4.8.12

Paraíso perdido

Andava cheia de medo de abrir o Caderno da Isabela Figueiredo.Tinha razão para ter medo. Não tinha por não o abrir.
Acredito que a Isabela tenha os seus medos, ainda assim é a pessoa mais corajosa que conheço. Nunca andei com ela na escola, muito provavelmente deveria tratá-la na terceira pessoa, mas aproximou-se tanto, com os seus ares de Marylin Monroe que te convida para uma bicazinha, que só me saem frases na segunda pessoa. O respeito, esse, é do tamanho do mundo. De um novo.
A minha história com África ainda está em aberto, não sei ainda como a fechar. Viver a pensar que se nasceu no paraíso e que mal se começa a andar e já se é expulso, não permite que se seja uma pessoa normal. Sim, eu sei que elas não existem. Ao que tudo indicava, tinha vindo crescer num sítio frio e sujo, onde as pessoas eram desconfiadas e feias, onde o trabalho não seria compensado e o lazer pouco valorizado. Seria difícil ser feliz, mas felizmente haveria a Coca-Cola, o caril de gambas e histórias familiares de problemas com a pide.
Um outro futuro seria possível.
Mais de trinta anos depois, tudo é tão diferente. Já nem sequer gosto de Coca-Cola e o paraíso, afinal, não foi aquilo que era.
O passado que nos escapou, por muito bonito que pareça ser, é mais fácil de se viver quando se deixa perceber.
E faço o quê com esta falta de sentido de humor absoluta para as piadas com pretos ? Contadas por racistas, mas também por amigos de pretos, por mulheres e mães de pretos, por pretos. Esta estranheza de quem vê muito mais do que duas ou três cores.



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