20.2.26

Raia

Estávamos num barco onde dormíamos ao relento, não me lembro se tínhamos sequer sacos cama, não tínhamos frio, não tínhamos duche, não tínhamos net, nem telefone, não tínhamos o que noutras vidas se chamaria de conforto. 

Naquele dia, quando acordámos, vimos mantas-raias a saltar da água, saltos altos para depois mergulharem espalmadas no mar. Não estava um dia particularmente bonito, diriamos, se estivéssemos numa outra vida, numa vida do dia a dia. Estava cinzento, A visão era um espanto e espantados estávamos. Não me lembro de nada ao largo. Não sei se haveria terra ao horizonte. Nada disso importava. Colocámos as máscaras e os tubos. Os nossos filhos eram pequenos e não iam nadar, tinham acabado de acordar, não queriam. O francês estava lento. Mas eu estava naqueles dias em que não sabemos hesitar e mergulhei. Lembro-me que o mar estava com pouca luz, no início fiquei a nadar na superfície. Nada mais importava. Nada mais importava. Em baixo de mim, um cardume da raias enormes nadava. Deslizava. Voava de baixo do mar. Eu seguia. Hipnose. Uma paz divina. Meço as minhas palavras. A cura. E nada mais importava. 

Já passou uma década. E quando penso nesse momento, nada mais importa novamente.  



Este texto responde a um desafio do grupo Largo

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