6.7.12

Más companhias

Joder. Quando o Zé Gato passava na televisão pela primeira vez, não conseguia ver um único episódio inteiro. Torcia-me no sofá e fazia caretas como se gostasse de ver futebol e a minha equipa tivesse falhado um penalty. Ao meu lado o meu irmão ria à gargalhada, estes gajos são tão estúpidos. 
Morávamos perto de Almada e eu aproveitava a minha muito amada companhia de teatro como podia. Sempre que alguém me arranjava bilhetes ou a soma do dinheiro dos lanches que não comia dava, ía ao velho teatro com a certeza de ser feliz. Mesmo quando saía triste ou deprimida, era feliz. Beckett aos 17 anos. Mas tinha que o fazer às escondidas, vou ao café, senão já sabia que ía ter que gramar com a música do Zé Gato durante uma semana. O meu irmão podia ser muito chato. Uma semana naquilo. Eu sabia que era por causa do dinheiro que os actores da companhia de teatro tinham aceite participar na série Zé Gato. Só não percebia como é que conseguiam ser tão bons no palco minúsculo de Almada e tão maus na televisão da sala dos meus pais. O meu irmão gozava, é das más companhias e ria-se desta piada sem graça, enquanto eu sentia-me ficar vermelha de raiva. Estou aqui a escrever e está-me a crescer uma vontade de lhe dar calduços como lhe dava aos 10 anos. Quando ele gozava comigo com o Zé Gato, já não podia dar-lhe calduços, que já ele era mais forte que eu. Mas agora já posso outra vez. Experimentei a semana passada e não lhe passou pela cabeça vingar-se. Se amanhã vier cá almoçar vai levar um calduço. Joder. Não se goza com os actores de Almada impunemente.
Este texto continua, que agora ganhei embalagem e isto está tudo ligado. A escrita automática também é como as cerejas.
Houve uma altura da minha vida de adolescente que tinha um monte de trabalhos para sair à noite, porque a minha mãe pensava que andava com más companhias. Era normal que tivesse essa preocupação, que os meus amigos, não eram propriamente os meninos do coro de Santo Amaro de Oeiras, mas felizmente deixava-me sair, tenho confiança em ti, não tenho é nos outros.
A minha mãe devia ter tido mais confiança era na educação que me tinha dado, porque não era porque os outros faziam certas coisas que eu ía fazer também, e entre um sarilho que arranjavam e outro, divertia-me à brava. Aprendia na escola da vida mais que os marrões que ficavam sempre à frente e tecia laços mais fortes do que com pessoas como eu. Na altura não sabia o que eram pessoas como eu, e ainda hoje não faço sequer a mais pequena ideia, mas escrevo porque era o que ouvia e ainda ouço muitas vezes, e deve fazer algum sentido para alguém.
Esta semana fui com um velho amigo que adoro e que é péssima companhia, assistir ao lançamento do festival de teatro de Almada. Estávamos para ali a aproveitar o concerto grátis e cada vez com mais vontade de ver o Israel Galvan que nem sequer conhecíamos, mas que ia dançar dali a pouco. E a vontade crescia. O meu amigo não tinha os vinte euros de que precisava para assistir e nas amizades de más companhias não há lugar para se emprestar ou dar dinheiro, isso é para os burgueses. O meu amigo das más companhias era anarquista. Agora diz-me que isso eram coisas da juventude, que hoje confia menos na espécie humana e deixou-se de ideais. Sugeriu-me que nos aproximássemos da entrada do palco do Israel. Só para ver. 5 minutos depois estávamos a ver o espectáculo sem pagar, o meu amigo dizia que seja como for estava a sala cheia e o Israel já tinha sido pago. Estava ali a olhar para o meu amigo das péssimas companhias e a ver se alguém se aproximava para nos expulsar, quando apagaram as luzes e conheci o Israel.
...
Joder. No final do espectáculo apetecia-me atirar lingerie para o palco. O Israel é a pior companhia que se poderia encontrar numa noite de Verão num subúrbio como este. O meu amigo dizia mata, esfola, atira a lingerie, faz o que te apetece, mas eu deixei o meu sutiã onde estava, que já não estávamos nos tempos dos Beatles e acho que a minha professora de inglês do 10° ano também estava ali a assistir o Israel. Limites. O palco a abanar todo quando o Israel fazia sapateado. O jeito que ele fazia com os ombros, o que ele fez às ancas na musica do toreador. Joder. Não fosse a tensão que se passa em Gaza, e sempre que quisesse escrever aqui "suspiro", escreveria antes "Israel". Joder.
E depois, quando acenderam as luzes e vi o público a sair, vi quase todo o elenco do Zé Gato, agora mais velho, alguns a coxear. Apetecia-me abraçá-los, dar-lhes beijinhos, dizer que foram muito, muito bons e importantes para mim. E o meu amigo, vai, mata, esfola. E eu nada. Sempre foste uma menina
Por acaso, gostava de o ver a parir.


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