24.10.12

Sou coxa


Não tenho tiques de portuguesa. Nem de emigrante, seja de que país for.
Não preciso da bica, do caldo verde, do cozinho. Só me apetecem pasteis de nata quando estou em Belém. Durante os dois primeiros anos precisei muito do mar, e ele nunca me valeu. Durante cinco anos, precisei do sol e não fui correspondida.
Não sou de relações unilaterais, fui à minha vida.
Bebo chá e cappuccino, como croissants e baguettes, gosto de blinis russos com tarama, pelo-me por um bom tinto francês, português, argentino, californiano, quando tenho saudades da comida da mesa da minha mãe, faço caril. Falo mais francês do que português. E agora, quando falo português, faço-o com uma música que se encostou. Quando falo francês com sotaque, começa invariavelmente uma conversa sobre culturas, costumes. E preconceitos.
Choro quando ouço fado, mas também choro por muita coisa.
Não é aqui que mora a saudade.
O que me faz falta, são as minhas pessoas. Que nem sequer são muitas. Se houvesse boa vontade, caberiam numa mala grande, que se despachava para o porão. Por elas, estaria disposta a pagar um suplemento. Mãos largas.
Não há nada a fazer, falta-me apenas o essencial.
O resto são cantigas para aconchegar outros males, que para aqui não são chamados. 
Sou uma portuguesa, que nasceu em Moçambique, em Paris. E que gostava de estar na Índia neste momento. Agora tentem fazer uma música com este título.
...
Sou coxa, tenho uma perna em França, outra em Portugal. Mas ando de bicicleta.

18 comentários:

  1. Para além de uma música, um bom livro de imagens seria uma vida.

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  2. Mas escreves e muito bem em português. Obrigada

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    1. Obrigada. Mas de vez em quando descobro aqui com cada calinada...
      Nem sei se é de ser emigrante, talvez seja mais pouca aplicação. A ver se tenho mais cuidado.

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  3. Ri-me com o cozinho, que talvez seja cozidinho. Não sei.

    mas enterneci-me e senti uma ponta de inveja, confesso.

    beijo com saudades.

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  4. Se a mala vier com retorno, por favor envia-me uns croissants, umas garrafitas de bordeaux e o 'Rien ne s'oppose à la nuit', que sempre escuso de o encomendar na Fnac.

    (Qual sotaque, quando falas português? Querias!)

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    1. Nem mala tinha, Gralha. Sabes la o que foi a minha mudança. Pedi emprestada uma mala gigante verde - mas Samsonite, atenção - e fiz umas dez viagens com o que pensava ser fundamental. Estava incluida na lista uma colecção de 20 livros pesados e maiores do que a estante, de capa dura, sobre pintura moderna. Ninguém consegue viver sem isso. O francês olhava para o céu, de cada vez que me via desfazer a mala.

      (Tenho sim senhora ! Tu é que nem me ouviste, de tão preocupada que estavas a beber a ser a primeira a acabar com a ginginha).

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  5. Muito bom! és "mazé" uma despachada isso sim!!! quem me dera... sou tão "agarradinha" a "coisinhas"...

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    1. Sabes que muita gente me diz isso, que sou "despachada". Onde é que eu erro a vos transmitir a minha personalidade ?

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  6. Tenho tantas mas tantas saudade de ser emigrante. Tantas que doem. Mais do que alguma vez me doeu a saudade quando era emigrante.

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    1. Ahahahaha !
      Isto é o comentario mais inesperado de todos. Saudades de ser emigrante ! Oh, por favor, desenvolve esta ideia! S'il te plaît !

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  7. lá está, de todo o lado e de lado nenhum, ou quase :))

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  8. Eh pá como gostava de ser assim "livre"... já muitas vezes a ideia de partir com o marido e o filho (em breve os filhos) para outra parte do mundo foi posta em cima da mesa mas pensar separar-me dos meus pais (sou filha única e o meu filho neto único) deixa-me completamente aprisionada...

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    1. O amor não devia ser nunca uma prisão, pois não ?

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  9. ainda me parece ligeiramente diferente começar em outro país a um, a dois ou a 3 ou 4 ( o de 1 ano é lhe tão mas tão indiferente mas o de quase 5 já me tirou uns dois meios sonos)...

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    1. A mim parece-me radicalmente diferente emigrar-se a um (sozinho, com toda a liberdade e solidão), a dois (ouro sobre azul), ou com filhos. Uma amiga minha coreana veio para Paris com dois filhos pequenos e so agora, 3 anos depois, é que pode ter a liberdade suficiente para ir à Alliance Française e aprender a falar francês. Ui.

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