15.2.12

O outro


O museu do Quai Branly foi uma das grandes descobertas deste período libertador, em que os meus filhos começaram a ir para a escola, foi inaugurado algures entre uma gravidez e um recém nascido, pelo que foi muito cobiçado neste blog. Simboliza uma das pequenas luzes ao fundo do túnel. Neste momento orgulha-se de uma exposição sobre a invenção do selvagem que anda a fazer furor nas mesas de café parisienses. Nas chiques e nas proletárias.
Nova mulher livre e sequiosa de inputs culturais, penetrei na análise das feiras dos horrores com as mulheres com barba e os anões. Vi-me ao espelho. Avancei pelos zoos humanos do século XIX. Observei-me nos espelhos que disformam. Espreitei filmes de índios americanos que se mostravam aos habitantes do Velho Continente. Aproximei-me do espelho pequeno que decorava a parede do fundo. Aproximava-me do final quando comecei a pensar, logo depois de ter aproximado o meu olho esquerdo do espelho com uma lindíssima moldura dourada.
E no final queria apenas concluir que o dinheiro corrompe tudo e que felizmente o politicamente correcto já não permitia este tipo de atrocidades. Mas havia aquela imagem no espelho. Eu e as atrocidades a grande escala do nosso tempo tão correctinho. Ali no espelho. Nos espelhos onde espreitavam a falta de respeito pelo outro. Um espelho para a telerealidade, onde os concorrentes são escolhidos a dedo, os telespectadores andam à procura da proxima tirada para os ridicularizar, outro com os telejornais mais morbidos que informativos, outro sobre a minha passividade perante o senhor sentado no chão a pedir esmola à frente da padaria. E outro e outro. Tantos espelhos partidos. Tantos outros por respeitar.

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