo ao contrário.

Todos sabemos que a situação está cada vez mais apocalíptica, guerras e ameaças. Tudo muito ao contrário do que deveria ser. Viemos ao mundo para viver, não para matar. Tento manter o coração lavado com as minhas pequenas acções no meu pequeno bairro, mas sei que a bolha está quase a rebentar e que os estilhaços vão chegar aqui.

Como lavar o coração numa época tão suja? 

Outros corações que se lavam no colectivo Largo :


(em actualização)

28.2.25

Carimbo




Não entendo porque é que há tantos carimbos em sítios tão errados. 

Nos tempos em que ainda achava que era obrigada a fazer coisas que não gostava, via muitos a ser utilizados à bruta em repartições de finanças e outras instituições criadas por pessoas que não são como eu. Era a única parte desta incursão ao mundo dos outros - com relógios de ponto, regras verticais e unilaterais e pequenos podres poderes - que me parecia ter interesse. O barulho, o que ficava depois do murro, A tinta e a marca. Tudo o resto me parecia extra terrestre ou demasiado terrestre. Em todo o caso, claramente isento de algo que me interessasse trazer para o meu mundo. 

Lembro-me também dos carimbos da escola primária, lugar que gostava muito com a excepção dos castigos que os meus colegas mais livres recebiam. Lembro-me de os ver em fila, à frente do quadro, à espera da sua vez para receberem a sua réguada, ou porque tinham erros no ditado, ou porque estavam de pé ou a falar ou porque tinham chegado atrasados. Lembro-me do espanto que sentia com este processo. Nunca fui habituada a castigos e, espero nunca vir a habituar-me. Ser castigado por regras que, outras pessoas que não são como nós estabeleceram, devia ser proibido. Elas que vivam com as suas regras. Eu tenho cá as minhas e já me é doloroso suficientemente quando não as cumpro.

Outro lugar onde gosto muito de encontrar carimbos é na feira da ladra. Agarro-os muitas vezes e muitas vezes quase que os compro. Não estou a fingir que os vou comprar de cada vez que o faço. Não gosto de enganar quem vende coisas para serem usadas outra vez. Uma parte de mim quer mesmo levá-los comigo, para depois os colocar num sítio que vou esquecer e nunca mais usar, Agarro-os e aproveito as recordações que me vêm à cabeça. Por vezes, até acho que fecho os olhos e devo sorrir por momentos, a idade já permite que os outros não existam por breves instantes. E depois, segundo a minha regra, volto a pousá-los e deixo-os para quem os irá seguramente usar melhor.

Não gosto de assinar. As últimas assinaturas bonitas que vi são as das gerações dos meus pais, fluídas e artísticas, como as suas letras cursivas. As da minha geração são francamente toscas e quando não o são é porque estão a copiar as da geração anterior, e são anacrónicas e ridículas por isso mesmo. É melhor assumirmos o nosso tempo, as nossas conquistas e os nossos erros. No campo das assinaturas, a geração X errou. Ou então, sou eu não tenho a cultura visual necessária para apreciar este grafismo tosco ou copiado. Nas gerações que nos seguem tudo é possível, menos um gesto escrito decente e digno, uma geração que escreve com teclas nunca poderá assinar documentos ou cartas de amor com autenticidade. Proponho os carimbos. Um anel com carimbo personalizado para cada um. Os burocratas que tremam ou que burocratem depois. Eu, que agora faço jóias, acabei de ter uma ideia de jóias ao escrever um texto, como já tive uma ideia de desenho ou esculpir um pedaço de barro, tudo se interliga sem ordem nem horários. Faço de tudo, não faço muitas vezes é nada. E é assim que quero que seja. Lentamente, atrasada, desordenada, aceite e rejeitada. 

Que se carimbe por cima.

Podem encontrar outros textos carimbados, pela Calita, a Maria João e a Mariana, Joana Outros mais tarde virão, ou não.

21.2.25

Teias de aranha


A minha casa está sempre um caos ou não seria minha. Neste tipo de organização livre é onde me sinto bem e desde que saí de casa dos meus pais nunca mais vivi nunca casa arrumada, excepto quando recebo visitas, ou quando vou de férias. 

Só convido a minha casa quem é igualmente desarrumado, agora é esse o meu critério. Houve um tempo em que convidava quem eu gostava, mas o trabalho que dá arrumar tudo, para que fique apresentável não compensa. Não gosto assim tanto de ninguém a ponto de passar vários dias a arrumar, esfregar, organizar, lavar e, pior, a tentar que o trabalho feito não se desmanche antes da data combinada. Não que tenha nada contra casas arrumadas, mas não são é para mim, o problema não são elas, sou eu. 

Tenho amigos que mesmo que nunca tenham sido convidados a minha casa, me convidam às suas. Gosto de pensar que lhes dou uma outra coisa em troca desta hospitalidade. Gosto de pensar que tem a ver com a minha personalidade, o meu sentido de humor corrosivo, ou o meu savoir vivre. Tento sempre não me esquecer de levar alcóol ou drogas para completar a minha presença. As casas deles não me incomodam muito com a sua arrumação imaculada, sinto-me praticamente bem e sempre que posso, aceito o convite, mas sentia-me melhor se estivessem um pouco desarrumadas, tenho que confessar. Não gosto de pensar que se deram a um trabalho, que não vou valorizar, para me acolher. E gosto ainda menos de pensar que, amigos meus, que eu prezo, passem muito tempo com actividades sem interesse ou, pior, estão tão domesticados que nunca atiram os sapatos ao calhas quando chegam a casa. Que, quando ninguém os está a julgar, mesmo assim têm gestos comedidos ou automáticos e, sem dar por isso, colocam os sapatos direitinhos no sítio que está predisposto para os sapatos. Que tenham sítios predispostos para os sapatos que entram e saiem várias vezes por dia.

Na desarrumação catastrófica que é sempre a minha casa, estranhamente quase nunca há teias de aranha. Sempre ensinei os meus filhos a não destruirem as teias. Porque gosto de aranhas, em primeiro lugar, mas também porque apanham outros insectos de que não gosto e porque ouvi dizer que atraem dinheiro. Por isso, sei que não são eles que as fazem desaparecer. A realidade é que há tanto movimento aqui dentro que as aranhas devem fugir. Também não reparo que haja assim tanto pó em cima dos móveis. mas isso é provavelmente porque não reparo nessas coisas, Reparar em pó, questiono-me sobre p tipo de pessoa que, com tanta maravilha e horror à sua volta para reparar, decide reparar em pó.

Na minha casa há confusão e, por isso, as teias de aranhas são poucas e por isso, talvez, raramente tenho muito dinheiro. O meu filho joga à bola na sala, apesar das minhas cerâmicas e dos meus gritos, a minha filha, quando vem viver connosco - já tenho uma filha que vive sozinha e que, para meu orgulho, já desarruma o seu próprio espaço - atira a roupa e o que tem à mão para cima do sofá ou da cama ou da gata, o vento que estes projecteis fazem, também deve contribuir para a ausência de teias de aranha. Eu danço todos os dias como se ninguém estivesse a olhar, a gata corre e atira-se para criaturas que nunca vimos, as teias não singram.

Não tenho condições para falar sobre teias de aranhas, só quero que saibam que gosto muito delas e que que seriam muito bem vindas neste feliz habitat de biodiversidade em convulsão.


Outras teias de aranha publicadas hoje no colectivo :

pela Maria João

pela Rita Dantas

pela Calita Fonseca

pela Joana

pela Mariana

(em actualização)

14.2.25

Atraso de vida


No chão da sala, com o sol de Inverno em cima, sonho acordada com uma pintura que um dia gostava de fazer e provavelmente nunca virá a luz deste dia, nem de um outro.

A preguiça sempre foi um dos meus temas preferidos, vou mesmo muito longe quando a meto à obra. Por ser preguiçosa, já faltei a muitos eventos importantes, já cheguei muitas vezes atrasada, não fiz tudo o que devia, não fui resiliente, não estive nunca nem perto de um burn out, não conquistei nenhum título, nem medalha. O meu nome será rapidamente esquecido, a humanidade não pode contar comigo para a cura de nenhuma doença importante, pode-me esquecer para uma obra que se torne clássica com o tempo, nenhum jardim será cultivado. Nunca me apresentarei correctamente maquilhada ou totalmente depilada. Todo o trabalho que fiz, fi-lo contrariada. A humanidade, tal como a conhecemos, nunca existiria se todos fossem como eu. Este atraso de vida. Saberiamos muito pouco, teriamos que imaginar quase tudo. Haveria arte que não serve para nada, por todo o lado e ninguém nunca caçaria nenhum animal com as próprias mãos. Viveriamos de maçãs caídas no chão, meio nus, morreriamos jovens e por todo o lado se dançaria ou não. Iriamos a pé para todo o lado e teriamos preguiça de voltar. Nem na pré-história, a humanidade esteve tão atrasada.

Os meus atrasos de vida, são, para mim, os meus avanços. Pelo que nunca irei a lado nenhum. Ou irei só e apenas a todo o lado. Não calculam o quanto isto irrita muita gente.

Atrasei a minha vida quando fui mãe, não pertencia a uma bolha onde a maternidade era valorizada. Atrasei-a quando fiz um ano a viajar e nunca fui tão longe. Arraso a minha vida sempre que me apaixono. E apaixono-me tantas vezes. Nesses momentos, não produzo, não escrevo, não pinto, não nada. Fico noutro mundo, a olhar o que me rodeia onde se produz tanto, onde se preocupa com tudo e com tão pouco.

O resto das pessoas nunca enlouquece como eu. O mundo tem sempre objetivos e astúcias. À minha volta todos conseguem continuar serenos, enervados, coerentes, eficazes, raivosos, estrategas, atentos ou presentes. E depois há os outros loucos, e esses respeito muito. Os diagnosticados. Os que são o que são, com ou sem paixões ou preguiça.

Interessa-me muito a preguiça e o tempo que passa devagar, os prazeres que nos desviam do que deve ser feito. Tenho cada vez mais um desinteresse para todos os domínios que têm que ser. Não sei o que pensar de mim mesmo e no atraso de vida que sou.

Quando vejo aqueles atletas de alta competição que ganham as medalhas de ouro, penso nos atrasos de vida que não se permitiram para chegar onde chegaram. O ouro é uma compensação de tudo o que perderam. Não chega.

O ouro não me interessa, sou outras as tentações a que facilmente cedo. Idealmente, dedicaria a vida à arte, mas o que me vejo fazer nos meus melhores dias é fazer da vida a minha arte.

Avanço muito devagar no que tenho que fazer. Pinto por empreitadas quando posso ou consigo, mas se alguma tentação me vem chamar quase sempre eu vou. Pago o preço muitas vezes. As oportunidades que não aproveito, as multas que os burocratas não perdoam, os sermões que os materialistas me pregam. Mas o preço forte, aquele que aparece no final, esse não o vou pagar.

Só com a vida muito atrasada se tem tempo para a viver.




Este texto foi feito para um coletivo de escrita, recomendo os atrasos de vida dos outros membros:

Calita escreveu no Panados e Arroz de Tomate

Rita Dantas escreveu no Boas Intenções

Maria João escreveu no A Gata Christie

Joana escreveu no Azul Turquesa

Mariana escreveu no Gralha Dixit

(em actualização)

7.2.25

Espelho meu



Lembro-me, na adolescência, de me olhar no espelho e de só reparar no que estava errado com o cabelo, com o nariz, com a barriga. Olho agora fotografias desse tempo que não volta mais e só vejo frescura e beleza. Isto aparece-me como universal, acontece com todas as minhas amigas. Talvez sejamos nós geneticamemte  programadas para nos olharmos de cima, ou os nossos pares são duros connosco no secundário, ou, como muito já se disse, a sociedade nos transmite um ideal que nos frustra. Não sei o que gera esta distorção. Este tema é banal, já foi debatido mil vezes. Não é sobre esta realidade que escrevo hoje. Porque não é neste lugar em que vivo agora.

Este é um tema estranho, não falo dele com à vontade, não me são naturais as selfies, prefiro estar do outro lado da câmara, fui educada para sentir como uma fraqueza esta questão superficial da beleza exterior. Mas o mundo de fora devolve-me espelhos em permanência e seria hipócrita dizer que não me importo com a imagem. Afinal, todos os dias alguém me fala de como me apresento. "Apesar da minha idade".

E é aqui que eu estou hoje, nesse "apesar".

Hoje, vejo-me ao espelho e procuro o que está bem em mim. Talvez seja isto a maturidade, a procura da beleza. Talvez seja esta ilusão selectiva, esta distorção finalmente a nosso favor, a vantagem de se ser velha. Deixar a pele antiga da vitimização. Largar a miopia que nos forçava a ver os defeitos microscópicos e olhar para o todo, que ainda não caiu, e para a vida que ainda pulsa em nós. 

A culpa nunca foi dos espelhos e a graça nunca foi dos corpos. Sempre foi escolha nossa ver o que queremos ver, procurar o que damos importância, que seja agora encontrar o que mais no convém. 

Dizem que quem ama, até o feio bonito lhe parece. Amemo-nos, senhoras.

Amem.


Outros espelhos: 

Panados e arroz de tomate

Gralha Dixit

Azul Turquesa

Boas intenções

A Gata Christie


 








4.2.25

Espalhar-se ao comprido





Não posso cair hoje. Choveu e a calçada está molhada, escorregadia e perigosa.

Sou uma quinquagénaria, afinal - sabe-se lá que mazelas podem vir de uma queda mal dada. Irresponsável, escolho muitas vezes os caminhos que por ela faço. Porque esta lição, a bem da verdade, não sei se quero aprender. Os passeios assim, são tão melhores que os que existem a cimento, planos, aderentes, sem buracos e sem riscos. Apesar das maleitas, dos arrependimentos temporários, dos gessos e das dores, que sempre passam, dizem. Quase tudo passa sempre um bocado. 


Sigo como uma turista na minha cidade, já o fazia antes dos cafés da modinha, dos visa gold, do surf, dos preços acima das minhas possibilidades. E, também como uma turista passeio-me na minha vida: vejo as vistas, pago para viver extravagancias, sou grata pelo sol. Como se tivesse uma bilhete de partida no terminal 2, como se fosse só desta vez, como se tivesse dinheiro para isso, como se ninguém me conhecesse aqui. 
Como se não me tivesse esquecido que o elixir da juventude está na exaltação da queda, ou da sua possibilidade. Na recusa desta aprendizagem do seguro e do sensato. Da protecção e do conforto. 

Não é sempre, mas, às vezes, nos dias de maior inspiração, quando vejo uma oportunidade de cair, sorrio e lanço-me no precipício, ou no buraco no meio do passeio, logo a seguir ao Opel Corsa mal estacionado. Por vezes, dou esse passo em falso, e ao longo da queda tenho dúvidas, será mesmo razoável esta forma de vida? 
Quando, finalmente, me espalho ao comprido, percebo que só assim sinto que estou a viver. Algures entre o voo da queda e o duro que pode ser a realidade. Alguns dias em carne viva. Aquela máxima do sangue, suor e lágrimas. 
Arriscar, como se fosse a primeira vez, como se fosse uma adolescente com conhecimento de causa e dores no joelho. A repetição não existe, quando teimamos na vida. O rio nunca é o mesmo, não é ? 
Expectativas altas e sem prestar muitas contas à dignidade. No final, saber que ao menos vivo. No máximo, tropeço.  E nunca aprendo.

Outros espalhanços aqui:

21.9.16

Aquele horizonte que entretanto se perdeu





Chegámos a Shangri-la, nem sem a que horas, mas não foi a bom tempo. Os meus primeiros momentos foram de arrependimento, fica a confissão, para dar o mote. A gare rodoviária de Zhongdian foi a mais inóspita gare de todo o nosso mundo, que vai sendo cada vez maior. Cheirava muito pior do que a cigarro velho. Não havia sala para não-fumadores e ninguém parecia importar-se com o que se escreve nos pacotes de cigarros na nova Europa. Recordei-me da gare de Setúbal como se fosse a minha madeleine de Proust. Do outro lado do globo, na minha memória certamente danificada, chegar ao terminal rodoviário de Setúbal fazia-me lembrar entrar numa sala de uma tia-avó particularmente prendada em bolachas de manteiga, que insistia para que tomasse mais uma taça de chá.

Não tinhamos qualquer indicação de distância entre a gare e o centro, ninguém sabia falar inglês e os motoristas de táxi, todos vestidos de preto e com um cigarro no canto do lábio, queriam levar-nos as malas para dentro de 4 bagageiras diferentes. Estavam tão excitados com a nossa chegada que tivémos a certeza que íamos ser enganados. Recusámos a ajuda forçada de todos, com mais ou menos sorrisos, consoante a maior ou menor insistência.

Sentámo-nos nos bancos azuis de plástico duro da sala de espera, ainda atrodoados do trajecto, a comer bolachas salgadas, que tinhamos comprado a pensar que eram doces. De vez em quando, um de nós levantava-se numa tentativa de estabelecer contacto verbal com alguém, e no regresso era recompensado com mais uma bolacha. Na verdade, o que estava em jogo eram apenas alguns euros a mais, que seríamos certamente cobrados pelo motorista de táxi. Mas não nos apetecia ser levados por tansos. Temos o nosso orgulho. E tínhamos muito tempo - é sempre mais fácil manter a dignidade, quando se tem tempo para isso.
Luxos.

Acabámos por decorar os caractéres que significam centro da cidade e apanhámos, mais ou menos às cegas, um autocarro. Saímos onde nos indicou o motorista, mas parecia que estávamos numa zona industrial com pavilhões de madeira. A estrada um caminho de lama.
Tinhamos lido que Shangri la era apenas um truque de marketing do hábil turismo chinês, que se tinha aproveitado dos poucos elementos do livro de James Hilton - Lost Horizon - para afirmar que ali é que era o verdadeiro Shangri la. O Stéphane tinha falado com um viajante que lhe tinha dito que a cidadela velha tinha ardido recentemente e que quase não havia nada a ver. Posto isto, eu disse que queria ir na mesma. Se a liberdade não foi feita para se seguir impulsos e se cometer erros, então não sei para que serverá.

No caminho, vimos os arrozais omnipresentes a transformar-se em pastos verdes escuros, as pequenas casas brancas com telhado de telhas, em casas enormes ocres de arquitectura tibetana e os nossos primeiros Yaks a pastar, não sei a substituir o quê nem quem.
Pensei alto, para que todos me ouvissem no minibus, que nem que fosse pelo que viamos da janela já tinha valido a pena. Mas ninguém acordou.

Saídos do autocarro, encaminhei a minha família para a estrada da esquerda, que me pareceu bem. Nesta viagem, às vezes, calhava-me a responsabilidade de estudar o próximo trajecto, saber se valia a pena ou não ir e levar a coisa em avante. O meu método científico de estudo e concretização é conhecido como improvisius.
Fui andando e perguntado onde era o centro, ignorando sempre as respostas, porque não me convinham, até que começámos a ter fome. Entrámos num café que tinha fotos do sítio onde eu queria estar, muito diferentes da estrada de lama onde me situava com a minha família e entrei disposta a aceitar o prato do dia. Tenho amor à aventura.
A um canto, o filho da dona do restaurante, brincava com legos falsificados e prontamente aceitou partilhá-los com os meus filhos. O mito do egoísmo da criança única é mesmo um mito.
Tive que ouvir um comentário sarcástico em francês de como era admirável a minha forma de educar os meus filhos para o inesperado e dei de comer às bocas que me rodeavam, com dumplings bastante aceitáveis. Em português parece que se diz bolinhos de massa de pão, não podia pensar em tradução mais deslavada.
Quando saímos começava a ficar frio e escuro, e aceitámos o primeiro quarto sem janela que encontrámos disponível.

Acordámos com dores nas costas e depois de tomármos um pequeno-almoço igual ao jantar e da minha filha ter deixado um desenho num post-it colado à parede, fomos ao enorme moinho de preces dourado que víamos da rua.
O meu filho continuou a sua estranha incursão mística-motriocinal num universo muito dele, baseado nos rituais religiosos. Se na India tinha sido hindu-praticante-não-crente, na China seria budista-praticante-não-crente.
Acreditaria que tal fosse sacrilégio, fosse eu dada a acreditar.
Aquele enorme moinho de preces dourado precisava da força de sete pessoas para se mexer, com os meus filhos, nove. Mas eles não tiveram noção da sua nulidade ritual. Acreditaram que contaram para enviarem mantras  para os ares, e tendo em conta que estamos a falar de religião, acho que isso é o essencial.

A aldeia, para além daquela colina com o templo budista e um moinho, tinha um interesse relativo, restaurantes de pão de vapor, alguns albergues. Saíndo do centro, as casas deixavam de ser tradicionais em madeira, para passarem a ser francamente feias, mas as pessoas mais acolhedoras e interessadas em nós. E um pouco de atenção, por vezes, calha bem.