9.11.12

Kenavo


Com os bretões que conheço, aprendi a olhar para a terra e para o mar, com outros olhos que os de um turista de passagem, aprendi a preocupação com a comunidade e a amizade com os produtores biológicos, que nos convidam a ver as vacas que nos dão leite, de perto.
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Não sei se sou uma boa emigrante. Não suspiro muitas vezes pelo meu país. Não sou um peixe fora de água onde vivo. Ou pelo menos, não o sou mais do que quando estou em Portugal. A minha estranheza é outra. Não é geográfica. Viver em vários países tem esta coisa boa, de se conhecer várias culturas e se aumentar as partes que se identificam a nós. Se tivermos sorte juntamos mais peças aos nossos patchworks. E no processo modificamo-nos. E às vezes ficamos sem saber de que terra somos.
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Acerca do mar. Aqui todos têm um barco, ou sabem velejar, ou conhecem um amigo com quem festejar por ter conseguido finalmente um lugar para o veleiro no porto de Vannes, depois de dez anos de espera. Eu também tive em tempos um elo muito próximo com o rio. Penso nas minhas viagens diárias no cacilheiro, e não consigo impedir uma gargalhada sozinha.
Um bem haja às minhas origens suburbanas, que me deram tanto.
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A chuva. Faz parte da vida. Não é uma razão para se anular um passeio, e a seguir sempre se pode ver um arco-iris. Tudo tão diferente, da minha infância, perto de uma mãe que nasceu e viveu em Moçambique, adoradora do sol, e que ao abrir uma janela para um dia cinzento, começava a resmungar e a prever um dia mau.
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Pelos outros, por mim, por todos. O sentimento de comunidade é muito forte, tão presente que se consegue tocar. A maior parte dos bretões que conheço foram hippies em adolescentes, e mesmo se já abandonaram as camisas de flores e as calças boca de sino ou pata de elefante, ainda acreditam na paz e no amor. Discutem política nos jantares de aniversário, desfazem, apesar dos sorrisos, o coitado que trabalha em fisíca nuclear e que até trouxe um bolo de chocolate delicioso. Ensinam os filhos a participar nas tarefas em casa, com as boas razões, o sentimento de comunidade, fazes aos outros, os outros fazem a ti e no final, tudo gira e funciona. As casas não são imaculadas, mas todos fazem o que se deve fazer, não existe um que trabalha para os outros, ou um que tem que se zangar porque algo não está feito. Não há chefes, nem explorações, nem ordens.
Parece-me bem e sinto-me tentada a chamar a isto paz na terra.



8 comentários:

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    1. Aqui é fácil, é só carregar no botão.
      Por acaso, tivémos uma conversa por causa da primeira foto depois do texto - foi tirada numa ilha "île aux moines" no final do dia, com uma luz irreal - tivémos umas horas mergulhados numa realidade melhorada, parecia que alguém tinha passado primeiro e tinha dado um toque de photoshop. Houve quem dissesse que foi por causa desta ilha que inventaram o photoshop, para que todos os sítios se parecessem na fotografia, com esta ilha é na realidade.

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  2. de facto, assim dito por ti, faz parecer que é o paraíso da terra.
    Cá em Portugal de facto, não há essa cultura de partilha das tarefas da casa. As mães fazem, e zangam-se com os filhos quando não arrumam os quartos, e há como que uma tácita aceitação que a mãe é que faz tudo e apenas pede ajuda pontual para certas tarefas. Por essas e por outras,nós aqui na periferia da europa continuamos a achar que os povos do norte são mais civilizados...

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    1. Nem toda a gente é assim, atenção, por isso é que disse os "bretões que conheço" e não "os bretões". Mas, acho que a maioria é assim.
      Nas famílias, portuguesas, bretonas (é assim que se diz?), francesas em geral, que não é assèy-uim, é por uma questão meramente cultural. E porque a maioria dos membros da familia, se não todos, encaram esta situação como normal. Acredito, que se houvesse um maior intercâmbio de culturas e vidas a mudança vinha mais depressa. Se os outros conseguem, porque não nós ? Oh, mas cada um sabe de si !

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  3. Sim, sim, tens razão, isso é paz na terra. Ou quase. Eu preciso de sol (e de poucos ricos caridosos por metro quadrado, já agora)!

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    1. Paz na terra, porque é aqui que se começa, em casa, a pensar nos outros, em todos. Depois na sociedade é a mesma coisa, faz-se aos outros, fazem-nos a nós. Esta ideia dos ricos e dos pobres é uma das bases do problema. A ideia de pobre, nem sequer devia existir, uma pessoa tem sorte e tem mais dinheiro, mas pode ter azar e ter menos. Eu, tu, amanhã, quem sabe podemos precisar de ajuda para comer. Não é por caridade que devo dar comida, é porque se um dia for connosco, vamos gostar que nos estendam a mão. Ver-nos como um todo e não como eles de um lado e eu de outro. Tudo pode mudar.
      E é por isso, que quando dou comida, também acrescento umas barras de chocolate, quem me dera que se a minha altura chegar alguém pense também assim. ;)

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  4. A chuva ainda vá que não vá, agora o lodo a fazer as vezes da areia é que me dava cabo do zen.

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    1. Não é assim em todo o lado, Gralha Silva, também existem praias de areia na Bretanha. Eu é que fotografei os portos, porque os acho diferentes daquilo a que estou habituada. Mas posso colocar-te aqui fotos de praias de areia fina, que vais pensar que estive nas Caraibas - se não disser nada acerca da temperatura, claro.

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