11.11.14

En La Paz, nada nos detiene


Palapalapalapaz ! Seguimos o grito do motorista do autocarro que nos vai levar de Copacabana a La Paz e ignoramos os avisos sobre policias falsos que multam turistas ou roubos de malas nas paragens. Que sera, sera, assim diza também Doris Day.
No trajecto, vamos ter que atravessar o Titicaca : passageiros num barco a motor, por favor señor partimos ahora, que lo bus se vai sen nosotros, autocarro numa enorme plataforma plana.
Fechamos as janelas, apesar do calor que se faz sentir no interior do autocarro - as senhoras bolivianas, casacos de lã vestidos, têm frio. O corpo humano continua um mistério.
Lembro-me do meu primeiro Inverno em Paris, da euforia da neve, e também, do frio que sentia na cabeça, que quase estalava à noite. O frio intenso de Janeiro, que me fez duvidar se Paris era para mim.
Há uma década que sai de Lisboa, da minha ou da vossa amena Lisboa. Das praias mornas, quase desertas no Inverno. Dos casacões de sky assim que a temperatura baixa dos 20°.
Infelizmente, toda a transformação tem um reverso. Ilusões à parte, nunca se avança nesta experiência que é a vida. Hoje não suporto o meio dia nos meses quentes do Verão. Procuro a sombra e não compreendo os vizinhos que carregam o carro de sandes às 11 da manhã.

Ao aproximarmo-nos de La Paz, seguimos pelo subúrbio El Alto. Num bairro residencial como os outros, um boneco enforcado e uma ameaça aos ladrões :  não se precisa de policia. Se alguém roubar neste bairro, já sabe o que lhe espera.
Vemos mulheres de fato tradicional a trabalhar nas obras. Como homens. Como hombres ? Que sexista, señorita...

Um enorme engarrafamento, como recepção de boas-vindas. Montanhas a cercar um vale. Casas em cada centímetro de encosta. Vários adjectivos que vão sempre dar ao mesmo : enorme, impressionante, massivo.
La Paz não se parece com nenhum lugar onde já tenha estado. Recorro involuntariamente a filmes de ficção cientifica, para encontrar marcas de apoio. A Guerra das Estrelas aparece a cada dia nas fotos que tiro.
A Confusão. A ubanização anarca. As casas sem pintura que cobrem as montanhas. Os engraxadores de sapatos dos outros, com a cara tapada o dia inteiro, para fugir do julgamento de quem se acredita muito diferente. A estação de esqui que no guia de 2008 ainda estava a funcionar, os avisos dos experts face ao aquecimento global. O futuro é hoje. Ninguém mais aqui colocará botas de sky. Mas poderá andar de teleférico. Uma compensação que agrada a muitos, mas não a todos. Perguntem aos taxistas, num dia de manifestação.

O cartaz de Che Guevara na residência universitaria. O escorrega gigante num lugar de um miradouro. Os miudos. as cholitas, nos a escorregar. Os espectáculos de rua, centenas a assistir e a rir. Parecem-nos grotescos e muito forçados, não percebemos onde mora a graça aqui e sofremos desta falta de sintonia humoristica. O que esta errado connosco ? A magia negra nas lojas : fetos de lama empalhados, mezinhas e uma señora que me quer ler a sina nas folhas de coca. Porque não cedi ?
O transporte publico. Os colectivos. Os taxis clandestinos. A falta de ordem controlada por pessoas vestidas de zebra. O sinal vermelho serve para o que quiseres.

Enquanto espero que os meus filhos se fartem no parque infantil, Bob, vem falar comigo, é um ex-
presidiário from the state of Arizona, anda descalço, como eu gosto muitas vezes de fazer. Há 14 anos que deambula pelas ruas de La Paz, se precisar de uma tradução para inglês, ele pode ajudar-me. Have a nice live, Carla, enjoy, it goes by very quickly.
 I know Bob, I know.

Esqueci-me da carteira, passaportes, dinheiro, cartão, dente de leite da minha filha, na cadeira do café onde tomamos o pequeno almoço. Saio a correr, desvairada. Com esperança. Sem esperança. Encontro-a no balcão. Muchas gracias. La Paz é uma cidade segura, um exemplo é  suficiente, para uma generalização tão desejada. Nada de mal nos pode acontecer aqui. Sempre desconfiei que me sentiria em segurança no meio do caos instalado. A prova...

No museu dos instrumentos de musica, cruzamo-nos com Ernesto Cavour. Assistimos a um pequeno concerto improvisado no pátio, enquanto é entrevistado para a televisão. Vemos os instrumentos loucos que inventou. Na varanda, os meus filhos tocam no piano, na bateia e nos ferros à disposição, fazendo-me duvidar do investimento que fiz, em tempo e dinheiro no conservatorio.
No final, o Señor Cavour, tão grande e tão simples, oferece um livro-método de charango a cada um dos meus filhos, uma miniatura que assim le gustam los niños. Ele acredita no futuro deles. E eu também. Que escolha temos ?
Mais nenhuma opção queremos.
Um cartaz faz-me sorrir. Um musico toca charango e um turista comenta misericordioso coitados dos bolivianos, nem sequer têm dinheiro para comprar uma viola a sério.
Podemos viajar o que quisermos, mas vamos sempre apenas ver o que assim muito bem entendermos.

Un extra para ustedes :

14 comentários:

  1. É que uma pessoa fica sem palavras... Não é abandono ;-)

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    1. Mas uma desafinada, também tem um coração.

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  2. pois.... é que é tanta informação, tanta emoção de que transbordam as palavras escritas que ficamos a tentar absorver um bocadinho....ainda assim um leitor está sempre tão longe do vivido.....do vivido e sentido e cheirado e ouvido......

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    1. Tomara eu saber fazer melhor e escrever tudo o que se passa deste lado.

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  3. eu leio. eu posso quaso sentir.
    é bonito o jeito que escreves, carla.
    ... no fim da viagem um livro? ;)

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    1. No fim da viagem, se tudo correr bem, este blogue vai estar recheado de historias. Umas melhor contadas que outras.

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  4. "don Isaac el charanguero" :) Uma pessoa vê apenas aquilo que quer ver.
    É ir sem procurar ver o que quer que seja. Sentir, só.
    (porque é que já estás a pensar nas quatro paredes brancas?)

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    1. Sentir, só. Não estamos habituados a isso. A ver se não me esqueço, às vezes uma pessoa distrai-se.
      (Porque não controlo nada. O meu cérebro em primeiro lugar).

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  5. A 1ª foto é, literalmente(!!!!!), de cortar a respiração!!! Um miradouro com um escorrega... quem diria?!
    Tenho uma amiga boliviana que em busca de vida melhor na Europa não vê os filhos mais velhos há 6 anos!!

    Desfrutem de tudo ao máximo!!

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    1. Como se vive separada dos filhos seis anos ?
      O mundo é cheio de injustiças e está mesmo à nossa frente...

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    2. A estes 6 anos hão-de, infelizmente, acrescentar-se não se sabe quantos 6!! Há vidas muito difíceis!!

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  6. Estou a adorar cada imagem e cada palavra. A Bolívia é fascinante.
    "Podemos viajar o que quisermos, mas vamos sempre apenas ver o que assim muito bem entendermos", nao podia ser mais certeira.

    Enjoy!

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    1. A Bolivia é um outro mundo. Vim-me embora da Europa a pensar que ia fazer a volta ao mundo. Não sabia nada : Ando às voltas em varios mundos.

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