16.5.13

Ceci n'est pas un journal intime 2


Goelas abertas, nos bancos de trás, a cantarem Paris. Pelo menos metade da viagem, duas horas e meia naquilo, e eu a controlar a minha vontade de colocar os auscultadores e ouvir a minha música tranquila. Tudo porque um dia, pensei mal de uma mãe que ía com o filho, num cacilheiro, e em vez de interagir com ele minuto a minuto, como eu achava bem, estava com auscultadores a olhar Lisboa cada vez mais longe. E eu agora a dizer-me que há limites para tudo, Carla, para tudo. Nunca se deve julgar uma situação de fora. Depois podemos encontrar-nos nela, e não vamos ser livres por causa de um preconceito que já não nos pertence. Papei a gritaria toda, evidentemente - pois se eles estavam felizes - e o francês ouviu-me uma vez mais a falar sozinha. Eu, mais o meu sotaque exótico.
5 horas depois chegamos onde ele tinha nascido e crescido. Escrevo com maiúscula, Ele. Mesmo que não seja hoje o dia nacional do namorado, estou com ganas de rebeldia.

Somos agora bretões. Vou comprar amanhã um pedaço de madeira para construir as minhas socas cem por cento madeira, quais solas da borracha, quais sapatos de marca. Que sangrem os meus calcanhares.
O meu filho aprendeu frases inteiras de bretão, toda a gente impressionada com a velocidade com que assimilava palavras atrás de palavras. Deve haver vídeos de bretão no youtube, aquilo não é uma língua humana. O meu filho quer ser um cão. Deve haver ligação.
Apeteceu-me largar tudo o que não tenho e voltar à agricultura. Ser como a família dele há 2 gerações e a minha há 3, em alguns ramos, há 6. Mas a frase voltava sempre, a terra é baixa, a terra é baixa. Pelo que me fiquei por quatro partidas de terceiro-mondopoly. Acreditem, teria sucesso, enxada na mão.
Andaram de bicicleta na praia de maré baixa, disse-lhes que não precisavam de capacete. Olharam para mim escandalizados, mas tu queres-nos matar ? Não imaginam como é cansativo ser mãe de dois franceses, sempre o drama, o escândalo, os nervos à flor da pele, as greves, as manifestações. E eu que sou tanto pela paz no mundo.
Decidiram esta semana que eram franceses. E eu, marciana. E molhamos felizes os pés momentaneamente desnacionalizados, na praia de Saint Malo.

Dançamos numa fest-noz em Port-Anna no Séné, os barcos iluminados no golfo do Morbilhão, os miúdos a brincar na praia à noite, os marinheiros bretões a cantar alto, a polícia a pedir para soprar no balão a seguir à segunda rotunda. Depois de três cafés, muito deslumbrada, eu a dizer aos quatros ventos que era a melhor festa nocturna em que tinha estado, o que muito provavelmente é um exagero próprio dos povos do sul, a que pertenço. Mas mesmo assim, a prometer mundos e fundos nas festas nas aldeias portuguesas do próximo Verão, isso é que vai ser.
Quando desceu a cafeína, lembrei-me das tristes festinhas com sintetizadores e musica pimba a que tínhamos assistido no Agosto passado. Este parágrafo serve de apelo de socorro. Preciso de links e connections. Preciso descobrir onde ir em Julho ou Agosto para dançar numa festa autêntica, portuguesa.

Uma estudante de medicina brilhante, chegou de Marrakech chocada, aconselharam-lhe seguir um ramo fofinho de medicina, que lhe permitisse passar muito tempo com a família. As mulheres com lenço na cabeça impressionaram-na, com a sua atitude machista. E comentava comigo, com indignação. Comigo, a mulher que há cinco anos, seis, que não trabalha, que vive para cuidar dos seus ricos filhinhos e apenas a seguir respirar. Sem lenços no cabelo, sem extensões, nem madeixas, nem permanentes, nem anestesias gerais.
Ouvi-me a pensar tu vais ver quando tiveres filhos. Ouvi-me a rir alto, com a cumplicidade femininista e sincera que se esperava. Sou um poço de surpresas e ainda nem sequer me tinha passado pela cabeça naquela noite, que se calhar ... Femen. Um outro post sobre este assunto, logo a seguir a arrumar a casa. Aguardem vários dias, que neste momento nem fazemos ideia debaixo de que molho se encontra o aspirador.




13 comentários:

  1. Uau! Um post digno do meu regresso a este blog :D

    Quero tudo acima descrito, sintetizadores inclusive - porque acho que os sintetizadores são sim, a autêntica festa portuguesa -, menos os seis anos em casa, confesso, pois tive cinco meses e quase morri.

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  2. Re-bem-vinda Melissinha ! A tua ausência foi sentida, já a dos sintetizadores era recebida de braços abertos. Tenho que ir a uma wikipédia da música com sintetizadores, mas parece-me que deve ter chegado aos bailaricos nos anos oitenta e nunca mais dali arredou. Tenho andado por aqui http://vimeo.com/mpagdp a ouvir musica portuguesa e a suspirar : onde, como e quando me vou aproximar destes sons ?

    Seis anos em casa, posso-te contar acerca da vida depois da morte se quiseres nuns 10 posts onde vou dizer sempre as mesmas duas coisas essenciais e opostas que pairam neste blogue desde o início.

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  3. Na tua ausência imaginei dois cenários: uns caracóis esvoaçantes a fazer capotar todas as mães (e pais, e filhos) do Sudeste Asiático, liderando uma revolução contra o esquema de produção-exportação de produtos de mão-de-obra explorada; e, uns caracóis esvoaçantes a fazer mais uma daquelas viagens que me fazem pensar "o que é que eu estou aqui a fazer??". Pensando bem, ambas as hipóteses teriam o mesmo efeito, já vês que és a minha incontornável Nemesis contemporânea, merci beaucoup. Ainda bem que estás de volta :)

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    1. Por acaso ando aqui com umas ideias acerca desse teu cenário numero um... quem sabe para o ano, que 2013 não me parece ter muita vontade para me levar para longe, o mal educado, ingrato, depois de tudo o que pensei fazer por ele !

      E quando estava a fazer este post, lembrei-me do festival Andanças, para o Verão que vem ai, é desta vez que combinamos misérias dançantes e familiares ? Digo isto, mas nem sequer sei em que data calha, se é que calha este ano...

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    1. http://www.andancas.net/2013/pt/
      De 19 a 25 de Agosto, tenho que arranjar uma agenda para o Verão.

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    2. Não estou de férias nessa altura :(

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    3. Um saltinho num fim de semana ! Digo eu sem ainda ter agenda e tendo combinado ja alguns desvios à vida da praia...

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  5. Nos intervalos dos sintetizadores ainda se ouve alguma dessa música. Muitas festas populares não passam sem ranchos folclóricos. O rancho poveiro actua sempre no S. Pedro, por exemplo (http://www.cm-pvarzim.pt/municipio/associacoes/associacoes-do-concelho-1/povoa-de-varzim/grupo-folclorico-poveiro/) e ainda acontece de algumas pessoas começarem a cantar à desgarrada espontaneamente, ou se calhar, nem tanto. Já passaram alguns anos desde as minhas últimas incursões pelas festas e romarias minhotas. Por falar nisso, passaste alguma vez em Barcelos por altura das Cruzes? (http://www.cm-barcelos.pt/viver-barcelos/eventos/festa-das-cruzes)

    P.S e bem vinda.

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    1. Essa de começarem a cantar espontaneamente seria de ouro. Vou ver se consigo encaixar a festa das cruzes, sim. Obrigada.
      E contigo também tenho coisas combinadas, não me esqueci. :D

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  6. Já falei com o Hugo, este ano passamos por lá. A última vez que fui foi em 2004...

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    1. :D Então agora falta fazer um lobby para que a familia gralhense se junte ao Andanças, um ou dois dias (também não deverei ficar muito mais do que isso).

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