13.5.14

Meu estranho mês de Abril. Parte 2

Quis comemorar o 25 de Abril, não soube como.

De 24 para 25, podia escolher a música.
Liberdade ! Liberdade ! A liberdade levou-me ao Terreiro do Paço.
Queria ouvir as novidades. Queria ouvir a antiga intervenção.
E o Zeca, o Zeca, o Zeca.
No palco, as imagens da luta de antigamente. Nas imagens, os cartazes deste ano.
Morra o coelho, morra, pum.
Vim de Almada, lá está.

O terreiro estava tão burguês, como se consegue estar em Lisboa no ano de 2014.
Muito.
Mais conformada e instalada e a praça afogava.
Qual tanque de guerra ?
Não havia roulottes, não havia pão com chouriço.
Senhores com muitos euros. Senhores doutras nacionalidades. Senhores muito senhores de si.
E eu nisto tudo ?
A música era serena. Como o povo. Mais os costumes.
Os estrangeiros divertiam-se. Os outros tiravam fotos. Eu bocejava.
A festa não a consegui encontrar.
Quis comemorar o 25 de Abril, não soube como.

A Xana dos rádio Macau, lembrou-nos, depois da Capicua, depois do Maio, maduro Maio,
que a liberdade, teríamos que fazer para a manter.
Que a liberdade não cai do céu.
Que é coisa que se merece.
Trabalho. Esforço.Atenção. Vigilância.
Ti ri tu ri tu ri tu tu Ti ri tu ru tu ru.
E eu, nisto tudo, vi-me a recear.
Como não tinha ainda receado das últimas vezes, antigas de mais de há dez anos, nas festas bravas de algum município, forçosamente comunista, da margem sul.
Quis comemorar o 25 de Abril, não soube como.
Há dez anos era diferente. Mas é o agora, tão igual a si mesmo, que eu não reconheço.

Era chegada a hora do último barco, e corremos.
Ainda não tinha acabado o concerto, ainda não tinham lançado os foguetes.
Agora já não há tantos barcos, meu amigo. A austeridade, vocês percebem, isto está mal, não dá para luxos de transportes públicos, não dá para excepções de comemorações de uma coisinha pouca.
Vimos o fogo, o pouco fogo que houve, enquanto atravessamos o rio.
Qual uma falua ao longe a varar.
Uns quantos, colegas de uma escola secundaria qualquer, cantaram o Grândola, Vila Morena.
Um sósia do Lenny Krevitz acompanhou à guitarra.
Tudo muito normal.

E eu chocada com isto tudo e mais esta normalidade global, onde tudo se parece encaixar.
Os adolescentes chamam-me de senhora e levantam-se para que me sente.
Como é que chegámos a isto ?

Logo eu, que apenas queria comemorar o 25 de Abril.

14 comentários:

  1. Os adolescentes não te conhecem como eu, ó senhora ;)

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  2. é estranho não é? é o que me pergunto desde há mais cerca de 2/ 3 anos....

    ;-)

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    1. Vivemos estranhos tempos, vivemos estranhos tempos.

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  3. Eu comprei um cravo artificial, vê lá tu. Também não percebo nada. E a culpa não é tua.

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    1. Ui, os cravos : outro post. Também é minha, também é minha. Podia ter feito e acontecido.

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  4. Mas no carmo a festa era outra: mais músicas cantadas por todos, mais gente a celebrar o 25 de abril (e não a ouvir um concerto de sabe-se lá quem), mais 25 de abril!
    Eu saí do carmo para o terreiro do paço, por causa do fogo de artifício, mas nem o vi porque não gostei da festa.

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    1. Pensei que o Carmo iria ser um dos focos no dia 25 de Abril, e não na noite de 24 para 25. Estava mal informada.
      Cai aqui de paraquedas, arrisquei-me. Foi pena.

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  5. estranhos tempos, muito estranhos tempos, concordo. podia estar aqui a descrever como senti a festa, ou a falta dela, da forma como vejo as pessoas na rua nos 25 de Abril e 1ºs de Maio, da forma como vejo as pessoas na rua todos os dias, da passividade, do conformismo, do encolher os ombros e de mais umas quantas coisas, mas a conclusão seria a mesma, não seria nenhuma na verdade, porque só consigo concluir que realmente estes são uns estranhos tempos...

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    1. E às vezes ponho-me a pensar, mas afinal do que é que precisamos para ver mais claro e tomar decisões ? O que é que nos falta ? Talvez precisemos de intelectuais mais implicados que nos dêem uma visão mais clara do que é que pode acontecer se continuarmos a esticar esta sensação de banho Maria. De gente com credibilidade que nos explique o que vai acontecer se nos continuarmos a deixar ir. Sem histerismos, apenas um pouco de raciocinio logico, de modelos economicos (porque não?) e sociais que nos permitam ter uma visão global. E ferramentas para perceber o que se tem que fazer.
      A classe politica anda, como bem disse o Pacheco Pereira (bolas e eu que o detestava, agora ando a concordar tanto com o que diz), "a fazer pela vidinha", temos que apelar a quem não tenha interesses pessoais neste estado das coisas.
      E os jornalistas também teriam o seu papel, com isenção e trabalho de fundo. Onde andam os OCS sérios ?

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  6. Eu nem comemorei o 25 Abril nem o 1º de Maio porque já fujo dessa apatia generalizada (minha inclusive). Mas fico mal com isso.
    Na política talvez falte darmos mais credibilidade a outros partidos (há uns 12 ou 13 sem representação parlamentar). Na nossa vida falta avançarmos mais na entre-ajuda e no consumo consciente. O nosso maior poder talvez seja (ainda) termos possibilidade de escolha.

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    1. Sou uma pessoa dada a comemorações, devo confessar. Ainda para mais estas podem fazer-nos pensar (o que nos tempos que correm é um luxo) e ajudam a transmitir historias aos miudos. Não tenho outra escolha senão ser fã.
      Das tuas opções escolho e todas e ainda quero mais, ando de olho no partido "livre", tento ajudar e aceito ajudas e penso antes de consumir, sendo que consumo cada vez menos. Usemos o poder que temos, então.

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